Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Assis, a vítima de racismo que Dilma deixou de lado

Governo escolhe três representantes para audiência: Tinga, Arouca e Márcio Chagas

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

22 de março de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - Assis não consegue disfarçar os olhos úmidos ao se lembrar do dia 9 de março, quando foi chamado de "macaco, negro, safado e fedorento", em Patos de Minas, no intervalo do jogo entre o seu Uberlândia e o Mamoré. Era o dia do seu aniversário de 28 anos. Sentiu outro aperto no coração no dia 13, quando não foi convidado para uma audiência entre a presidente Dilma Rousseff, representantes negros e outras vítimas de injúrias raciais no futebol.

A Secretaria-Geral da Presidência diz que chamou três representantes de cada segmento e, do futebol, os escolhidos foram Tinga, Arouca e o árbitro Márcio Chagas. Assis ficou de fora. "Fiquei um pouco chateado, sim. O racismo que eu sofri foi o mesmo que eles. Seria bom ter ido, mas tenho de pensar que ela mostrou preocupação com os outros", diz o lateral-esquerdo.

A entrevista exclusiva ao Estado, no final da tarde de quinta-feira, foi a primeira vez em que Francisco Assis falou publicamente sobre o primeiro caso de discriminação racial em seus dez anos de carreira. Passou alguns dias baqueado, sem falar com ninguém. Conversou apenas com a esposa, Claudinéia, que é branca. Abalado, o casal queria processar o caminhoneiro Marcelo da Costa Fernandes, autor da ofensas racistas, mas mudou de ideia. "Quero seguir em frente. Consegui absorver o que aconteceu e vou deixar para ele pensar sozinho em tudo o que falou".

 

O jogador comparou sua situação com a de Arouca, Tinga e Márcio Chagas, mas falta olhar isso direito. Tinga foi o primeiro. No dia 12 de fevereiro, no jogo do Cruzeiro contra o Real Garcilaso, no Peru, os torcedores imitavam macacos sempre que ele pegava na bola. Até agora, nenhuma punição da Conmebol.

Em 5 de março, Márcio Chagas foi insultado quando apitava um jogo em Bento Gonçalves, e no final do jogo encontrou seu carro amassado e com bananas no capô e no teto. O Esportivo, dono do estádio, perdeu cinco mandos de campo e foi multado em R$ 30 mil. Por fim, Arouca também foi chamado de "macaco" no jogo entre Mogi Mirim e Santos, pelo Campeonato Paulista. O julgamento será nesta segunda-feira. O caso de Assis é o único em que o agressor foi identificado (ver quadro abaixo).

Assis é tímido, fala pouco e não costuma colocar um "uai" ou "sô" no final das frases, o que acontece com outros jogadores. Tem uma mania interessante de desviar os olhos no meio das frases. Nesses momentos, parece que vai chamar as palavras no horizonte ou, em um lugar mais perto, na mesa branca de plástico do Centro de Treinamento do Uberlândia. E as palavras vêm.

O lateral fala bem e tem o pensamento organizado, resultado de ter chegado ao segundo colegial, o que significa um degrau acima do ponto onde a maioria dos jogadores para. Tudo isso apesar dos perrengues da infância.

ROÇA

Os perrengues da infância significam o trabalho na roça na cidade de Nazaré, no Piauí. O olhar de Assis agora vai mais longe e para nos seus onze anos, quando ele e os sete irmãos pegavam na enxada para plantar milho, feijão, o que a terra acolhesse. Na época de chuvas, de janeiro a maio, tudo bem. Duro era aguentar a estiagem brava. Foi caçar outra coisa para fazer em Piracicaba, onde já estavam seus irmãos. Trocou a enxada pelo rolo de pão. Foi auxiliar de padeiro, cuidando do recheio e decoração dos doces e bolos, separando os ingredientes, fazendo limpeza e anotando os pedidos. Com um teste no XV de Piracicaba, aos 17 anos, trocou a enxada e o rolo pelas chuteiras.

"Ainda sonho em chegar a um time grande", diz o lateral que passou quatro anos no próprio XV, além de ter atuado no Catanduvense, Atlético Sorocaba, Vila Nova de Goiás. Hoje, é o vice-artilheiro do Uberlândia, obra rara para um lateral.

Assis explica que esse sonho de time grande não é pra já, e que está bem. Ele se diz abençoado por estar em um clube assim. É hora de falar do time de Assis. O CT possui estrutura completa para a formação de jogadores. E que dá resultados.

O presidente Guto Braga recorda com orgulho que Stefano Yuri, uma das novas joias do Santos, começou ali a sua carreira. Depois de uma grave crise financeira em 2006, quando acumulava 118 dívidas trabalhistas, o Uberlândia está com as contas em dia. O segredo foi administrar o clube como uma empresa.

O desafio agora é fazer com que esse equilíbrio das planilhas do presidente passe para dentro do campo. A torcida não aceita o fato de um time tão estruturado disputar apenas a Segunda Divisão do Campeonato Mineiro, afinal Uberlândia é a segunda cidade do estado e a maior do interior. Desde 1997, o time sofreu quatro rebaixamentos. "Nosso objetivo é subir à Primeira Divisão. É hora de voltar", diz o presidente.

Voltar é um verbo que Assis conjuga pouco ultimamente. Perdeu a conta da última vez em que esteve em Nazaré do Piauí. E os dedos das duas mãos não são suficientes para contar os dias até a próxima folga, dia em que deve retornar para Piracicaba para reencontrar a esposa.

Quando a Claudinéia entrou na história, faltou dizer que ela não mora em Uberlândia. Estão casados já há dois anos, mas separados pela distância. Mesmo com a facilidade para se expressar, Assis não sabe explicar como consegue asfixiar a saudade do filho Pietro, de dez meses. E seus olhos se perdem de novo, lá longe, na lembrança do herdeiro. E ficam úmidos de novo. Agora, por um bom motivo.

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