Maurício Mano|Atlético Paranaense
Torcedores do Atlético Paranaense na Arena da Baixada Maurício Mano|Atlético Paranaense

Atlético-PR pode ditar nova ordem no futebol brasileiro

Clube cria TV própria para transmitir jogos, investe em infraestrutura e na cultura empresarial

Gonçalo Junior, enviado especial a Curitiba, O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2017 | 17h00

Depois de transmitir o clássico com o Coritiba pelas redes sociais, o Atlético Paranaense criou a Cap Play, um canal de televisão em que profissionais de mídia vão transmitir as partidas do time. A iniciativa é uma alternativa à venda dos direitos de transmissão para as emissoras tradicionais de TV e mais um round da batalha com a Rede Globo.

A diretoria do clube paranaense questiona a distribuição das cotas de televisão. O último acordo prevê pagamentos de R$ 170 milhões para Flamengo e Corinthians enquanto o Atlético e outros clubes de menor torcida recebem cerca de R$ 80 milhões – uma diferença de R$ 90 milhões. No Campeonato Paranaense, o Atlético não aceitou a cota de R$ 1 milhão e transmitiu o clássico no YouTube e Facebook. Na TV fechada, foi um dos líderes da ruptura com a Globo e assinatura com o Esporte Interativo para 2019/2024.

Essa briga é antiga. Em 1997, os clubes conseguiram R$ 57 milhões do SBT, mas a Globo cobriu a oferta. “O monopólio da Globo é uma total e absoluta injustiça. O bolo cresceu e temos de trabalhar na divisão. Há uma guerra andando”, diz Mario Celso Petráglia, presidente do Conselho Deliberativo do Atlético.

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que regula mercados e combate monopólios, confirmou que “há um procedimento preparatório (fase preliminar de apuração) em trâmite para analisar alguns aspectos concorrenciais dos direitos de transmissão de jogos de futebol”. Isso pode gerar um inquérito administrativo ou arquivamento, mas o órgão afirma que não há prazo para a conclusão.

A Globo não se pronunciou oficialmente, mas fontes ligadas à emissora dizem que “ninguém apresentou propostas nos últimos anos”. Especialistas afirmam que a oferta para 2018 será mais igualitária, com 40% da cota divididos por todos, 30% por classificação e 30% pelo número de jogos.

O Estado foi conhecer de perto o clube que peita a Globo há 20 anos e que encontrou inspiração nos moldes europeus de gestão e planos estratégicos atualizados a cada cinco anos. Petráglia comentou que o clube tem dois diferenciais: a cultura empresarial e a infraestrutura.

Com menos grana da TV que outros, o Atlético foi beber em fontes diferentes de receitas. Uma delas é a formação de jogadores. Construiu o CT do Caju, onde a seleção já ficou, e hoje investe R$ 3 mil por mês na formação de cada atleta. O modelo vem dando certo. Nas últimas décadas, lucrou cerca de US$ 400 milhões (R$ 1,3 bilhão) em negociações (nem tudo fica em casa por causa do fatiamento dos contratos). A lista é longa. Começou com Paulo Rink e Oséas. Hernani foi vendido ao Zenit em dezembro por 10 milhões de euros, cerca de R$ 33,2 milhões.

Desde 1995, o Atlético construiu uma arena própria, a primeira com teto retrátil da América Latina, cujo investimento foi de R$ 346 milhões, mais ou menos um terço do custo da Arena Corinthians – as duas têm 42 mil lugares. Resta ainda uma dívida de R$ 100 milhões com o governo estadual que deverá ser paga em 20 anos.

O próximo passo é a construção de um ginásio multiúso, ao lado do estádio, com capacidade para dez mil pessoas. O clube busca parceiros. “O Atlético é um modelo de clube com planejamento estratégico”, avalia Pedro Daniel, gerente de Esportes da consultoria BDO.

No campo, foi campeão brasileiro das Séries A e B e chegou a cinco edições de Libertadores. Quer ganhar o mundo até 2024, ano do seu centenário. “Nossa meta é que nos vejam como candidatos aos títulos”, diz Petráglia. As transmissões dos jogos no YouTube vão continuar.

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Atlético-PR adota modelo europeu de gestão

Ideia principal é apostar na profissionalização em todos os departamentos

Gonçalo Junior, enviado especial a Curitiba, O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2017 | 17h00

Mário Celso Petráglia, presidente do Conselho Deliberativo do Atlético-PR, revela a impressão que um dirigente do Kashima Antlers, do Japão, teve do Centro de Treinamento do Caju. “Ele disse que estava no Brasil, mas que tinha a impressão de estar em um clube europeu.”

Adotar um modelo europeu significa, entre outros diferenciais, ter uma filosofia de trabalho e práticas de gestão acima dos profissionais que passam pelo clube. A profissionalização está presente em todos os departamentos sob o conceito de ‘transdisciplinaridade’, ou seja, as áreas trabalham em sinergia, uma ajuda a outra e todas utilizam as mesmas informações.

No ano passado, foram 21 visitas de delegações internacionais para ver como o Atlético trabalha. E existem parcerias formais de intercâmbio com o Orlando City, dos EUA, e o Kaiserslautern, da Alemanha.

A passagem pelo futebol europeu é um dos requisitos quando o clube busca um gestor. Profissionais de dez nacionalidades diferentes passaram ou estão no Atlético. Enquanto cartolas brasileiros citam Barcelona ou Manchester United como modelos, os dirigentes paranaenses foram mais assertivos e escolheram um time à sua imagem e semelhança. A inspiração foi a visão do Southampton, clube da primeira divisão inglesa que vendeu 200 milhões de libras (R$ 790 milhões) em jogadores formados nos últimos anos. A equipe capta talentos regionalmente, melhorou estruturas e a metodologia. Forma atletas para o time e para a comercialização.

Outro salto importante foi a parceria com a Exos, empresa especializada em alta performance de atletas e que ajudou na arrancada da seleção alemã rumo ao título na Copa de 2014. O trabalho engloba mentalidade, nutrição, movimento e recuperação dos jogadores. Um dos trabalhos envolve a análise de vídeos do movimento de cada atleta para “balancear” seus atos, como se fosse um automóvel. Isso é feito a cada três meses. Para cuidar da performance mental, dois psicólogos e dois psiquiatras trabalham no clube.

No CT do Caju, as bases usam as mesmas instalações do time principal. Todos comem no mesmo restaurante e até os dormitórios são iguais – muda apenas o número de atletas por quarto. Tudo para facilitar a integração. Hoje, 66% do grupo de 33 jogadores foram formados na base. Em 2013, ano em que o clube voltou à Série A, o porcentual era de 25%. Até o sistema de jogo (4-4-2) é unificado do sub-15 ao profissional. O técnico do time principal, Paulo Autuori, trabalha no mesmo espaço físico das comissões técnicas da base.

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Paulo Autuori: 'É emergencial trocar o comando da CBF'

Comandante do Atlético Paranaense vai se tornar diretor técnico

Entrevista com

Paulo Autuori

Gonçalo Junior, enviado especial a Curitiba, O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2017 | 17h00

Há um ano no clube, o técnico Paulo Autuori afirma que encontrou, pela primeira vez na sua carreira, uma sintonia entre o que pensa de futebol e a proposta do clube.

Você é um dos poucos treinadores que fala o que pensa sobre a gestão do futebol. Por que? 

Não julgo ninguém. Pelo tempo que eu estou no futebol, tenho condições de exteriorizar o que penso. Recebi muitas mensagens de gente que alguém precisava falar. Estou dando voz a outros que não conseguiram ter essa oportunidade. Não quero ser essa voz, mas vivi futebol e tenho parâmetros.

O que é emergencial no futebol brasileiro?

É emergencial trocar o comando da CBF. Eu vejo na presidência da CBF alguém que tenha sido jogador, com capacidade e qualidade. Nós temos gente assim.

Como avalia a distribuição das cotas de TV?

Não consigo analisar o futebol sem os aspectos antropológico, social, filosófico e pedagógico. O que eu vejo no Brasil é que todo mundo quer ganhar de qualquer jeito e enfraquecer os oponentes. Isso para mim é mediocridade. Você tem de melhorar o nível de todo mundo.

Como fazer com que os jogadores de todas as categorias joguem no mesmo esquema, como faz o Atlético?

É preciso respeitar a faixa etária das categorias e inserindo a complexidade gradativamente. Não posso pedir para um jogador do sub-15 fazer uma situação que fazemos no profissional, tática e estratégica. O grande lance é o respeito pelo lado pedagógico.

Você será diretor técnico?

Quero ser responsável pela parte técnica e lançar um olhar profundo para a formação. Quero participar de um grupo de cabeças pensantes e analisar o futebol como um todo.

Como avalia seu primeiro ano no clube?

Basicamente, nós atingimos os objetivos no ano passado, mas a exigência aumenta. O desafio é fazer o futebol acompanhar essa excelência metodológica e organizacional do clube. Estamos formando uma base bastante sólida.

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