Johannes Eisele/AFP
Johannes Eisele/AFP

Árbitro do Mundial, VAR começa como a grande estrela da Copa do Mundo

Novidade na competição, sistema já definiu três dos oito pênaltis marcados

Marcio Dolzan e Jamil Chade, enviados especiais / Sochi e Moscou, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2018 | 05h00

Mais que Neymar, Messi ou Cristiano Ronaldo, o nome mais lembrado na Copa do Mundo até o momento tem três letras: VAR. Trata-se da sigla em inglês (video assistant referee) para árbitro assistente de vídeo, ou seja, o grupo de auxiliares que, ao analisar imagens exibidas em vários monitores, pode indicar ou não uma infração, ajudando o juiz principal. Até esta segunda-feira, com cinco dias de disputa, a novidade tecnológica da Fifa decidiu sobre três dos oito pênaltis marcados nos 14 primeiros jogos disputados na Rússia – o mais recente definiu a vitória da Suécia por 1 a 0 contra a Coreia do Sul.

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Os lances mais polêmicos, no entanto, não se transformaram em infrações: o suposto pênalti sofrido por Gabriel Jesus e, principalmente, o empurrão que Miranda teria sofrido, permitindo o gol de empate da Suíça, lances ignorados pelo árbitro mexicano Cesar Ramos. A cúpula da Fifa afirmou estar “satisfeita” com as decisões e insistiu que o VAR funcionou. O uso do vídeo só não pode tirar do futebol seu caráter de contato. “Caso contrário, matamos o jogo”, afirmou um dos principais dirigentes da entidade.

Depois de uma revisão da partida, a comissão de Arbitragem e seu diretor Pierluigi Collina acreditam que não houve uma falha evidente. A decisão abriu uma crise política entre Fifa e CBF – nesta segunda, a Confederação brasileira passou a ser a primeira no mundo a questionar, por meio de uma carta, o uso da tecnologia e seus critérios. A crítica foi recebida com irritação na Fifa, que insiste que os lances duvidosos contra a Suíça foram avaliados e que a ordem dos técnicos na cabine foi para “seguir o jogo”.

A comissão admite que a tecnologia não vai acabar com as polêmicas e com as subjetividades. Ao Estado, um dos diretores da Fifa também disse que existe uma orientação de que nem todos os lances devem ser alvo de uma reavaliação de vídeo, paralisando o jogo.

 

A avaliação é de membros da comissão de arbitragem da Fifa que vem se reunindo diariamente para avaliar a situação. Ao Estado e na condição de anonimato, um dos principais nomes da arbitragem da Fifa não disfarça seu sentimento de que o uso da tecnologia não representa o fim dos debates no futebol.

Não restam dúvidas, segundo a entidade, que os erros poderão diminuir com o uso da tecnologia. “Quando o debate é se a bola cruzou ou não a linha do gol, teremos uma ajuda fundamental”, disse um dirigente.

Mas, em algumas ocasiões, como no caso do lance entre Miranda e o atacante suíço, a decisão continua sendo subjetiva. “Você pode ver a imagem mil vezes. Mas não há como saber se o toque foi apenas um toque ou se houve força para empurrá-lo”, explicou um dos árbitros. “Do outro lado do computador, continua havendo um ser humano”, comentou.

Esse não foi o único caso de controvérsias. O técnico da Austrália, Bert van Marwijk, criticou o árbitro uruguaio Andres Cunha depois de ele ter optado por dar um pênalti para a França ao rever um lance pelo vídeo. “Espero que um dia exista um árbitro muito honesto”, disse. O lance resultou no gol que deu a vitória para a França por 2 x 1 contra a Austrália.

A tecnologia poderá também servir como um escudo para árbitros duvidosos. “Alguns podem fazer com que a VAR se torne uma muleta e, com isso, entregar ao vídeo praticamente todas as decisões”, advertiu Arnaldo César Coelho ao Estado, em abril.

Seja como for, a medida é vista como positiva. “Estamos apenas começando, mas estamos convencidos de que o vídeo será benéfico para o futebol porque o comportamento vai mudar”, disse Pascal Garibian, diretor da entidade de árbitros da França, em entrevista ao France Football.

Uma dessas mudanças foi antecipada pelo preparador de goleiros da seleção, Taffarel, que, em maio, afirmou que aumentaria o número de pênaltis durante o Mundial. A previsão do tetracampeão em 1994 veio acompanhada de um alerta, a de que os goleiros precisariam fazer um trabalho específico para isso. “A gente faz um trabalho integrado com os analistas de desempenho da seleção, para buscar informações dos adversários, dos prováveis batedores de pênalti”, completou o outro preparador, Rogério Maia, na mesma ocasião. “A gente não pode deixar de estudar esse tipo de situação.”

DEBATE: o VAR está ajudando a arbitragem no Mundial?

SIM - Cleber Wellington Abade, ex-árbitro da CBF e da Federação Paulista

Acho ótimo o VAR. Toda a tecnologia que for usada para o resultado ser o mais correto é bem-vinda. Na Copa, também estão usando o chip na bola, que tem dado resultado. É natural que, por ser algo novo, ajustes precisem ser feitos. Poderia ser como no vôlei, onde as equipes podem solicitar o VAR uma vez por tempo. Isso, talvez, pudesse mudar o resultado do jogo do Brasil, já que o lance da suposta falta em cima do zagueiro Miranda no lance do gol da Suíça foi motivo de muita reclamação, pois o árbitro sequer usou a ajuda.

No jogo da França, a tecnologia salvou a pele do árbitro. Caso não existisse o VAR, o placar poderia ter sido 1 a 0 para a Austrália, com uma enorme injustiça, já que a França teria um pênalti não marcado e uma bola que entrou e o juiz poderia não ter visto. No fim, o 2 a 1 para os franceses foi justo.

Um problema que temos hoje é que o árbitro tem uma fração de segundos para decidir o lance enquanto a televisão passa o replay em câmera lenta em toda jogada, você pode ver pênalti ou alguma infração. Tendo ajuda externa, os erros tendem a diminuir e os resultados serão mais justos.

NÃO - Guilherme Ceretta de Lima, ex-árbitro da CBF e da Federação Paulista

O árbitro de vídeo não pode ser usado pela metade. Ele precisa resolver os problemas ou é melhor nem tê-lo. Se existir situação em que seja clara a necessidade da interferência do VAR e ele não for utilizado, melhor nem existir a ferramenta.

Do jeito que está sendo usado, acaba não sendo justo em todos os jogos. É como se tivesse uma partida com o VAR e outra sem o VAR. Isso faz com que o princípio de igualdade para todas as equipes seja deixado de lado, o que é um risco grande, principalmente em um torneio de “tiro curto”. Na fase de grupos, já é necessário ser o mais justo possível. Quando começar o mata-mata, ele precisa ter uma eficiência ainda maior quanto à utilização, principalmente em lances que não cabem interpretação e em que é evidente a necessidade da ajuda externa para corrigir um erro grave que esteja sendo cometido.

No jogo do Brasil, por exemplo, o correto seria a utilização do VAR para não ter dúvida alguma sobre o que foi marcado. Já houve jogos em que o árbitro de vídeo interferiu no resultado, como aconteceu na partida da França, e poderia ter ocorrido com a seleção brasileira.

 

 

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