'As organizadas estão vivendo um processo de asfixia', diz pesquisador

O professor Bernardo Buarque de Holanda é um especialista na história das torcidas organizadas

GONÇALO JUNIOR E RAPHAEL RAMOS, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 08h39

SÃO PAULO - Pesquisador do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da FGV, o professor Bernardo Buarque de Holanda é um especialista na história das torcidas organizadas. E considera alarmante a letalidade das brigas de torcedores no Brasil: foram 151 mortes nos últimos 25 anos. Em entrevista ao Estado, ele analisa o "caso Kevin" e a influência dos preparativos para a Copa no comportamento das uniformizadas.

No passado as torcidas eram menos violentas do que no presente?

É um tipo de comparação difícil, pois deve-se considerar o que é violência e como o fenômeno é vivenciado em cada época. Mas existe uma espiral de violência ocorrida com as transformações da vida urbana, que vão da espontaneidade das brigas ocasionais aos confrontos premeditados e coletivizados, que incluem armas de fogo e espancamentos que vão até a morte.

Por que os clubes negam o relacionamento com suas torcidas?

As organizadas vivem um processo atual de asfixia, com a criação de programas elitizantes como o sócio-torcedor.

E os preparativos para a Copa?

Estamos em um momento de renovação da infraestrutura de estádios e, por conseguinte, da sua elitização. Portanto, a dependência das torcidas em relação aos clubes tende, paradoxalmente, a aumentar. Com os ingressos mais caros, aqueles que pertencem às camadas populares têm nas torcidas organizadas o único meio para conseguir acesso aos jogos. Daí porque as torcidas tornaram-se clubes dentro do clube. No Rio de Janeiro, alguns clubes adotaram um sistema de cotas. Nele, as torcidas organizadas pagam meia-entrada, por exemplo. Lembre-se que os ingressos atuais beiram os R$ 60 em partidas decisivas.

Qual sua visão sobre a morte do torcedor boliviano e o confronto dos palmeirenses no aeroporto de Buenos Aires?

Os campeonatos sul-americanos vinham dando sinais de seu caráter problemático há algum tempo, sem que nada mais enérgico ou preventivo tivesse sido feito. Em 2011, o Santos jogou no Paraguai e vários torcedores santistas ficaram detidos. Em 2012, tivemos problemas repetidos com torcedores do Fluminense em Buenos Aires. Nada foi feito.

Em certo sentido, o que aconteceu na Bolívia já estava anunciado?

A fatalidade na Bolívia vinha se prenunciando nas edições anteriores (da Libertadores). Tradicionalmente, no entanto, espera-se que aconteça algo chocante e traumático para que as autoridades e a sociedade despertem.

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