Paolo Magni/EFE
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Atalanta viu cidade ser epicentro da pandemia e agora vive sonho na Liga dos Campeões

Clube investe forte na base e em contratações pontuais; Bérgamo adotou quarentena rigorosa e reduziu casos e mortes por coronavírus

Pedro Ramos, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 10h00

Dividida entre a cidade alta e a cidade baixa, Bérgamo teve outro tipo de separação em 2020. Em março, a cidade da Lombardia chegou a ser o epicentro da pandemia do novo coronavírus na Itália, com o sistema de saúde em colapso, após desprezar a implementação da quarentena. Hoje, vive outra realidade. Com as medidas tomadas pelas autoridades de saúde, tanto Bérgamo, quanto o país, registraram queda acentuada no número de casos e de mortes pela covid-19. Agora, os holofotes também se voltam para o futebol.

A Atalanta, a equipe da cidade, fez grande campanha no Campeonato Italiano e está nas quartas de final da Liga dos Campeões. Adversária do Paris Saint-Germain na próxima quarta-feira, 12, às 16h (horário de Brasília), o time é a grande sensação do futebol italiano nos últimos anos e faz sua estreia na competição europeia.

Por determinação da Uefa, todas as fases do torneio serão disputadas em Portugal. As quartas de final, além da semifinal e da decisão, vão ser realizadas em jogo único.

Investimento na base e contratações certeiras

Por muito tempo, a Atalanta esteve longe das primeiras posições do Campeonato Italiano. No entanto, nos últimos anos, o clube passou por uma grande reformulação dentro e fora de campo e, atualmente, colhe os frutos de um projeto que exigiu paciência.

A diretoria direciona seus investimentos tanto para a base como também para reforços pontuais e pouco valorizados, que se encaixam no DNA da equipe. Desde que voltou para a elite do futebol italiano em 2012, a Atalanta realizou campanhas regulares nas cinco temporadas seguintes. A partir de 2017, o clube começou a ter desempenhos cada vez melhores. 

A equipe passou a figurar na parte de cima na tabela e conseguiu vaga na Liga Europa em duas temporadas seguidas. No ano passado, o time foi vice-campeão da Copa da Itália e carimbou vaga na Liga dos Campeões pela primeira vez em sua história.

O que chama a atenção na Atalanta é o estilo de jogo ofensivo, reflexo da visão do técnico Gian Piero Gasperini. Mesmo sem contar com jogadores famosos, a equipe tem um dos ataques mais goleadores do futebol europeu, à frente da própria Juventus, campeã italiana.

O time italiano aposta na intensidade, na troca de passes e até na participação dos zagueiros na construção do jogo, dentre eles o brasileiro Rafael Tolói, ex-São Paulo. É devido à mentalidade ofensiva que a Atalanta vem recebendo elogios pelo desempenho em campo.

“Defender te faz invencível, mas se você quer vencer, você tem que atacar (do livro A Arte da Guerra). Você tem que crescer e melhorar, dia a dia, porque se você não melhora, você está perdido. Aqueles que param, eles estão perdidos”, filosofou Gasperini em entrevista ao jornal inglês The Guardian.

‘Bomba biológica’ em Atalanta x Valencia

Em sua primeira participação na Liga dos Campeões, a Atalanta fez boa campanha na fase de grupos e avançou para o mata-mata. No dia 19 de fevereiro, dois dias antes de a Itália registrar a primeira morte pela covid-19, a equipe italiana enfrentou o Valencia, em Milão — o estádio do clube está em reformas —, e milhares de torcedores do time viajaram para assistir à goleada. 

Um mês depois do primeiro óbito confirmado, o prefeito de Bérgamo, Giorgio Gori, disse que a partida "foi uma bomba biológica" e contribuiu para o aumento de casos e mortes do coronavírus.

“Eu nunca irei me esquecer das sirenes que nós ouvimos no centro de Bérgamo, pelo resto da minha vida”, disse o técnico Gian Piero Gasperini ao The Guardian.

Quem viu de perto o drama de Bérgamo foi Giordano Corti, morador da cidade e que trabalha com a família no setor funerário. Em entrevista ao Estadão, Corti relembrou a dor ao ver a cidade como epicentro da pandemia na Itália e destacou a importância da quarentena.

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Ver os tanques militares carregando centenas de caixões do cemitério foi um golpe no coração
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Giordano Corti, morador de Bérgamo

“Ver os tanques militares carregando centenas de caixões do cemitério foi um golpe no coração, especialmente para mim e minha família, já que trabalhamos com serviços funerários. A quarentena rígida em Bérgamo foi fundamental, além do respeito pelas distâncias e o uso correto de máscara. A vida está retornando ao ‘normal’, mas o medo e as lembranças do que aconteceu permanecem muito fortes”.

A pedido do presidente italiano, Sergio Mattarella, a empresa em que Corti trabalha doou à cidade um memorial para lembrar de todas as vítimas da covid-19. Enquanto a cidade tenta voltar à normalidade, os olhares se voltam nesta semana para o time da cidade na disputa da principal competição europeia.

“Em Bérgamo, se você não apoia a Atalanta, não pode se considerar ‘bergamasco’. Uma cidade, um único coração azul e preto. Sim, estamos muito orgulhosos”, destaca Corti.

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