Paulo Liebert/Estadão
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Arenas

O torcedor não é burro. Sabe de tudo do seu time, mas se recusa a aceitar

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 04h00

Torcedor não é burro. Sabe que seu time é medíocre, que é uma equipe igual a tantas que existem por aí. De grande só restam as cores, quando não são vergonhosamente alteradas, e os nomes. Podem-se contar nos dedos de uma mão quem está jogando bola neste País. Na minha opinião só o Grêmio, uma mísera exceção, perdida nesse mar de pobreza técnica. O torcedor sabe disso, acompanha o clube, conhece o que pensa o técnico, diretores, suas características, o modo como agem. Tem, portanto, mais conhecimento que qualquer um da situação do seu time. Se vai aos jogos sabe perfeitamente o que o espera.

Nesta semana que passou os torcedores do Santos, do Corinthians e do Palmeiras não deveriam ter qualquer surpresa proporcionada pelos jogos de seus times na Libertadores.

A despeito do que se falava em parte da imprensa, lembrando viradas milagrosas, todo torcedor do Santos no fundo sabia que estava diante de uma tarefa impossível ao se defrontar com o Independiente nas condições sabidas por todos. Os corintianos sabiam, mais do que qualquer outro torcedor, a que foi reduzido um time que apenas um ano atrás era campeão brasileiro, e temiam por sua sorte, mesmo tendo diante de si um rival fraco e cheio de veteranos renegados como atração principal. Os torcedores do Palmeiras, que parecia nadar em águas tranquilas, sabiam muito bem que se trata de um time que joga para não perder, não para ganhar. Que joga em qualquer circunstância, mesmo em seu campo, com três volantes protegendo zagueiros que por sua vez são os encarregados de lançar bolas longas à frente, na esperança de alcançar um avante para trombar com os zagueiros contrários.

Torcedores de todos os times sabiam de tudo, mas se recusavam a aceitar. No caminho para as Arenas parecem ir adquirindo outro senso de realidade. O que é fato e visível desaparece e no seu lugar surge o irreal, o sonhado. E chegam no campo na expectativa de ver realizados seus sonhos de vitórias impossíveis, de classificação heroica, de poderio futebolístico. Libertadores não é lugar para sonhos, no entanto. Nela o que vale é a dura realidade.

Jogos entre times com muitos veteranos que não têm nada a perder, de garotos à espera de um milagre que mude suas carreiras, de técnicos ansiosos, à espera que venham a ser lembrados ou relembrados. É no meio dessa legião de aventureiros profissionais, nômades da bola e moleques imberbes dispostos a deixar sua alma no campo que se desenrolam os sonhos alucinados que tomam as arquibancadas.

Quando esse exército de Valdivias, Barrios, Felipes, Emerson Sheik e outros percebe o clima que chega das massas, incendeia o jogo, como talvez a última, a única forma de brilhar diante de uma multidão ensandecida e de voltar a ser os heróis que foram. E acabam contaminando também os que pretendem ser. O futebol desaparece, na melhor das hipóteses, substituído pela catimba desenfreada, explorando juízes perplexos. Na pior, pela ignorância, agressões, sangue, ambulâncias no campo e batalhas contra a PM. A culpa não é da Libertadores. É de quem, na falta de ter verdadeiros grandes jogadores na equipe, incute na cabeça do torcedor que para ganhar a Libertadores basta dar pontapé e “comer grama”.

O Santos, há alguns anos, ganhou uma Libertadores com Neymar e Ganso, e só precisou disso. O Grêmio ano passado ganhou a Libertadores sem incidente grave. Ao contrário, contava com a liberdade e a alegria que vinham do banco de Renato Gaúcho. E o melhor jogo que vi nesta Libertadores foi o Palmeiras na vitória sobre o Boca em plena Bombonera, sem guerra nem palhaçadas. Deveu-se ao fato de que naquele dia alguém controlava nossos “pitbulls” e alguém controlava os deles. 

 

 

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