Lucas Merçon/Fluminense
Lucas Merçon/Fluminense

Artilheiro aos 39 anos, Nenê se surpreende com fase goleadora e planeja ser técnico

Em entrevista ao Estadão, o meia, maior goleador do futebol brasileiro, com 17 gols, contou os cuidados para jogar em alto nível perto dos 40 anos

Ricardo Magatti, Especial para O Estado

20 de setembro de 2020 | 05h00

Em uma temporada dominada por jovens talentos, quem lidera a artilharia do futebol brasileiro no momento é um veterano. Aos 39 anos, Nenê, do Fluminense é o maior goleador do Brasil, com 17 gols, e quem mais balançou as redes na Copa do Brasil (seis tentos). Além disso, deu três assistências em 2020. Ele é prova de que a disciplina na preparação ao longo dos anos faz diferença para ter uma carreira longeva e em alto nível.

O repertório do meio-campista inclui gols de pênalti, falta, de fora da área e até um voleio deitado. Ao balançar as redes duas vezes contra o Corinthians no último domingo, ele igualou a marca do atacante Yony González, artilheiro da equipe em 2019. No entanto, o "vovô garoto" precisou de apenas 28 jogos, menos da metade do que necessitou o colombiano, que alcançou os 17 tentos em 62 partidas. Quando Nenê foi às redes, o time tricolor venceu 90% dessas partidas.

Em entrevista ao Estadão, Nenê, na ativa profissionalmente já há 20 anos, disse estar orgulhoso de ser referência para os atletas mais jovens, contou os fatores que o possibilitaram ter uma performance de destaque perto dos 40 anos, reconheceu que não esperava viver uma fase tão artilheira neste momento da carreira e revelou que pensa em continuar jogando por mais dois ou três anos. Depois que se aposentar, sua ideia é ser técnico, dirigente ou até comentarista esportivo.

Você é o artilheiro do futebol brasileiro no momento. A que você atribui essa fase tão goleadora?

É uma junção de vários fatores. O fato de eu realmente me doar a cada dia no meu trabalho, fazer de tudo para honrar essa camisa, a confiança que todos me dão no clube e a experiência que também ajuda muito em determinados momentos dos jogos. A minha primeira função sempre foi dar assistências, mas estou tendo a oportunidade de fazer gols e isso está sendo um "plus". Não é uma coisa que eu tenho buscado, mas está acontecendo naturalmente e fico feliz de estar ajudando o time nesse quesito.

Esperava alcançar números tão expressivos neste ano?

Desde antes da pandemia eu já estava fazendo bastante gols e acabou ficando essa expectativa de eu sempre marcar e aí depois da pandemia em alguns jogos eu não fiz gols. Mas meus números agora são muito expressivos para um meia. Eu estava vendo que tenho o mesmo número de gols que o Yony González, artilheiro do Fluminense no ano passado, mas com menos jogos. Por eu ser meia e ter 39 anos eu realmente não esperava marcar tantas vezes. Espero que essa fase dure por muito tempo.

Na maior parte da sua carreira você atuou como armador, verdadeiro camisa 10. Mas também já jogou pelos lados e, recentemente, com a saída do Evanilson, chegou a ser um falso 9. No Fluminense, dá para ver que você tem bastante liberdade em campo. Onde se sente mais confortável?

A minha posição principal é atrás do atacante, mas não tenho problema em jogar pela ponta também. De falso nove foi só em um jogo, em uma situação específica em relação ao adversário (Flamengo). Depois já voltei a jogar atrás do camisa 9, que é onde eu tenho mais liberdade. Ali além de poder servir meus companheiros eu estou mais perto do gol e isso acaba me ajudando.

Como é a relação com os jovens no Fluminense? Quais os conselhos que você dá pra eles?

Sempre que posso eu ajudo eles, estamos sempre conversando, nos treinamentos, jogos. Sempre que me pedem um conselho, que precisam de ajuda em uma determinada situação, estou sempre disposto a ajudar. A relação é muito boa e fico feliz de estar sendo um suporte para eles e auxiliá-los no dia a dia e fora do campo. Tem também as brincadeiras, sou muito brincalhão e dou muita liberdade para eles. Independentemente da idade, nosso grupo é muito unido e isso facilita muito o trabalho.

Quais cuidados você toma pra jogar em alto nível aos 39 anos? A sua preparação é diferente dos demais?

Não faço nada muito diferente. Como eu me cuidei durante toda a carreira, felizmente nunca tive lesão grave, nenhuma operação, e isso prolongou minha carreira. Mas eu procuro sempre estar atento ao que pode me ajudar na recuperação, usar aquelas botas compressoras, fazer gelo, dormir bastante, me alimentar bem. Enfim, faço tudo o que é necessário para me recuperar bem entre um jogo e outro e para estar 100%. Acaba sendo uma soma de fatores eu chegar bem nesse ponto da carreira. Até porque não adianta eu chegar aos 39 anos e querer me cuidar só agora, fazendo um trabalho específico ou extra. Acho que a disciplina ao longo da minha carreira foi fundamental e hoje estou colhendo os frutos.

Há uma conversa com a comissão técnica para te preservar em algumas partidas em razão da maratona desgastante?

A gente conversa a cada partida com os fisiologistas para saber como está a recuperação. Não só eu, mas outros jogadores também foram poupados em outros jogos, como o Nino, Evanilson, Egídio. A gente sabe que depois do quarto ou quinto jogo é sempre bom dar um descanso para poder manter a mesma intensidade. Tudo é sempre conversado antes, principalmente com os fisiologistas, que veem todos os dados. O GPS, o nível de cansaço do corpo, e aí fazem as análises. Claro que nas decisões não dá para você ser preservado, mas sempre que pode e for necessário a gente conversa para ter um descanso. Eu descansei contra o Athletico-PR (na quinta rodada), depois dei um gás de novo. Estou muito bem hoje.

Você está a dez gols de igualar a sua temporada mais artilheira (em 2011/2012, pelo PSG) e ainda restam muitos jogos pela frente. Pensa em superar essa marca?

Não tinha pensado nisso ainda, mas seria muito bacana ultrapassar essa estatística. Imagina você estar com quase 40 anos jogando em um clube grande e poder quebrar marcas pessoais de quase dez anos atrás? É mais uma motivação pra eu continuar perseguindo mais gols. Espero que eu seja um exemplo para os jogadores mais novos de que se você fizer tudo direitinho, se cuidar, pode prolongar a sua carreira por vários anos. Eu faço o que eu amo e eu tenho que aproveitar ao máximo. Ser esse exemplo me deixa muito orgulhoso.

Hoje, aos 39 anos, quais são seus principais objetivos individualmente e coletivamente?

Conquistar um título importante pelo Fluminense. Uma Copa do Brasil, por exemplo, seria incrível, um sonho realizado. Voltar a botar o Fluminense em um cenário internacional, disputando a Libertadores, o que não acontece há alguns anos, também é um objetivo importante.

O que o Fluminense pode alcançar na temporada?

A Copa do Brasil é um campeonato mais viável de ser conquistado, por ser mais curto e em formato de mata-mata, do que o Campeonato Brasileiro. O Brasileirão é muito longo e exige um elenco grande. Não é só com 11, 12 jogadores que você continua estando entre os primeiros colocados sempre, mas acredito que podemos figurar entre os cinco, seis primeiros, para ficar com uma vaga na Libertadores.

Seu contrato foi estendido até o fim de 2021. Tem ideia de quanto tempo mais quer continuar atuando?

Não gosto muito de pensar nisso porque eu sou um cara muito competitivo, mas já estou sendo "obrigado" a começar a pensar no meu pós-carreira. Acredito que eu possa jogar pelo menos mais uns dois anos, três, quem sabe.

Planeja continuar no futebol depois que se aposentar?

Eu quero continuar no futebol, sim. Venho amadurecendo essa ideia e até mudei um pouco a minha cabeça. Não pensava nisso antes, mas hoje eu penso em ser treinador. Também penso em ser dirigente e na possibilidade de trabalhar como comentarista em um canal de televisão. As primeiras opções são as carreiras de treinador e dirigente.

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