Paulo Giandalia/Estadão
Paulo Giandalia/Estadão

As psicopatas e a vitória

Que nos venha e vitória. E que venha com ela a transformação do Brasil!

Maitê Proença*, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 04h00

Ainda que tenha sobrado cabelo e faltado Islândia em nosso jogo, e que o CR7 tenha feito tudo que o nosso moço não fez, e que o México, Espanha e Croácia tenham jogado com mais garra e estratégia do que nós apresentamos, acredito. Acredito que Tite é o cara, ainda que lhe torçam o nariz. Não dou ouvidos aos que se irritam com suas “preleções de botequim”. Após a catatonia dos sete a um, nossos jogadores não carecem da alta filosofia, mas de alguém que os edifique e inspire, devolvendo-lhes o orgulho de jogar numa equipe coordenada.

+ UGO GIORGETTI - Um jeito de proceder

+ TÁ RUSSO! Não é fácil acertar o pedido, mesmo em cardápios com fotos

+ IGOR MÜLLER - Melhor Brasil de todos os tempos

Nos últimos tempos, descobri que uma assistente faz-tudo, espécie de mãe, me roubava pra jogar nos cassinos clandestinos. Por vinte e cinco anos perdi fortuna sem jamais desconfiar da criatura. Percebi também, depois de décadas de perfídias e traições, que a melhor amiga, agradável, elegante e sincera, era uma loba faminta em traje de princesa. Os maus-caracteres são pessoas excelentes. Simpáticos, divertidos, solícitos, como perceber nas entrelinhas de sua devoção a perspicácia para encobrir malfeitos? Não faço ideia, sou das presas a mais tola.

E o que isso tem a ver com futebol?

Chego lá.

Este mês recebi provas incontestáveis de que a outra melhor amiga, a irmã com quem partilhei minha turma, minha casa, viagens, amor incondicional e dinheiro sempre que precisou, também me roubou pela vida afora. Neste caso, incrédula, precisei de provas. Jantáramos num restaurante em que o dono e um freguês da mesa ao lado perceberam quando a amiga aproveitou uma ida ao banheiro para roubar-me. Fizeram contato no dia seguinte e me enviaram fotos e vídeo gravados pela câmera do estabelecimento. Ainda que não deixasse dúvida, assisti a cena dezenas de vezes até me dar conta de que o que ali se via era de fato o que parecia ser.

O pai de minha filha, ao saber da história, retirou seus filhos do consultório da ex-amiga, até então, dentista de todos. A irmã mais nova fora diagnosticada, naquele mesmo dia, com quatro buracos na boca, “cáries que já chegavam ao osso”, alertara a dentista, “o tratamento não pode tardar!”.

Ao ser examinada por um novo profissional, a fim de tratar dos distúrbios apontados, contatou-se que a menina tinha os dentes perfeitos. Soube que vários conhecidos haviam debandado do consultório da falsa amiga por confusões semelhantes. Entendi que a criatura não era apenas ladra, mas uma profissional que corrompe a boca de seus clientes para mantê-los dependentes de seu serviço sujo. Foi minha amiga amada por trinta anos e eu jamais desconfiei, nem por um minuto.

 

E o que isso tem a ver com futebol?!

No futebol o juiz é ladrão, há fingimento e troca de ofensas, desclassifica-se a mãe, aleija-se o rival. A gente da arquibancada assiste, tolera e aplaude. Qual a diferença entre as perfídias que rolam em campo e as psicopatias da vida real?

Assim como o conselho do amigo, o futebol consola. Ama-se o amigo, ama-se o time. Confia-se no amigo, confia-se no clube. O melhor nem sempre ganha, ensina o amigo, e é tb o que o que mostra o 2 x 1 do placar. O treinador se desespera, os torcedores se indignam, perde-se o jogo. Empata-se... Dói. Mas, por fim, tudo se acomoda, e na próxima partida o time entra em campo orgulhoso com os torcedores vibrando por seus meninos de ouro. Por que não se perdoa o amigo que trai? Por que a decepção não passa?

Não sei. Estou tomada por isso, o desencanto se mistura com desilusões patrióticas, parece tudo parte de um mesmo cenário torto. Ainda bem que temos a Copa e que o futebol vem pra salvar. E sendo este o ponto alto de um jogo sublime, acredito que trará solução para nossas questões sem resposta. Acredito que encontrarei o perdão para quem não merece, e tenho fé que o Brasil recobrará o interesse pelo Brasil. Acredito em acreditar. Acreditar é o que sobrou. Torcerei jogo a jogo, passe a passe, pelo renascimento, por um País erguido, justo, potente. E limpo. Com gente limpa.

Que nos venha e vitória. E que venha com ela a transformação do Brasil!

  

*ATRIZ E ESCRITORA

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.