Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

'Sou santista, mas tenho um carinho e aprendi a amar o Palmeiras'

Ex-volante relembra polêmicas, como soco em Valdivia, e quer ser dirigente

Entrevista com

Marcos Assunção, ex-jogador de Santos e Palmeiras, entre outros

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2016 | 07h02

Marcos Assunção tem 39 anos, sendo 22 anos no futebol. Após passagem pelo Sampaio Corrêa, ele decidiu se aposentar, vai estudar e pretende se tornar dirigente. Em entrevista ao Estado, o ex-volante faz um balanço sobre a carreira, relembra polêmicas, como o dia em que deu um soco em Valdivia, e revela que, embora seja santista, aprendeu a amar o Palmeiras. Assunção iniciou a carreira no Rio Branco e ainda na base, se transferiu para o Santos, onde voltou a jogar por mais três oportunidades. Teve passagens também pelo Flamengo, Roma, Betis, Al-Ahli-EAU, Al Shabab-EAU, Grêmio Prudente, Palmeiras, Figueirense, Portuguesa, Criciúma e Sampaio Corrêa. 

Porque decidiu aposentar?

Meu joelho melhorou muito depois que fiz tratamento com o Grava (Joaquim Grava, médico). No fim de 2013, depois que saí do Santos, fiz tratamento e passaram as dores. Eu parei porque chegou a minha hora. Durante toda a minha carreira, fiz as coisas corretamente para quando chegasse este momento, eu iria decidir parar e não que a imprensa, torcida ou treinador me obrigassem a parar, entende? Eu percebi que eu comecei a chegar um segundo depois na jogada e quando o atleta percebe isso, é porque chegou a hora.

O que faltou para sua carreira ser completa?

Uma Copa do Mundo. Não sou frustrado com isso, porque tive uma carreira muito boa, joguei em vários grandes clubes e fui campeão. Mas fica essa lacuna na minha carreira. Pelo menos, joguei na seleção brasileira, onde muitos querem chegar, joguei com os melhores e a favor dos melhores. Para quem saiu de um barraco de favela em São Paulo, conquistar tudo isso é especial. Só tenho que agradecer ao meu falecido pai, que sempre quis que eu fosse jogador e nunca deixou faltar isso aqui (aponta para a chuteira). Ele deve estar orgulhoso do filho.

Sua intenção é virar dirigente, empresário ou técnico?

Eu vou fazer curso, palestras e tenho muita vontade de continuar dentro do futebol. Penso em três possibilidades, na ordem: Ser dirigente, empresário e após um espaço muito longe, ser treinador. A vida de técnico não é fácil e teria que pensar duas vezes mais para entrar nessa área. O treinador tem que chegar duas ou três horas antes e sair três ou quatro horas depois. E ele sempre é o culpado e está sozinho para se defender.

O que tem sentido mais saudades dos tempos de jogador?

Meus gols de falta. Eles não vão mais passar na segunda-feira nos programas de esporte (risos). Mas, tudo na vida tem começo, meio e fim. Estou feliz, ficam boas lembranças e pessoas sensacionais que eu conheci. Mas aqueles golzinhos me fazem falta.

Como avalia o nível dos dirigentes brasileiros?

Tudo do mesmo nível. Falta mais gente que jogou futebol no comando dos clubes. Claro, tem que estudar e ter a parte teórica. A prática, eu já tenho 22 anos de futebol, mas preciso estudar, porque não quero assumir um clube só pelo nome de jogador. Quero ter um currículo que faça eu merecer a oportunidade.

Você tem passagens vitoriosas por vários clubes, mas em qual você acha que ficará marcado?

Acho não, tenho certeza. Por mais que eu seja santista e tenha começado a jogar no Santos, eu virei o Marcos Assunção do Palmeiras. A conquista em 2012 (Copa do Brasil), após muitos anos sem ganhar um título importante, marcou demais e acho que tive uma parcela grande neste título. As pessoas me param na rua e falam comigo como jogador do Palmeiras. Sou santista, mas tenho um carinho e aprendi a amar o Palmeiras. Respeito a torcida, que sempre me tratou bem e até hoje, quando me vê na rua, pede autógrafo e foto.

Mas sua saída não foi das melhores. Poderia ter sido diferente?

Poderia, mas os torcedores entendem que eu fiz de tudo para ficar. Quem estava no dia a dia do clube via o esforço que eu fazia para jogar, com o joelho ruim, tomando infiltração e conseguia jogar assim. Quando amamos alguém ou algo, a gente se esforça para fazer o melhor e fiz isso pelo Palmeiras. Não foi uma saída boa, mas não foi por culpa minha. Eu queria ter acabado a carreira lá, mas a diretoria não pensava assim. O engraçado é que, depois de um tempo, o presidente Arnaldo Tirone ligou, na minha frente, para o Paulo Nobre e pediu para eu voltar, mas não deu certo.

Deixa inimigos no futebol?

Não. Tive algumas discussões e isso é normal, como temos na família, mas sem inimigos.

Nem o Valdivia? Você deu um soco nele...

Sim, aconteceu. Um trabalho em grupo é normal as pessoas terem pensamentos diferentes, mas já passou. Rezo e torço para que ele consiga exercer sua profissão e não se machuque mais. Ele joga muito, é craque e um dos melhores com quem joguei, mas ele só joga quando quer e muitas vezes ele não queria.

Porque você o agrediu?

Ele teve a infelicidade de falar um monte de bobagem em um momento de tristeza da minha parte. Eu estava com o joelho ruim, tomando infiltração e ele falou que eu estava fazendo isso para aparecer na imprensa e para a torcida. Sempre me dediquei muito, foi o momento que mais me doei na carreira e queria sair daquela situação que estávamos vivendo. Infelizmente, tudo que fiz não adiantou de nada (Palmeiras foi rebaixado em 2012). Mas foi um momento infeliz dele e meu. Não é bom ter essa imagem, pois somos pai de família e quero ser exemplo para o meu filho. Quero deixar claro que não encaro isso como um troféu. Foi um erro e ultrapassei os limites.

E as discussões com membros da Mancha Alviverde. Acha que foi necessário também?

Jogar em alto nível em um clube da grandeza do Palmeiras é normal a cobrança e você é obrigado a ganhar sempre. E quando tem uma torcida tão apaixonada quanto a do Palmeiras, é inevitável. Quem está no Palmeiras tem que saber que é assim que funciona e quando o time não está bem, a torcida cobra mesmo. Mas voltando a pergunta, não tenho absolutamente nada contra a torcida. Hoje, os mesmos com quem discuti, hoje são meus amigos. Nos abraçamos e conversamos de boa quando a gente se encontra. Isso foi uma atitude de homem, discutir a situação. Nos agredimos verbalmente, mas sem nada físico.

Outro assunto que rende polêmica é racismo. Sofreu muito com isso?

Passei por isso, mas não sofri. Na Itália, principalmente, tinha lugares que a gente passou por situação estilo a do Daniel Alves (torcedor atirou uma banana na direção dele). Sou de uma época que a gente não dava bola para isso e a imprensa também não fazia todo esse barulho. O xingamento de macaco e outras coisas é uma forma de tentar desestabilizar quem tem talento. A gente só tenta tirar do sério quem tem competência. Mas acho que futebol é dentro de campo. Tem que fazer que nem o Neymar. Foi xingado ou agredido, é aí que você vai arrebentar com o jogo e fazer o adversário passar vergonha. Lembro de um jogo contra a Fiorentina que tinha o Cafu, Aldair, eu e o Fábio Júnior e ganhamos de 5 a 1, sendo xingado o jogo inteiro. A resposta que demos para os racistas foram os cinco gols.  

 

 

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