Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Árbitro vítima de racismo no Sul teme represálias pela denúncia

Márcio Chagas da Silva terá um julgamento nesta quinta-feira em Porto Alegre

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2014 | 05h00

SÃO PAULO - A Federação Gaúcha julga nesta quinta-feira, a partir das 17h30, as ofensas racistas sofridas pelo árbitro Márcio Chagas da Silva no jogo Esportivo e Veranópolis na última quarta-feira e o fato de ele ter encontrado seu carro amassado, riscado e com bananas no teto e no cano de escapamento na saída do estádio Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves.

Se for considerado culpado, o Esportivo, dono da casa, pode perder três pontos ou até ser excluído no Campeonato Gaúcho, em pena prevista no artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. A delegada responsável pelo caso, Deise Ruschel, informa que já tem suspeitos, mas mantém os nomes em sigilo para não atrapalhar as investigações.

Em entrevista exclusiva ao Estado, o árbitro Márcio Chagas afirma que espera uma punição exemplar em função da frequência com que os atos racistas acontecem no Campeonato Gaúcho. "Espero uma medida exemplar para o clube e também para os torcedores. Não quero me manifestar sobre a punição ideal, mas é hora de dar um basta. Chega de impunidade", disse o árbitro, que foi convocado para o julgamento juntamente com os auxiliares Marcelo Bertanha Barison e Antonio Cezar Domingues Padilha.

Márcio Chagas acredita que pode sofrer retaliações por ter denunciado uma prática que considera corriqueira. "Posso deixar de trabalhar por ter exposto uma situação que, infelizmente, é comum na Serra Gaúcha. É difícil trabalhar lá. Isso não aconteceu só comigo. É frequente. Até mesmo com pessoas que não são negras, mas têm a pele um pouco mais escura", afirma o árbitro de 37 anos, formado em Educação Física.

Márcio já havia sido vítima de ofensas racistas em dois episódios. Em 2005, sofreu os mesmos xingamentos no jogo Encantado x Caxias, no Estádio Centenário. Na época, o técnico Danilo Mior, do Encantado, o chamou de "negrão coitado". Márcio relatou o fato na súmula e Danilo acabou suspenso por 60 dias. Em 2006, o goleiro do Esporte Clube Cruzeiro saiu de campo algemado depois de ter chamado o árbitro de "macaco ladrão". O atleta respondeu ao processo, mas a pena foi transformada no pagamento de cestas básicas. "As pessoas não imaginam como uma ofensa racista é danosa", diz Márcio.

Por causa do julgamento de hoje, cercado de grande expectativa em Porto Alegre, Márcio Chagas não vai participar de uma audiência com a presidente Dilma Rousseff e o ministro Aldo Rebelo para homenagear esportistas negros. O volante Tinga, do Cruzeiro, estará presente por ter sofrido racismo na partida contra o Real Garcilaso, em fevereiro, no Peru. Arouca, do Santos, chamado de "macaco" na goleada sobre o Mogi Mirim por 5 a 2, na semana passada, foi convidado, mas não participará do evento por causa de compromissos pessoais em Santos.

Por causa das ofensas ao jogador do Santos, o Mogi Mirim foi denunciado ontem pelo Tribunal de Justiça Desportiva e corre o risco de perder três pontos e até ser excluído da competição – as mesmas penalidades previstas para o Esportivo pelas ofensas ao árbitro Márcio Chegas. O julgamento será na segunda-feira.

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