Robson Ventura/Estadão
Robson Ventura/Estadão

Artilharia de Gustagol vem desde o 'Sem Estrutura', seu time na várzea

Artilheiro do Corinthians no ano e principal atacante nesta segunda, no Pacaembu, sempre brilhou no amador

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2019 | 04h30

Em 2011, Gustavo, do Corinthians era o principal atacante do Sem Estrutura, time de várzea da cidade de Registro, no interior de São Paulo. Ele ganhava R$ 150 por jogo. O dinheiro era fundamental para ajudar a mãe, Ana Lúcia, a cuidar dos quatro irmãos. “Eu jogava no meio e ele como centroavante, sempre fazendo gols. Fizemos uma boa dupla”, lembra Maico Soares, amigo de Gustavo e que hoje atua pelo Vale do Ribeira, ainda na várzea. Nessa época, Gustavo carregava o apelido de “pé de dinossauro”. Tinha calos em todos os dedos causados por usar chuteiras emprestadas com um número menor que o seu. Ele usa 44, mas jogava com calçados 39 e 40. Não tinha dinheiro para comprar uma chuteira adequada. 

Oito anos mais tarde, o amigo do Maico vai entrar no Pacaembu nesta segunda-feira como a principal esperança de gols do Corinthians na semifinal do Campeonato Paulista. Artilheiro do time na temporada com oito gols, o camisa 19 passou da várzea de Registro para a decisão do Estadual. “Ele continua fazendo gols de cabeça do mesmo jeito”, conta Maico, também funcionário em fábrica de tinta flexográfica.

Gustavo passou a adolescência jogando na várzea. Em geral, nesta fase, os candidatos a profissional já estão nas categorias de base dos clubes. Lá, especialistas ensinam o básico, como tocar, cabecear e se posicionar taticamente. Fazem isso por anos. A escolinha de Gustavo foi a própria várzea de Registro. “Ele é um grande centroavante. Precisa melhorar só na finalização com a perna esquerda e o cabeceio do lado direito”, diz Erivelton Lima, que era gerente de futebol no Taboão, primeiro clube de Gustavo – hoje ele é observador técnico do Grêmio, de Porto Alegre, em São Paulo.

O empresário Jair Cunha, que costumava organizar amistosos para descobrir talentos em Embu das Artes, prestou atenção em um atacante negro, alto, de 19 anos, com passada larga e ótima impulsão. Ele agradou, mas não queria deixar a família. Toda vez que voltava para Registro, Gustavo pensava em desistir. Chegou a trabalhar de pintor de paredes com seu tio. Jair pelejou para que o garoto não desistisse do futebol. 

A primeira chance como profissional foi no campo sintético do Parque Araribá, em Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Todo mundo conhece o local como o Campo da Portuguesinha da Vila das Belezas. Ali funciona o projeto Fera da Bola, que oferece esporte e noções de cidadania para crianças de baixa renda. Dali ele foi para o Taboão da Serra, no Campeonato Paulista Sub-20 da segunda divisão. 

Jair pagou as taxas da federação de R$ 500 e Gustavo virou jogador profissional. “O primeiro vínculo com a federação foi feito comigo. Até hoje, ele é meu amigo”, orgulha-se João Batista Dias de Souza, ainda gestor do projeto Fera da Bola. 

João Batista guarda até hoje as súmulas das partidas mais marcantes do artilheiro corintiano. “Gustavo sempre fez gols. Em um jogo, chegou a marcar três. Foi ali que eu vi que ele tinha condições de fazer sucesso no futebol”, diz João Batista.

A grande chance ocorreu na Copa São Paulo de Juniores de 2014, ano da Copa do Mundo. Três atacantes que estavam à sua frente na fila, todos melhores do que ele, tiveram problemas. Ele foi artilheiro com nove gols em seis jogos. Uma semana antes do torneio, ele queria desistir de tudo e voltar para Registro.

Como reconhecimento por toda a insistência do seu empresário, Gustavo presenteou Jair com um carro no seu aniversário neste ano, uma Ecosport branca. 

A sequência da carreira já faz parte da história recente do Corinthians. Após passagem discreta pelo Criciúma, chegou ao Corinthians como aposta. Fracassou. Em nove jogos, não marcou gol. Foi para o Fortaleza e voltou melhor, muito melhor.

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