Paulo Liebert/Estadão
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As noites de quarta-feira

A TV deveria compreender que futebol é mais do que um jogo com 11 contra 11

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 04h00

Quem faz as tabelas das diversas competições que se sucedem no Brasil, ou melhor, que se dão ao mesmo tempo, umas empilhadas nas outras, não pode prever o que acontecerá nas noites de quarta-feira, data em que a TV se dedica a transmitir jogos. Não pode sequer prever quem jogará, uma vez que equipes se eliminam umas às outras e assim a tabela só é conhecida nas vésperas do jogo. Como o futebol praticado no Brasil hoje não é exatamente uma maravilha, a possibilidade de se transmitir verdadeiros desastres futebolísticos é grande.

De repente, o antigamente chamado horário nobre da TV pode ser ocupado por Corinthians x Avenida. Podia ser quase qualquer outro jogo. São Paulo, Palmeiras, Flamengo não escapam mais ou menos do padrão de Corinthians x Avenida. Esse tipo de espetáculo vai levar, na minha opinião, ao esvaziamento gradual e inevitável das audiências de quarta à noite. Não disponho de dados e posso estar redondamente enganado nos meus chutes. Mas me parece impossível haver um número significativo de expectadores ligados nessas partidas. Haverá um dia em que as quartas-feiras terão audiência nula, ou então, feita de zumbis que sequer estarão acordados enquanto o jogo transcorre nos seus aparelhos.

O que deveria fazer uma emissora de TV diante de tal perigo? Deveria compreender que futebol é mais do que um jogo que se dá num campo com 11 jogadores contra 11. Futebol é apenas parte de espetáculo maior que se dá em vários lugares e que apresenta inúmeros interesses e emoções. A maior parte desse espetáculo interessantíssimo, no entanto, permanece nas sombras, desconhecida, porque não é mostrada. As atenções da TV são exclusivamente pelo que se passa no jogo e, na verdade, nem mostrando só o jogo explora seus lados mais criativos e inusitados.

Por exemplo: todo gol é acompanhado de um plano da torcida que pula fazendo sempre os mesmos movimentos, depois um outro plano do telão, onde as pessoas gritam todas do mesmo jeito e, finalmente, um jogador que corre em direção da câmera fazendo gestos com a mão em forma de coração e batendo no peito. Essa cena do jogador correndo para a câmera comemorando é uma vergonha. Não para o jogador, mas para o câmera e o diretor de TV, desculpem os amigos. Ele corre porque sabe que a câmera estará lá e não se moverá. Uma câmera imóvel contraria todos os fundamentos do bom jornalismo, em que é a câmera que se move à procura de um jogador. Vai atrás do fato e não, preguiçosamente, espera por ele, proporcionado sempre do mesmo jeito pelo jogador.

Há mil outras imagens gastas, usadas à exaustão, sempre as mesmas e que, à força de se repetirem, perdem toda a carga dramática, cômica, poética que o espetáculo proporciona à parte do jogo em si. Numa época em que as câmeras portáteis têm qualidades inegáveis, não se concebe câmeras fixas enquadrando a bola na marca do escanteio e um pé em superclose batendo para dentro da área. Qual é o significado desse plano? O verdadeiro espetáculo está na área nesse momento, não no pé batendo. Poderiam ser colocados dez, 12 câmeras em mãos hábeis com uma única instrução: é proibido filmar o óbvio. Procurem cenas que mereçam registro que elas aparecem.

Para isso seria necessário estudar o jogo. Quem estará em campo, antigas rivalidades, jogadores rebeldes que não se poderiam perder de vista, treinadores com antigas questões pessoais, etc, etc. Muito do que vai acontecer num jogo começa antes. Muito é previsível, mas o previsível também precisa ser buscado com obsessão. Achar que o futebol só se dá no campo é, hoje em dia, esperar milagres. O futebol brasileiro não vai lá muito bem no campo, mas, talvez, vá pior fora dele.

 

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