Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Às vésperas do sorteio da Copa, dinheiro curto leva tensão à Rússia

Governo e Fifa penam com a falta de patrocinadores e, por extensão, de recursos

Jamil Chade / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2017 | 07h00

No Kremlin, um amplo plano de comunicação começou a ser implementado para usar a Copa como plataforma para mostrar ao mundo uma Rússia como potência e moderna. Enquanto eventos se proliferam às vésperas do sorteio dos grupos do Mundial, sexta, com jantares e lançamento do pôster oficial, nos bastidores executivos da Fifa e do governo se reúnem para tentar lidar com crises que se acumulam e que podem ameaçar o esforço de Vladimir Putin em usar a Copa como instrumento de propaganda.

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Um problema sério é a falta de dinheiro. Os estádios estão prontos. Mas nem Moscou nem Zurique sabem dizer qual será a situação das finanças da Fifa depois do Mundial. Quando a entidade desembarcou no Brasil, há quatro anos, seus cofres estavam cheios. A bonança era de tal dimensão que os dirigentes decidiram modificar os planos para 2018 e abrir 20 novas vagas para multinacionais que quisessem ter seus nomes associados ao torneio de futebol, na condição de patrocinadores regionais. “O plano de marketing fracassou”, admitiu um ex-representante da Fifa, falando ao Estado na condição de anonimato. Até agora, apenas duas das 20 vagas foram preenchidas.

Quando o projeto de marketing foi lançado, em 2014, o que ninguém previa era o terremoto causado pelas prisões dos cartolas, em maio de 2015. O processo nos EUA contra dirigentes afastou muitos investidores e empresas americanas passaram a tomar cuidado com qualquer tipo de relação com a Fifa.

Em 2015 e 2016, a Fifa registrou déficit de US$ 100 milhões e US$ 120 milhões, respectivamente. Só para pagar seus advogados para se defender diante dos escândalos de corrupção, gastou US$ 60 milhões. 

A entidade ainda foi golpeada financeiramente pela ausência de algumas importantes seleções. Em 2018, estarão fora da Copa China e Catar, responsáveis por grande parte da injeção de recursos no esporte nos últimos dois anos. Ficarão em casa também EUA, Holanda e Itália, o que impede que televisões e empresas desses países injetem ainda mais recursos no torneio.

Se no ciclo anterior o lucro beirou a marca de US$ 500 milhões, a nova projeção aponta para queda do lucro para US$ 100 milhões até o fim de 2018, na melhor das hipóteses. A nova realidade obrigou a Fifa a desacelerar a expansão de seus planos. O prêmio que será distribuído aos países vai aumentar em 2018. Mas não na mesma proporção registrado nas últimas edições do Mundial. O crescimento, desta vez, será de apenas 12%, bem diferente do que ocorria nos últimos anos. 

DOPING

​Outra dor de cabeça é o doping. Richard McLaren, investigador independente da Wada, denunciou a existência de um sistema para encobrir o doping no futebol russo, com pelo menos 34 casos de jogadores. Até hoje a Fifa não deu seguimento às acusações e não abriu qualquer tipo de investigação.

O problema central, porém, não é o envolvimento apenas de atletas. As descobertas de McLaren apontam que Vitaly Mutko, ex-ministro russo de esportes e organizador da Copa do Mundo, era o chefe do plano de Estado para garantir que atletas pudessem se dopar sem risco de serem pegos. Desde então, no entanto, Mutko foi promovido pelo governo russo para vice-primeiro ministro. “Há um impasse político”, admitiu McLaren sobre o problema do doping na Rússia. 

Uma operação de negação por parte de Moscou foi iniciada para abafar a crise. Stanislav Cherchesov, treinador russo, garantiu que sua seleção está totalmente limpa. “Não temos nada a ver com isso e inspetores vêm com regularidade testar nossos jogadores”, comentou. 

A Fifa modificou sua posição sobre os russos. Depois de dizer que o doping não existia, a secretária-geral da entidade, Fatma Samoura, optou por afirmar apenas que o problema “não era generalizado” no futebol russo.

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