Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Arrogância do futebol brasileiro

É preciso admitir que não somos o que pensarmos ser: uma NBA do futebol

Maurício Noriega*, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 04h00

Pouco mais de uma semana após a poeira baixar, quando o mais cobiçado tesouro do futebol é cortejado por franceses e croatas na Rússia, é tempo de nós, brasileiros, refletirmos sobre nossa paixão esportiva. Convido o leitor a fazer este exercício comigo. Quando o assunto é futebol, o brasileiro é soberbo e prepotente. Técnicos, atletas, jornalistas, dirigentes, torcedores, todos exalamos arrogância. Falta humildade aos brasileiros para reconhecer que, embora sejamos a nação mais vencedora, não somos os únicos a dominar os segredos e truques desta arte. Recordemos as reações à derrota para a Bélgica. O rival nunca vence, sempre é o Brasil que perde. Antes de a bola rolar em Kazan, vaticinamos que a Bélgica não tinha história, camisa e tradição. Após a eliminação nos apressamos a buscar justificativas para a derrota, culpando árbitro, jogadores, treinador e lamentando a falta de sorte. Atletas do passado assumem o espírito de corpo e se apressam em defender os colegas do presente. O adversário nada fez por merecer o resultado.

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O mundo do futebol brasileiro é uma espécie de Coreia do Norte. Vive-se uma realidade paralela na qual nos entendemos senhores absolutos da modalidade. Aprendemos por osmose, praticamos por instinto e conseguimos doutorado na faculdade do quem jogou sabe. Na real, a pátria boleira onde brotam craques em cada canto deixou a Rússia derretendo-se por um camisa 10 croata, um centroavante belga, um atacante francês, um goleiro inglês e por aí vamos.

Claro que não podemos desprezar nossa história, o passado de glórias que fez o futebol ser admirado pelo globo e vencer cinco vezes a Copa com a qual muitos sonham. Mas é preciso admitir que não somos o que pensarmos ser: uma NBA do futebol. Enquanto o futebol brasileiro não voltar os olhos com carinho para a base, para a formação e o fundamento de seus jovens, que chegam ao estrelato cada vez menos capacitados tecnicamente, com defeitos terríveis em funções básicas do jogo; enquanto não houver genuíno interesse pela melhora da qualidade do Brasileirão, critério técnico para a escolha dos amistosos do Brasil e profissionalismo na formação e capacitação para o exercício de funções técnicas, executivas e administrativas, continuaremos assistindo ao domínio europeu.

 

Foi-se o tempo da camisa que entorta varal. Vivemos a era do “mimimi” das redes. Muito da experiência acumulada dentro de campo por atletas de excelência se perde por falta de interesse dos dirigentes em formá-los para novas funções e dos ex-jogadores em aprendê-las. Lembre-se: no futebol brasileiro, quem jogou sabe tudo e nada tem para aprender com “a turma da faculdade”. Assim como a turma da faculdade teima em não reconhecer a sabedoria daqueles que jogaram. Assim, perdemos a naturalidade com que encantávamos o mundo. Talvez tenha sido por essa falta de Norte que o destaque na Mãe Rússia tenha sido um gaiato fantasiado de canarinho nervoso. Para pensar.

*COMENTARISTA DO SPORTV

 

 

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