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Arenas seletivas

Cartola escancara a tendência de elitização ao admitir que 'futebol não é coisa pra pobre'

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2017 | 03h00

Você sabia que nesta quarta-feira é o Dia Nacional do Futebol? Pois é, num desses momentos em que falta algo melhor para fazer, se resolveu instituir uma efeméride para celebrar o esporte mais popular do país. A data refere-se à fundação do Rio Grande, pioneira equipe gaúcha de 1900, pouca coisa mais velho do que a gloriosa Ponte Preta (11 de agosto do mesmo ano).

O joguinho de bola continuará a ser popular por muito tempo – a hegemonia, por aqui, nem de longe se vê ameaçada por outras modalidades, que infelizmente se destacam de maneira esporádica. Mas cada vez mais seletivo, ao menos no que se refere à frequência aos estádios, muitos rebatizados como Arenas, termo moderninho, gourmetizado e excludente.

O refinamento está escancarado nas tribunas, distantes de quem tem bolsos vazios. Os preços praticados pelos clubes sobem além da inflação, tal qual planos de saúde, atraem públicos com maior poder aquisitivo e tendem a virar programa elitista. As ações de sócio-torcedor por um lado fidelizam a plateia; por outro, restringem a variação no perfil do frequentador. 

Não é por acaso que viralizou nas redes sociais imagem de um senhor vestido de forma muito simples e com sandália de dedo na arquibancada da Ilha do Urubu em recente jogo do Flamengo. Negro, velho, aparentemente pobre – e isolado, num cantinho. Não havia ninguém ao lado dele, parecia deslocado, quase a pedir desculpas pela ousadia de ter ido ao "campo". 

Por isso, não é de estranhar o que disse Alexandre Kalil, em reportagem publicada na edição brasileira e digital de El Pais que provocou celeuma. O ex-presidente do Atlético-MG e hoje prefeito de Belo Horizonte – eleito, portanto, com voto popular – afirmou que "futebol não é coisa para pobre".

Fez a observação ao comparar que ingressos custam caro, "no mundo todo", como se o mundo todo fosse igual. Não levou em conta diferenças entre Europa e Brasil, não considerou que, mesmo agremiações ricas como o Bayern, destinam setores a preços bem acessíveis – até para padrões tupiniquins - na Allianz Arena, em Munique.

O ex-cartola na verdade repetiu parte de discurso que adota há algum tempo, como se fora uma constatação apenas, de algo irreversível, "doa a quem doer". A tendência é essa, e fim de papo. O raciocínio é linear: os clubes têm despesas crescentes, necessitam de maiores fontes de receita, descobriram que têm freguesia que aceita bilhetes caros. Portanto, na base da lei de oferta e procura mandam ver na tarifa.

A lógica de Kalil suscita discussões e recebe apoio significativo, em grande parte de admiradores de seu trabalho como cartola do Galo. E de muitos que acham que é assim mesmo que caminha o futebol. O que tampouco surpreende, pois é reflexo do momento de divisão profunda da sociedade. 

Kalil recorda que, na campanha da Libertadores de 2013, encheu estádio com entradas em média a R$ 250. Desconversou, quando o repórter Breiller Pires argumentou que, anos antes, diante da ameaça de rebaixamento do Atlético, no Brasileiro, o então presidente colocou ingressos a R$ 5 para ter apoio maciço. "Isso foi em outra época", disse.

Os clubes voltam-se para outra categoria de cliente e relevam um reflexão democrática e de bom senso: podem e devem buscar saúde financeira, têm direito de arrecadar. No entanto, deveriam estudar alternativas para manter setores a baixo valor. No mínimo, como estratégia de marketing, senão por justiça. 

Esquecem, por exemplo, que construções ou reformas de estádios são, na maioria, bancadas com dinheiro público, assim como o refinanciamento de dívidas e várias isenções fiscais. Cartolas, como políticos, lembram do "homem do povo" na hora do aperto ou do voto.

 

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