Carlo Fumagalli/AP
Carlo Fumagalli/AP

Argentina de Menotti e Kempes triunfa em casa e fatura a Copa de 1978

Torneio dos mais políticos da história teve "marmelada" que eliminou o Brasil e título sobre uma Holanda sem Cruyff

Renan Cacioli, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2018 | 03h00

Se futebol e política integram, junto com religião, a tríade que não se discute, a Copa de 1978 virou um prato cheio para polêmicas: um torneio futebolístico disputado em meio à ditadura militar de Jorge Videla, na Argentina, que terminou envolvo a suspeitas de “marmelada”. O primeiro Mundial conquistado pelos “hermanos” teve também um campeão moral, o Brasil, maior prejudicado por um dos resultados mais surpreendentes da história das Copas.

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Aliás, não há como falar sobre o enredo daquela edição sem começar pelo seu fim: para avançar à decisão contra a Holanda, novamente finalista diante do anfitrião do torneio, a equipe dirigida por César Menotti precisava derrotar o Peru, na última partida da fase semifinal, por ao menos quatro gols de diferença. O saldo dos brasileiros, concorrentes diretos na chave, era bem superior, principalmente depois da vitória por 3 a 1 sobre os poloneses em duelo realizado poucas horas antes de argentinos e peruanos se enfrentarem.

A goleada por 6 a 0 que carimbou a vaga da Argentina à final viraria mote para as mais diversas teorias da conspiração surgidas após aquele jogo: de uma atuação, digamos, tecnicamente incomum do goleiro peruano Quiroga (nascido no país-sede) a um grande acordo entre ditaduras sacramentado antes da Copa – o Peru era governado pelo general Francisco Morales Bermúdez e integrava o Plano Condor, um pacto entre ditadores latino-americanas para reprimir adversários políticos.

Como se não bastasse a cisma em torno dessa trama extracampo, dentro das quatro linhas a seleção peruana não parecia tão vulnerável a ponto de levar uma sacolada dessas. Apesar de vir de duas derrotas na segunda fase, incluindo um 3 a 0 para o Brasil, ela havia surpreendido ao ficar à frente da Holanda na fase de grupos.

Fato é que a combinação de resultados tirou da seleção canarinho a possibilidade de lutar pelo tetra. Restou, como prêmio de consolação, a vitória diante da Itália na disputa do terceiro lugar. “O Brasil não é o campeão do mundo, mas é o campeão moral”, afirmaria, pouco depois do torneio, o técnico Claudio Coutinho, que liderou um time bastante talentoso a uma campanha invicta: quatro vitórias e três empates.

Com nomes como Leão, Nelinho, Dirceu, Zico, Reinaldo e Roberto Dinamite, o Brasil começou a Copa vacilante, com dois empates: Suécia (1 a 1) e Espanha (0 a 0). Derrotou a Áustria pelo placar mínimo para confirmar a classificação à segunda fase, quando mostrou seu melhor futebol. Além da vitória por três gols sobre os peruanos, segurou um 0 a 0 em jogo bastante pegado diante da Argentina e se vingou da Polônia, de Lato, algoz da disputa do teceiro lugar, em 1974, com o triunfo por 3 a 1. No jogo que valia a terceira colocação, saiu atrás dos italianos, mas virou com gols de Nelinho e Dirceu.

Ainda sem Maradona, considerado jovem demais aos 17 anos para defender a seleção, a equipe da casa apostou no faro de gol de Mario Kempes, que seria o artilheiro da competição, e na força defensiva do sistema liderado por Daniel Passarella e pelo goleiro Fillol.

Após superar Hungria e França pelo mesmo placar (2 a 1), perdeu a invencibilidade diante dos italianos (1 a 0), o que jogou os “hermanos” para o grupo de brasileiros e poloneses na fase semifinal. Foi quando Kempes passou a fazer a diferença.

Na grande final, o encontro foi com uma Holanda que já não tinha Cruyff, ausente da Copa por razões familiares. Mas contava ainda com praticamente toda a base do Carrossel Holandês, incluindo Neeskens, Rensenbrink e Johnny Rep. Os donos da casa saíram na frente, com Kempes, mas levaram o empate de Nanninga a oito minutos do fim, e uma bola no travessão chutada por Rensenbrick no último minuto do período normal. Na prorrogação, Kempes, mais uma vez, e Bertoni decretaram o placar final de 3 a 1. Em Buenos Aires, futebol e política saíam vitoriosos.

FICHA DA FINAL

ARGENTINA 3 X 1 HOLANDA

ARGENTINA: Fillol; Olguín, Galván, Passarella e Tarantini; Gallego, Ardiles (Larrosa) e Kempes;

Bertoni, Luque e Ortiz (Houseman). Técnico: César Menotti.

HOLANDA: Jan Jongbloed; Ruud Krol, Wim Jansen (Suurbier), Brandts e Jan Poortvliet; Neeskens, Arie Haan e Willy van der Kerkhof; René van der Kerkhof, Johnny Rep (Nanninga) e Rensenbrink. Técnico: Ernst Happel.

GOLS: Kempes, aos 38 do 1º tempo, Nanninga aos 37 do 2º; Kempes, aos 15 do 1º tempo da prorrogação, Bertoni, aos 10 do 2º

ÁRBITRO: Sergio Gonella (ITA)

CARTÕES AMARELOS: Ruud Krol, Ardilles, Larrosa, Suurbier, Neeskens

DATA: 25/6/1978

PÚBLICO: 71.483 pessoas

LOCAL: Estádio Monumental de Nuñez, em Buenos Aires

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