Paulo Liebert/Estadão
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As voltas do mundo

Teriam os portugueses que chegam para treinar no Brasil sonhado em ser Felipão

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

01 de novembro de 2020 | 05h00

Nunca tinha ouvido falar em treinador português aqui no Brasil. Talvez houvesse, mas não chegou a mim. Ao contrário, sabia de técnicos brasileiros que fizeram enorme sucesso em Portugal, a começar por Oto Gloria, que treinou até a seleção portuguesa na Copa de 1966. Se os jogadores portugueses não eram muito conhecidos aqui, os treinadores eram muito menos. Jogadores famosos de lá, só quem vinha das possessões de além-mar. O maior deles, Eusébio, negro, que parecia um dos nossos, admirado por muita gente no Brasil. Jogador branco português não lembro de nenhum.

Portugal mesmo era alvo de preconceitos, informações históricas mal digeridas, fora as famosas piadas que circulavam por toda a parte. Ninguém considerava muito Portugal. É verdade que um governo ditatorial e retrógrado tirou Portugal do mapa até da Europa. Por anos pareceu mais um país imaginário.

Os times da colônia portuguesa aqui não tiveram sucesso. A Portuguesa de Desportos por anos pareceu uma grande e preciosa exceção. Hoje sabemos o que aconteceu com ela. A Portuguesa Santista e a Portuguesa carioca têm pouca representatividade no futebol brasileiro. Sobrou o Vasco que, contando com a habitual falta de informação do brasileiro médio, escondeu atrás de um nome a nacionalidade. Ninguém sabe quem era Vasco da Gama nem o que representa seu maravilhoso escudo. Assim, pôde se tornar um clube vencedor com multidão de torcedores.

Mas vieram os anos 70 e a Revolução dos Cravos, que inaugurou uma era. O governo caduco foi apeado do poder, a democracia chegou a Portugal e o país regressou à Europa. Aos poucos foi de novo tomando seu lugar no mundo.

Fazendo um corte rápido para hoje em dia, podemos imediatamente perceber a mudança de situação. O país é um oásis de democracia, próspero membro da Comunidade Europeia, lugar invejável por todos os títulos, para onde vão cada vez mais brasileiros, muitos ignorando completamente que estão se transferindo para um país governado por uma coligação socialista, que aqui causaria horror.

Enfim, não é essa a função da coluna, mas sim chamar atenção para os treinadores portugueses no Brasil neste momento. Não vamos mais atrás de argentinos, como pareceu por um momento, mas de portugueses.

Claro que tudo é efeito da passagem de Jesus aqui na terra. No rastro de sua passagem meteórica, alucinante, adorada, chegam, ou estão chegando, os outros. No Vasco, no Palmeiras, havia um no Santos. Os olhos dos clubes estão voltados para Portugal. Alguns talvez saibam o que querem e têm objetivos e razões claras, outros apenas ouviram o galo cantar pelos lados da Gávea e foram atrás. Desses, que se acautelem os portugueses.

Os brasileiros continuam sob observação constante. Sem falar de Fernando Diniz, agora chegou a vez de Renato, o próximo a ser demolido. E falo dos jovens. Dos velhos é melhor nem falar. Curiosamente, só para pegar um exemplo de como as coisas mudam, enquanto os treinadores portugueses são a ambição confessada da maioria dos clubes, um treinador brasileiro que não faz muito fez enorme sucesso em Portugal, treinando, como Oto Gloria, até a seleção portuguesa e colocando-a novamente entre as grandes seleções da Europa, hoje no Brasil amarga no mínimo silêncio e um quase esquecimento, para não dizer desprezo.

Trata-se de Felipão, que o Palmeiras tinha resgatado do medíocre futebol chinês para depois demiti-lo. Será que Felipão, quando olha para o time do Cruzeiro que lhe resta treinar, cuja ambição maior é escapar de cair de novo de divisão, não pensa nos seus dias de Portugal? E não terão esses incensados treinadores portugueses de hoje, quando garotos, sonhado em ser um dia Felipão?

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