Argentinos ficam perplexos com placar

Os acordes de "Wave", uma das mais emblemáticas melodias de Tom Jobim, soavam nesta quarta-feira à noite em pleno coração da Recoleta, um dos bairros mais chiques da capital argentina. No calçadão em frente ao complexo Village de bares, cinemas e livrarias, o saxofonista Andrés De la Fuente, argentino de 51 anos, tocava a bossa nova na esperança de ganhar alguns trocados. Consultado pela Agência Estado, De la Fuente explicou que não era um amante do futebol, e que ontem à noite, sua vontade era de desfrutar as músicas do "maestro" Jobim. Nesse exato instante, 4 minutos e 39 segundos do primeiro tempo, a seleção argentina emplacou seu primeiro gol.Um grito de alegria retumbou a 20 metros dali, no bar temático "Locos por el Fútbol" (Loucos pelo Futebol), dedicado aos fanáticos desse esporte. O bar, sem nenhum lugar vazio, estava repleto de "inchas" argentinos e um punhado de brasileiros, que acanhados, ouviram as gozações dos nativos.Mas, a poucos metros dali, na livraria e café "Cúspide", duas dezenas de pessoas bebericavam ristrettos e folheavam as últimas edições de obras de Umberto Eco, ignorando as celebrações de "Locos por el Fútbol".Pouco depois, aos 18 minutos, na rua Costa Rica, no bairro de Palermo, no bar "Me leva Brasil", um dos mais tradicionais pontos de encontro da comunidade brasileira em Buenos Aires, o clima voltava a ser de perplexidade. Dentro do bar, mais de 60 brasileiros (e alguns argentinos "brasileirófilos") assistiam o jogo em vários televisores espalhados no estabelecimento e comentavam o desastre.A arquiteta Débora Bessa, residente na capital deste país há quatro anos, disse que o clima era de "final de Copa do Mundo": "este jogo não é meramente um confronto regional...é um jogo que o mundo inteiro está observando!" Do lado de fora, uma dúzia de adolescentes argentinos agüentavam o frio de 10 graus para disparar ácidas gozações à comunidade brasileira.O bar-danceteria "Maluco Beleza", na rua Sarmiento, a poucas quadras do Congresso Nacional, era o ponto programado para a celebração da vitória brasileira, considerada "assegurada" pelos representantes do Brasil na cidade horas antes do jogo. Mas, no segundo tempo, o clima já era de desânimo.A uma quadra dali, na Avenida Corrientes, alguns teatros continuaram funcionando, apesar do jogo. Vários dos tradicionais sebos também estavam abertos, impassíveis em relação à disputa no Monumental.Os comentaristas esportivos nos canais de TV argentinos estavam perplexos pelo resultado, e não conseguiam descifrar o que estava acontecendo com a seleção brasileira. "Três gols no primeiro tempo? Não me lembro de ter visto nada assim em um jogo contra o Brasil", comentavam no Canal 13. O tom de inevitabilidade da vitória brasileira ainda era tão forte, que os locutores esperavam que no segundo tempo ocorreria uma forte reação dos jogadores de Parreira.No intervalo entre o primeiro e o segundo tempo, a primeira publicidade na TV mostrava Diego Armando Maradona vencendo o acirrado jogo contra a Inglaterra na Copa de 1986. O spot publicitário encerrava com a frase "nada como ser argentino quando vence a Argentina". Ironias da vida, a propaganda era da cerveja Quilmes, que ostenta o título de "patrocinadora oficial da seleção argentina". A Quilmes, a mais tradicional marca de cerveja do país, é propriedade da brasileira AmBev.

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