Rubens Chiri/Divulgação
Rubens Chiri/Divulgação

'Assim como o racismo, a homofobia é inaceitável no futebol brasileiro'

Especialista afirma que objetivo de eventuais punições aos clubes é acabar com a homofobia nos estádios

Entrevista com

Paulo César Salomão Filho - presidente do STJD

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2019 | 04h30

Em setembro, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva emitiu um ofício para clubes e federações contra os casos de homofobia nas competições nacionais. Árbitros estão instruídos a anotar na súmula comportamentos homofóbicos de jogadores, comissão técnica e torcedores e o tribunal poderá aplicar o que diz o primeiro parágrafo do artigo 243-G do Código. Se um “número considerável” de torcedores desobedecer a recomendação, seus times serão afetados na tabela. O Código Brasileiro de Justiça Esportiva prevê multa e perda dos três pontos da partida em casos de gritos homofóbicos. A ideia do STJD é conscientizar para depois poder punir.

O primeiro caso emblemático aconteceu no jogo entre Vasco e São Paulo em São Januário. Diante de cantos homofóbicos como "time de v..." da torcida do Vasco relatados na súmula do árbitro Anderson Daronco, o STJD analisou o caso e só absolveu o clube carioca porque o treinador Vanderlei Luxemburgo e os jogadores fizeram gestos para que os torcedores parassem com os xingamentos. “Esa atitude foi fundamental para que o clube não fosse punido”, explica Paulo Salomão, presidente do STJD.

Abaixo, confira a entrevista exclusiva dada pelo presidente ao Estado:

Como o STJD analisa a questão da homofobia?

Se a gente não conseguir eliminar a homofobia no futebol, nós queremos diminuir esse tipo de manifestação drasticamente. É dificil a curto prazo, mas nosso objetivo é fazer com que a homofobia seja tratada o racismo. É inaceitável no futebol. A gente observa que a homofobia ainda é tolerada. Mesmo sabendo das dificuldades, pois estamos vivendo diante de uma mudança cultural, estamos fazendo cada vez mais campanhas. No primeiro momento, elas são educativas e pedagógicas. Se os torcedores não se educarem, vamos punir as agremiações. Os clubes respondem pelos atos de seus torcedores, é assim no mundo inteiro.

Ações individuais também serão alvo de atuação?

Nesse primeiro momento, é difícil para os clubes controlar ações individualizadas. Por isso, estamos fazendo uma análise de ações coletivas de torcedores. A tendência é que essa situação de combate à homofobia evolua para que também as ações individuais sejam avaliadas e punidas, se for o caso. Eventualmente, vamos punir a pessoa e também a agremiação.

Quais medidas foram implementadas pelo STJD até agora?

Como qualquer tribunal, o STJD só atua quando é provocado, seja a partir dos relatos dos árbitros nas súmulas das partidas ou algum episódio que os jurisdicionados possam nos informar. Assim, a procuradoria, titular da ação desportiva, analisa uma eventual infração e, eventualmente, faz a denúncia. No caso do jogo do Vasco, eles entenderam que a ação dos treinadores e jogadores e o sistema de alto-falante agiram de forma repressiva para que os gritos homofóbicos cessassem. A procuradoria entendeu que não teria ocorrido infração disciplinar.

Essa partida pode ser considerada como um marco?

Foi um marco, uma medida que deu um alerta para todos sobre essa questão. Não podemos colocar para baixo do tapete um problema que existe. Vamos arraigar nos torcedores que isso não é certo. Sou torcedor dos anos 1980 nas arquibancadas. Isso (homofobia) era permitido por todos. Hoje, não podemos mais aceitar esse tipo de coisa. Nossa ideia é transmitir essa ideia para a nova geração de torcedores. Na quarta, estarei na Bahia para discutir esse tema. Vou proferir uma palestra sobre combate à homofobia no futebol. O jogo entre Vasco e São Paulo foi um marco, mas vamos agir constantemente em uma estratégia de longo prazo até que essa situação não ocorra mais no futebol brasileiro. É uma pauta que está em voga no tribunal e prioritária para mim.

Quais são os prazos para atuação do STJD?

É difícil definir um cronograma. Isso é gradual. Já vivemos uma realidade diferente hoje. Os gritos diminuíram, mas a situação ainda está longe do ideal. É um trabalho que é uma mudança de cultura, não é da noite para o dia. A ideia é que a melhora seja constante. As ações do STJD, da Fifa e do mundo do futebol já repercutiram. Tivemos uma denúncia de homofobia do interior do Piauí, por exemplo, um local distante. Nossa ideia é que cada vez mais a situação evolua para eliminar esse tipo de comportamento no futebol.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.