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Assombrações

Fantasma de Guardiola assombra os técnicos brasileiros, e foi o que o Flamengo foi buscar em Domènec Torrent

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2020 | 05h00

Um fantasma ronda o futebol brasileiro. Seu nome é Guardiola. No fundo esse nome assombra até a mim, que não sou muito ligado a teorias táticas e, portanto, a treinadores em geral. São necessários, claro, mas em geral se defendem fazendo pequenas modificações que assumem proporções enormes, quando são vitoriosos.

Nada tenho contra quem analisa futebol como uma ciência exata. Acho esse tipo de esforço digno, e o estudo disso até me comove. Só que não acredito nisso e acho até que se esse método, digamos, científico fosse possível, empobreceria definitivamente o futebol.

Pep Guardiola é evidentemente um dos sacerdotes dessa fé na ciência do futebol. Na verdade, não sei se teria muitos motivos para essa fé, sobretudo nos tempos de jogador, pois estava em campo na final do Mundial de Clubes na qual o Barcelona foi vencido por um São Paulo cheio de fantasistas e dirigidos por um prático, pouco falante e silencioso mineiro chamado Telê Santana. O mesmo que assombrou o mundo na Copa de 1982, apesar de derrotado, desta vez assombrou na acepção completa da palavra.

Isso não importa mais, foi há muitos anos e os europeus, alemães à frente, acabaram por implantar sua maneira de jogar bola em todo mundo, inclusive aqui. É melhor passar rapidamente para a situação atual. No ano passado, com o time do Flamengo, chegamos ao delírio da idolatria a um treinador estrangeiro. Ele fez o milagre. Ele fez o time jogar e tão bem que, ao desprezar o clube e voltar para Portugal, deixou em prantos uma coletividade inteira disposta a tudo para substituí-lo.

Sonharam secretamente com Guardiola é claro, em vão. Então, num gesto de grande ousadia, contrataram o assistente do Guardiola, pensando que algo nele tinha ficado das virtudes do Mestre. É como se, na impossibilidade de trazer Cuca, contratar seu assistente Cuquinha. Ou em vez de Felipão fosse chamado em seu lugar o Murtosa.

Não está dando certo e todos estamos preocupados. Como é possível? Esteve dez anos com Guardiola, sabe de cor e salteado tudo o que ele sabe, ouvia preleções e instruções dos próprios lábios do Mestre, e ainda assim não está dando certo! Na dúvida, ninguém arrisca opinião definitiva. E se começar a dar certo? E se os jogadores querem derrubá-lo esperando a volta de Jesus? Nesse caso outra assombração se junta a Guardiola. É verdade que não vai muito bem das pernas em seu Portugal. Já caiu fora de disputa europeia importante e, somando-se à reputação duvidosa que goza na terrinha, é capaz de aparecer de novo no Brasil. 

Mas deixemos Jesus de lado, enquanto não ressurge das águas comandando seu exército. O fato é que vivemos dessas assombrações. E, falando nelas, há uma terceira hipótese nesse continente de milagres, crendices e mágicas vagando secretamente por aí: quem sabe não foi um instante mágico o que ocorreu com o time do Flamengo? Quem sabe não veio do inexplicável, das mandingas, das mães de santo, das benzedeiras tão fora de moda até do Brasil profundo, o instante de graça do time da Gávea?

São bons jogadores, mas não são excepcionais. Alguns deles já tiveram dias melhores na Europa e na falta de mercado escaparam para cá. Outros já tinham adquirido fama de renegados aqui em seus clubes de origem. Da base mesmo, uma ou duas parcas revelações. A explicação só pode ser ou Jesus ou a magia.

Sou pela magia. O futebol ainda tem caminhos e veredas que, nós, brancos de classe média, nunca vamos percorrer. As velhas avós, com a África ainda nos olhos, podem não ter esgotado seu arsenal de sortilégios maravilhosos. De vez em quando, por um curto período, acontecem coisas como aconteceram no Flamengo. Só nos resta dizer apenas: deu certo. O que fez dar certo nunca saberemos.

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