Luis Tejido/EFE
Luis Tejido/EFE

Athletic Bilbao: rico, mas ameaçado pelo rebaixamento no Espanhol

Clube corre risco de cair, apesar de ter dinheiro para se reforçar. Mas só pode contratar jogador do País Basco

Tariq Panja / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2019 | 04h30

O mercado de compras do futebol europeu está aberto neste janeiro. Para equipes que lutam contra o rebaixamento e a ruína financeira, é uma oportunidade vital para se fortalecer. Entre estas se encontra o Athletic Bilbao, que está em 17.º lugar entre os 20 clubes da Liga e já fez a segunda mudança em sua direção técnica na temporada. 

Financeiramente, o centenário Athletic, uma potência futebolística da Espanha, tem pouco em comum com outros clubes em situação precária. O time tem muito dinheiro vivo, cerca de € 200 milhões (R$ 852 milhões) em reservas, e acesso a outros € 90 milhões (R$ 383,4 milhões) adicionais que se empregados para a atrair talentos do mercado global futebolístico, provavelmente o ajudariam evitar o rebaixamento e sair da zona de perigo. 

Ocorre que o Bilbao não pode gastar esse dinheiro como qualquer outro time do mercado gastaria. Segundo sua tradição, ele só pode ter jogadores nascidos no País Basco – território que inclui sete províncias que se estendem do norte da Espanha à França –, ou que se mudaram jovens para a região e aprenderam ali a jogar futebol. 

Essa pureza futebolística sempre foi motivo de orgulho para o clube de 121 anos. O Athletic Bilbao vangloria-se do fato de nunca ter sido rebaixado para a segunda divisão da Espanha, proeza da qual compartilham apenas o Barcelona e o Real Madrid. Mas agora está próximo do rebaixamento, e a tradição de se ater somente a talentos locais obviamente dificulta uma renovação. 

Assim, com o cofre abarrotado e opções limitadas, o time tornou-se uma espécie de “pobre rico” do futebol. “Não precisamos realmente de dinheiro”, disse no mês passado Josu Urrutia, ex-meia do Bilbao, de 50 anos, antes de encerrar sete anos de presidência do clube. 

Seu sucessor, Aitor Lizegi, embora crítico de algumas decisões de Urrutia, confirmou taxativamente que o compromisso da equipe de só contratar jogadores bascos será mantido. 

De certa forma, o Athletic pode culpar seus recentes sucessos por sua atual situação. Nos últimos oito anos, o time jogou seis temporadas na Liga da Europa (chegando uma vez à final) e uma vez na Liga dos Campeões. Em 2012 e em 2015, chegou à final da Copa do Rei. 

Esse sucesso atraiu o interesse de times espanhóis e do exterior, o que obrigou vários jogadores jovens a tomar decisões difíceis. Mas quando a decisão sobre uma venda multimilionária chegava à diretoria, a resposta era simplesmente não. Sob Urrutia, o Athletic nunca negociou, não importando o preço. Jogadores só deixavam o time se o clube interessado pagasse a cláusula de rescisão. 

O meio-campista Javi Martínez foi vendido ao gigante alemão Bayern de Munique em 2011, um ano após Urrutia começar sua presidência. A venda ocorreu depois de Urrutia rejeitar uma oferta pelo craque feita por Jupp Heynckes, então administrador do Bayern. 

“Jupp me disse: ‘Javi parece um jogador de futuro, mas € 40 milhões é muito; estamos dispostos a pagar € 22 ou 23 milhões’”, lembra-se Urrutia, que respondeu: “Perfeito, então não precisamos nos preocupar com isso.” No fim, o Bayern acabou pagando € 40 milhões.

Desde então, o Athletic perdeu outros jogadores de maneira semelhante. Ander Herrera foi para o Manchester United em 2014. O jogador de defesa Laporte tornou-se a aquisição mais cara do Manchester City: € 65 milhões. Mais recentemente, o Chelsea fez de Kepa Arrizabalaga o goleiro mais caro do mundo, pagando os € 80 milhões de sua cláusula rescisória.

O dinheiro, claro, é importante. O Athletic paga os salários mais altos da Espanha, muito mais do que equipes de nível semelhante. Segundo Urrutia, o salário anual de um jogador titular é em torno de US$ 4 milhões. 

Quando é preciso substituir um jogador que parte, o clube sempre dá preferência a atletas formados em sua academia, Lezama, uma instalação de primeira classe localizada a cerca de dez quilômetros de Bilbao, a maior cidade do País Basco.  “Damos oportunidade de jogar no primeiro time quando são muito jovens porque precisamos deles”, disse Urrutia.

Alguns jogadores, como o meio-campista Iker Muniain, são tão comprometidos com a filosofia do clube que recusam ofertas para ir para outros times. Pouco antes do Natal, quando venceu seu contrato, Munkiain, de 26 anos, atacante que está no Athletic há mais de uma década, pediu que a cláusula de rescisão nem mesmo constasse de seu contrato. 

“Estou feliz por ter feito isso”, disse ele. “Tivemos casos de colegas que saíram e os torcedores ficaram tristes. Este é um meio de eu demonstrar minha lealdade ao clube.”

Entretanto, quando o time tem de recorrer ao mercado, as opções são limitadas, o que permite a times que estão vendendo tirar vantagem. Nesta temporada, o Athletic concordou em pagar ao Paris St.-Germain uma taxa de € 24 milhões pelo jogador de defesa Yuri Berchiche, que fora comprado do Real Sociedad pela equipe francesa menos de um ano antes por € 8 milhões. 

“Somos pressionados porque os outros times sabem que não temos muitas opções no mercado”, disse Urrutia. 

O Athletic continua preso à sua política de só usar jogadores locais e a outros caprichos que o tornam único. 

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

 

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