Paul Ellis / AFP
Paul Ellis / AFP

As 48 horas em que a busca do título do Liverpool simplesmente parou

Clube estava prestes a encerrar jejum de 30 anos sem título do Campeonato Inglês, antes de coronavírus paralisar o futebol

The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2020 | 18h19

Pela primeira vez, não houve um grande final no discurso de Jürgen Klopp. O técnico do Liverpool estava na cantina de Melwood, o centro de treinamento do clube, com seus jogadores e a comissão técnica reunidos na frente dele. Todos os limites estavam embaçados. Os jogadores das estrelas sentaram-se ao lado dos estagiários, todos pensando a mesma coisa:

E agora?

Klopp não terminou, como normalmente faria, sua conversa com um floreio retórico, um grito de guerra ou mesmo uma piada. Em vez disso, ao enviar todos para casa em um futuro próximo, ele enfatizou duas mensagens simples.

Um: era fundamental que todos presentes — não apenas jogadores, mas também funcionários do clube — continuassem se mantendo em contato. Se eles estavam desanimados, que procurassem um amigo ou um dos inúmeros grupos do WhatsApp que são a alma de qualquer clube de futebol, ou até mesmo ele. "Vocês todos têm o meu número", ele lembrou. Fiquem à vontade para usá-lo.

E dois: se alguém começasse a se sentir mal, se alguém tivesse a menor preocupação de ter contraído o coronavírus, deveria reportar isso imediatamente aos médicos do clube — Jim Moxon e Sarah Lindsay.

Klopp disse que ninguém deveria se envergonhar se tivesse que fazer essa ligação. Ninguém deve achar que precisou esconder seus sintomas por temer que isso atrasasse o retorno de seus companheiros de equipe, ou o recomeço da temporada, ou que impediria que o Liverpool finalmente terminasse sua longa espera pelo título do Campeonato Inglês. "O primeiro jogador a contrair (o vírus)", disse Klopp à sala, "não é o idiota."

O destino do futebol, é claro, é de importância pequena diante de uma pandemia global. E os sonhos e aspirações de uma equipe — particularmente um membro do seleto grupo de principais times do esporte — são apenas uma fração minúscula disso, principalmente no momento em que clubes de todo o mundo enfrentam um futuro tão incerto que, em breve, alguns poderão deixar de existir.

O Liverpool, no entanto, está em um purgatório específico. O clube, dono de 18 títulos ingleses, venceu o último deles em 1990. Desde então, chegou a mergulhar na mediocridade e se tornou um monumento de grandeza desbotada. Mas também conquistou duas vezes o título da Liga dos Campeões da Europa. O time enfrentou altos e baixos.

Esta temporada seria, finalmente, a temporada em que finalmente venceria a Premier League (era do Campeonato Inglês que se iniciou na temporada 1992/1993). Até o final de fevereiro, o Liverpool havia vencido todos os jogos da liga. Menos de duas semanas atrás, ao vencer o Bournemouth em Anfield, havia aumentado sua vantagem sobre o vice-líder para 25 pontos.

Quando o Manchester City perdeu no dia seguinte, o Liverpool precisou de apenas seis pontos — duas vitórias — para que sua vantagem fosse incontestável. O clube esperava conseguir o título em casa, contra o Crystal Palace, neste sábado. Planos para festas e carreatas já estavam em vigor.

No dia 11 de março, porém, as pessoas dentro do clube começaram a sentir que a situação estava mudando. Enquanto os jogadores passavam o tempo no Hope Street Hotel se preparando para um jogo da Liga dos Campeões contra o Atlético Madrid, outros atletas estavam planejando lidar com a crescente crise de coronavírus.

Esta é a história das 48 horas em que a temporada do título de uma equipe parou. Juntamente com Phil Jacobsen, chefe do departamento médico do clube, o diretor esportivo Michael Edwards tentava reduzir o máximo possível o número de funcionários necessários em Melwood. O clube finalmente decidiu que poderia permitir que aproximadamente metade de sua força de trabalho (sem contar atletas) ficasse em casa.

A ênfase, naquele ponto, era permitir que o clube continuasse funcionando; todas as orientações dadas ao Liverpool pelas autoridades do futebol centraram-se nos jogos do Campeonato Inglês no fim de semana. A atmosfera no clube era séria, tensa. Quando Klopp saiu de Anfield naquela noite, ele foi recebido pela multidão habitual de torcedores pedindo cumprimentos. Ele se irritou com eles e pediu para "afastarem as mãos".

O dia seguinte, após a eliminação do Liverpool pelo Atlético, foi planejado como um dia de recuperação para os jogadores. Klopp e Edwards, no entanto, passaram a maior parte do tempo trancados em reuniões, elaborando um cronograma que eles sabiam que poderia mudar a qualquer momento.

Eles debateram vários cenários. Se os jogos fossem realizados sem torcedores, talvez a equipe precisasse treinar em um estádio vazio. Se a temporada fosse adiada, os jogadores precisariam de sessões de treinamento individuais. Altamente conceituada, a nutricionista do clube, Mona Nemmer, teria que fornecer sugestões sobre o que comer.

Decidiu-se que Klopp falaria com a imprensa em Anfield, e não no centro de treinamento. O treinamento estava marcado para as 11h de sexta-feira. Os jogadores deveriam se apresentar antes das 9h30.

Quando eles chegaram, Melwood estava estranhamente quieto. É o tipo de lugar em que se nota se um único membro da equipe não está presente, ainda mais metade deles. Até então, a Premier League havia emitido um comunicado confirmando que todos os jogos do fim de semana estavam suspensos, e o Arsenal havia anunciado que seu técnico, Mikel Arteta, havia testado positivo para a covid-19.

Klopp e Edwards decidiram que o treinamento ainda continuaria — como Klopp disse aos jogadores — porque eles já estavam lá. Seria apenas uma sessão leve de treino: um aquecimento, alguns rondos ("bobinho"). Se tivesse notícias sobre o resto da temporada, eles lidariam com isso depois.

Os jogadores foram instruídos a tomar banho, trocar de roupa e se encontrar na refeitório às 13h. Klopp reuniu-se com sua equipe: seus assistentes, Pep Lijnders e Peter Krawietz; Nemmer, a nutricionista; o preparador físico Andreas Kornmayer; e Moxon e Lindsay do departamento médico. Eles rapidamente formalizaram um plano para as próximas semanas.

Enquanto ele se encontrava com seus jogadores no refeitório claro e arejado, Klopp passou tudo isso adiante. Ele tentou abordar o que achava que os jogadores poderiam querer saber. Eles poderiam viajar para ver a família? (Não foi proibido, mas não foi aconselhado e, dada a situação, não é realista). Eles poderiam ficar em hotéis? (Não, se possível). Houve uma data em que eles deveriam voltar? (Ainda não; a situação era muito instável).

Quando ele terminou, o clima estava sombrio. Os jogadores se despediram: sem apertar as mãos, sem se abraçar, sem saber, realmente, quando se veriam novamente. Um elenco que levou o Liverpool à beira de um momento histórico se afastou, sem saber se a pausa da temporada seria o fim da história ou apenas uma lacuna.

No domingo, quando o Liverpool deveria estar se preparando para a semana que aguarda há 30 anos, o zagueiro Joël Matip deu voltas no Sefton Park, um local tranquilo no lado sul da cidade, não muito longe de Penny Lane. Ele passou quase despercebido. Por enquanto, isso é tudo o que Matip — como seus companheiros de equipe, como os torcedores do clube — podem fazer: andar em círculos e esperar por notícias. / Tradução de Pedro Ramos

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