Artesãos revelam o orgulho de produzir as redes dos estádios

Fernando Pinotti e Hilda Gomes mantêm a tradição de realizar o toda a confecçao do material de forma manual

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2014 | 16h41

O empresário e artesão Fernando Pinotti tem um olhar diferente quando acontece um gol. Primeiro, fica emocionado quando a bola estufa a rede e faz com que ela cresça tanto quanto a alegria da torcida. Depois, acompanha atentamente quando o goleiro vai buscar a bola dentro do gol, tenta afastar as redes, mas fica meio embolado nela (ou no seu sofrimento?) e busca forças para recomeçar o jogo. Não foi à toa que a palavra rede apareceu tantas vezes até aqui. Essa é a vida de Fernando Pinotti. Ele vive de fabricar as redes dos gols dos estádios brasileiros e torce pelo gol para ter esses prazeres especiais. O placar é quase secundário. “A coisa mais importante do jogo é a rede do gol”, sorri.

O trabalho de Pinotti é demorado, caprichoso e artesanal. Sim, feito com as mãos. Ele leva quase seis dias para produzir um par de redes. Pudera: são centenas de nós e laços feitos com alicate, tesoura e régua em uma rede com 7 x 2,5 m. Ele faz quadradinho por quadradinho. Ou hexagoninho por hexagoninho, de acordo com o gosto do freguês.

O Corinthians, por exemplo, um dos clientes da Redarte, empresa de Pinotti, fez um pedido especial. Queria colocar sua identidade visual também nas balizas. A diretoria decidiu trocar as redes anteriores, brancas, de acordo com o padrão Fifa, e colocar ali as cores do clube, o preto e o branco, com linhas horizontais. A estreia das redes foi na vitória contra o Goias por 5 a 2, na quinta-feira, pelo Campeonato Brasileiro. E Pinotti ficou feliz da vida com a repetição do seu ritual particular do gol.

Antonio Perestrelo Martins, outro fabricante de redes, já havia feito uma encomenda parecida – redes de outra cor – na Arena Barueri há alguns anos. Produziu redes azuis para acompanhar as cores da equipe. “Ficou bonito, mas o problema é a transmissão da tevê. O azul desaparece. A melhor cor é a branca”, afirma.

MÁQUINAS

Embora o trabalho manual seja dominante no mercado de fabricação de redes, também existem aquelas feitas industrialmente. O ganho de produtividade, obviamente, é enorme. As redes industriais são ideais para coberturas de ginásio e janelas de apartamento, pois utilizam grandes porções do pano aberto. No caso das traves do futebol, as máquinas têm dificuldade com medidas especiais e aqueles caprichos do cliente. É inviável economicamente mudar as medidas de uma rede no meio da fabricação, como exigem os cantos das balizas, por exemplo. As máquinas ganham no volume, mas perdem no capricho.

Em relação aos custos, as industriais são um pouco mais vantajosas. Esse foi o principal argumento para o Palmeiras escolher suas redes. No CT, continuarão sendo brancas, como as da Fifa. “Na industrial, a bola bate e volta. O ideal é quando ela adormece na rede”, justifica Pinotti. A questão econômica também dificulta a construção de uma fábrica de redes. “O maquinário para produção é caro para investimento inicial. O que só grandes empresas têm condições de fazer”, diz Marcel, herdeiro de Pinotti e que segue os passos do patriarca.

 

Olhando a maneira como dona Hilda de Oliveira Gomes trabalha, fica fácil perceber a diferença entre uma rede manual e a industrial. Máquina nenhuma é capaz de entrelaçar os fios de um jeito rapidinho assim, mas cheio de prazer do que vai se formando nas suas mãos.

Durante 28 anos, ela confeccionou redes para vários clubes do interior de São Paulo, entre elas, aquelas azuis da Arena Barueri. Ela também gostava de ir ao estádio para vê-la balançar. “Era uma sensação boa, não sei explicar direito”, diz. “É uma coisa simples, mas nem todo mundo consegue fazer”. Dona Hilda não tem ideia da quantidade de nós e laços que ela faz em cada rede. Primeiro, porque os tamanhos variam; segundo, porque daria muito trabalho contar. Mais que fazer.

Em Pirapora do Bom Jesus, local onde mora, o negócio das redes era forte na década passada. Grande parte dos moradores vivia da produção das redes. A renda sempre foi minguada – uma rede feita com o fio dois, o mais grosso e trabalhoso, rendia R$ 50. Ela não trabalhava diretamente para os clubes, mas sim para outras empresas. O bom é que dava para trabalhar em casa e conciliar com a louça para lavar e a roupa para passar. Com isso, dona Hilda pôde acompanhar o crescimento dos filhos. “Nenhum deles se envolveu com coisa errada”, diz a mãe do Maílson e da Leda.

A história de dona Hilda está no passado porque o negócio das redes secou e ela teve de mudar de vida. Arrumou um emprego na área de limpeza da escola municipal Senhor Bom Jesus. As redes? Só de vez em quando.

FUTURO

Na outra ponta do mercado, os valores são melhores. A rede que cobre hoje as traves da Arena Corinthians custaram cerca de R$ 2 mil. São feitas para durar três anos, mas depois de doze meses começam a ficar amarelada. Aí, já era. O ideal é trocar. Mesmo com essa relação de valor e durabilidade, Marcel afirma que o negócio é rentável.

Embora a Associação Comercial de São Paulo não faça estudos específicos sobre o setor, a percepção geral dos empresários é de que existe espaço para todo mundo, artesãos e industriais. “Nosso desafio é crescer”, diz Marcel, que soma hoje cinco funcionários em um galpão na zona oeste de São Paulo. O pai deixa claro que existe algo intangível nesse negócio, além das planilhas. Se os clubes não procurarem mais seu trabalho, ele diz que vai trabalhar na várzea, mas não vai abrir mão de ver a rede balançar. Suas redes.

PESCADOR

O início das atividades de Fernando Pinotti foi outro tipo rede nos anos 80. Ele fabricava redes de pescas no Farol de Santa Marta, um dos pontos mais bonitos de Santa Catarina. Teve de aprender a fazer redes para pescar, trabalhar e sobreviver. Era esse seu sustento.

Pinotti afirma que essa é a origem da maioria dos artesãos que trabalha hoje nos estádios brasileiros. “Os pescadores têm um jeito característico de trabalhar. É só olhar e dá para perceber”, afirma. “No Rio de Janeiro, a maioria das redes é feita por pescadores”, diz o artesão, de 51 anos.

Depois que se mudou para São Paulo, cursou Educação Física e foi descoberto por Turíbio Leite de Barros, então fisiologista do São Paulo, em uma escola onde consertava uma rede de voleibol. Foi convidado para trabalhar no clube e aí sua vida mudou. Hoje, fornece para os principais clubes brasileiros e se tornou uma referência nacional.

Antonio Perestrelo Martins, outro artesão, teve uma origem diferente: começou trabalhando na indústria têxtil. Durante mais de 20 anos, forneceu redes para vários clubes do interior. Confessa que nunca trabalhou com os grandes. Hoje, decidiu diminuir o ritmo e trabalha com carpetes. “Já tenho 62 anos. Agora, não dá mais para ficar em cima de um andaime o dia inteiro”, sorri Martins. “Mas tenho saudades de fazer redes, principalmente para o futebol. É um trabalho que dá muito orgulho".

 

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