Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Athletico, Coritiba e a ‘síndrome da solução mais fácil’

Banem a torcida visitante, banem a torcida organizada, banem faixas e instrumentos. Se pudessem, baniriam todos os torcedores

João Abel, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 17h00

Na noite de 15 de dezembro de 2021, lá pelos 30 minutos do 1º tempo, o torcedor do Athletico-PR já sabia que o time tinha chances nulas de virar a final da Copa do Brasil contra o Atlético-MG. O Galo havia vencido o jogo de ida em Minas por 4 a 0 e, àquela altura, já ganhava por 1 a 0 em Curitiba. Ainda assim, os rubro-negros que estiveram na Arena da Baixada fizeram uma festa inesquecível até o apito final. 

Foi a última imagem do futebol brasileiro na temporada passada: a do torcedor apaixonado do Furacão, que embalou o time mesmo com a derrota na decisão.

Exatos seis meses depois, a diretoria do Athletico anunciou nesta quarta, 14, que vai proibir “acesso de adereços relativos às torcidas organizadas (bandeiras, faixas, instrumentos de percussão e outros similares) em qualquer setor do estádio, inclusive dos clubes visitantes”. Na nota, o clube pontua, ingenuamente, que esse tipo de medida ajudará a “evitar novos episódios de violência”.

Sim, o Athletico meteu essa. E não é a primeira vez. Medidas semelhantes já foram tomadas pelo clube em 2016 e 2017. O gatilho agora foi uma briga entre torcedores do Juventude e do Furacão, em Caxias do Sul, na semana passada, quando uma pessoa ficou gravemente ferida.

Principal organizada do clube, a Fanáticos rebateu a medida em nota: “A causa da violência no futebol está longe de ser resolvida com a proibição desses materiais, pois trata-se de um problema social que precisa sim ser combatido, mas isso precisa ser feito de maneira correta com identificação e punição dos envolvidos, o que nos últimos casos já vem sendo apurado”.

Em outro episódio de violência no Paraná, torcedores de Coritiba e Palmeiras entraram em conflito depois que uma caravana da Mancha Alviverde, mal conduzida pela Polícia Militar nas ruas da capital paranaense, cruzou com integrantes da Império Alviverde, torcida uniformizada do Coxa. As duas culpam a PM pela confusão. Os policiais jogam a culpa nas torcidas. E ninguém chega a conclusão nenhuma. Ninguém é punido por nada.

Como já era de se esperar, os episódios foram usados como desculpa para que os clássicos entre Athletico e Coritiba passem a ser disputados com torcida única. O primeiro deles será já no próximo domingo, 19, no Couto Pereira. Nesta quinta, a CBF aceitou o pedido dos dois clubes, com parecer da Delegacia Móvel de Atendimento ao Futebol e Eventos (Demafe) e do Ministério Público do Paraná (MP-PR).

Athletico, Coritiba e as autoridades paranaenses apelam para as soluções mais fáceis, menos eficazes e mais prejudiciais a seus próprios torcedores.

Seguem o caminho do Estado de São Paulo, onde desde 2016 a torcida única impera em todos os clássicos e, por vezes, até em jogos interestaduais como já ocorreu em duelos entre Palmeiras e Flamengo.

Esse é o caminho? Ou é apenas a rota mais fácil para dizer que algo foi feito contra a violência no futebol?

Até hoje, o episódio que motivou a adoção da torcida única em SP não teve qualquer solução. Ninguém foi punido pela morte de José Sinval Batista de Carvalho, cidadão comum que, seis anos atrás, levou um tiro em meio a uma briga entre palmeirenses e corintianos em São Miguel Paulista, zona leste da capital.

Quantos serão punidos pelos últimos episódios de violência no Paraná? Ou proibir faixas, baterias e bandeiras vão ser o suficiente para acabar com os crimes cometidos por alguns torcedores organizados?

Em SP, as brigas entre torcidas não acabaram. Ainda que tenham sido reduzidas nas imediações dos estádios, por lógico, já que não há divisão de espaço com rivais, elas seguem acontecendo em outras regiões da cidade. O mais prejudicado é o torcedor, que perde seu direito de torcer na casa do adversário. O palmeirense que jamais conhecerá a Arena Corinthians, o corintiano que nunca pisará no Morumbi e o são-paulino que não pode visitar o Allianz Parque.

Tudo agora importado pelo Paraná. 

Baniram a torcida visitante, baniram a festa das organizadas, baniram faixas, instrumentos e bandeiras. A impressão é que, se pudessem, baniriam todos os torcedores. 

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