RODOLFO BUHRER /ESTADÃO
RODOLFO BUHRER /ESTADÃO

Atlético-PR usa biometria para combater violência

Sistema para identificar torcedor pelas digitais vira 'case' de sucesso na segurança pública do Paraná

Renan Cacioli, ENVIADO ESPECIAL A CURITIBA

01 Setembro 2018 | 17h00

O Atlético-PR vem se tornando um case de sucesso no combate à violência no futebol, além de importante aliado dos órgãos responsáveis pela segurança pública no Paraná. Graças ao seu sistema de biometria que cadastra e identifica todo torcedor presente aos jogos na Arena da Baixada, o clube tem ajudado na captura de criminosos, mesmo os envolvidos em delitos não relacionados a eventos esportivos. Não à toa, situações em que indivíduos são pegos de surpresa pelo policiamento ainda nas catracas do estádio vêm se repetindo.

Na última quarta-feira, por exemplo, quando a reportagem do ESTADO esteve no local, duas pessoas que tinha mandados de prisão expedidos foram capturadas antes da partida entre os donos da casa e o Vasco, em jogo atrasado da 15.ª rodada do Brasileirão. Foi a 13.ª ocorrência deste tipo desde que a biometria passou a ser adotada em 100% da arena, em setembro do ano passado.

A tecnologia já havia sido implementada em 2015, mas apenas para registrar integrantes de torcidas organizadas, como acontece também nos estádios de Grêmio e Internacional, em Porto Alegre. Há quase um ano, mesmo os fãs do visitante na Arena precisam estar devidamente catalogados. Caso contrário, não entram. 

"O sistema da biometria tem colaborado de forma efetiva para a segurança do Estado. Ele possui dois aspectos fundamentais: repressivo e preventivo. Repressivo na medida que é retirado de circulação aquele indivíduo que já tem contra si um mandado de prisão ou o baderneiro que já foi impedido por meio de uma medida restritiva judicial de comparecer ao evento. E preventivo porque esse torcedor que sabe que tem algo em aberto ma justiça também não comparece ao jogo", diz Ricardo Henrique Ferreira Jentzsch, juiz auxiliar da 2.ª Vice-Presidência do TJ-PR (Tribunal de Justiça do Paraná). 

A biometria, por si só, não explica o sucesso da empreitada. O xis da questão é ter um banco de dados interligado entre clube e poder público. No Paraná, cerca de dois terços dos seus mais de 11 milhões de habitantes já fizeram o cadastramento biométrico. Graças a um convênio do Atlético-PR com TJ-PR, Detran-PR, Secretaria de Segurança Pública e Celepar (Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná), o sistema da Arena está conectado à essa base digital. 

"O Atlético não tem acesso às informações das pessoas. Na verdade, o sistema informa se aquela biometria corresponde mesmo à da pessoa", diz Ronildo Finger Barbosa, coordenador de segurança do clube paranaense. Assim, se o cidadão em dívida com a Justiça tentar entrar no estádio, os dados fornecidos pela sua impressão digital vão gerar um código de erro barrando imediatamente o acesso. É quando um supervisor do clube que trabalha nas catracas é chamado e, caso confirme que se trata de impedimento por delito cometido, avisa o policiamento.

"A gente não sabe do que se trata, se é um mandado porque o cara roubou, se é traficante... Não é nossa função nos envolvermos nisso. É até melhor. Imagina se fico sabendo e falo para o supervisor: 'Olha, hoje na sua catraca vai aparecer um cara que já matou uns 15'. Vai passar mal", explica Barbosa.

Além de identificar criminosos pregressos, o sistema de segurança ajuda a solucionar novas ocorrências durante os jogos. O coordenador mostrou ao ESTADO imagens captadas pelas 130 câmeras de alta resolução espalhadas pelo estádio que flagraram um furto durante o jogo contra o Corinthians, em novembro passado. A vítima avisou que tivera sua bolsa furtada e desconfiava de um rapaz sentado atrás dela. Mostrou uma selfie tirada pouco antes, na qual o suspeito aparecia. Munida das informações do ingresso que indicavam exatamente em qual cadeira ela estava sentada, a equipe de segurança buscou imagens que flagraram a ação. Confirmado o furto, rastrearam o sujeito para saber por qual catraca ele havia entrado. Com os dados gerados pela biometria, já tinham as informações necessárias para fornecer aos órgãos competentes.

Sucesso da Arena da Baixada atrai interessados

De acordo com Barbosa, representantes de vários clubes do Brasil e do exterior já trocaram informações com o Atlético-PR sobre o sistema. Autoridades de outros Estados têm se interessado pelo modelo de parceria com o Poder Judiciário. Neste ano, membros da Federação de Futebol, do Ministério Público e da Secretaria de Segurança do Rio visitaram a Arena. Para se aplicar o modelo no Brasil, porém, há dois problemas: custo (as catracas com recursos da biometria custam R$ 30 mil cada) e dificuldade em reunir uma base digital de dados. O Paraná já deu esse passo.

Entrevista com Mário Celso Petraglia, presidente do Conselho Deliberativo do Atlético-PR

Passado quase um ano da adoção do sistema em 100% da Arena, qual avaliação o clube faz?

Temos uma filosofia de inovação, de buscarmos a quebra de paradigmas, pensar um pouco mais na frente. Quando nos ofereceram essa tecnologia, havia dificuldade muito grande por causa da quebra de cultura. Um dos pontos difíceis que estamos quebrando é a cultura da facilidade, que o futebol não é levado a sério. No futebol vale tudo, pode tudo, não pode ficar na fila, tem que entrar na hora. E ainda temos algumas barreiras que estamos buscando romper por falta de mecanismos no Brasil. Você não tem uma certificação única, não tem um cadastro único, há vários. Não há uma centralização de informações. Mas mesmo assim passamos anos estudando o assunto com uma resistência muito grande, interna principalmente.

Resistência interna que o senhor cita é em relação à torcida?

Não, não, da própria diretoria, dos próprios executivos, dos sócios. Porque isso elimina várias facilidades.

Mas quais eram as reclamações?

Primeiro, ter de vir se cadastrar. Segudo, a demora na fila. Terceiro, o direito de propriedade que era desvirtuado no Brasil com o smart (cartão utilizado pelo sócio-torcedor para comprar ingresso e entrar no estádio). Se era sócio e não ia ao jogo, emprestava para qualquer um, porque não estava personalizada ali a propriedade dele. E decidimos seguir em frente. O que me convenceu está por trás de toda essa questão da violência, que é a impunidade. É ela que gera a violência. O bandido já não vem aqui. Se ele tiver de dar nome, sobrenome e RG... Tivemos agora a torcida do Peñarol (pela Copa Sul-Americana). Quando souberam como funcionava, devolveram metade dos ingressos.

E a CBF em relação a esse assunto? Ela já procurou o Atlético para buscar informações?

Sou eu o entrevistado, mas vou devolver a pergunta. Com o que a CBF se preocupa em relação aos clubes? Nenhuma preocupação, nenhuma indagação, nenhuma visita. Mais do mesmo. (Obs: procurada, a CBF disse que não iria se manifestar).

 

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Torcida se diz segura, mas critica ingresso 'engessado'

Maioria é unânime ao aprovar biometria, mas alguns lamentam o fato de não poderem ceder entrada a amigo ou parente

Renan Cacioli, ENVIADO ESPECIAL A CURITIBA

01 Setembro 2018 | 17h00

A maioria dos torcedores abordados pela reportagem no dia do jogo contra o Vasco, quarta, quando mais de 12 mil foram ao estádio, aprova a biometria obrigatória na Arena da Baixada. Por outro lado, alguns lamentam o fato de não poderem mais ceder seus ingressos para que amigos ou parentes possam utilizá-lo caso tenham problema de última hora que inviabilize a presença.

"Esse é o único ponto negativo. Sou sócia há muito tempo e não consigo mais passar a carteirinha para outra pessoa", reclamava a turismóloga Daiana Marcos, de 37 anos. Ela admitiu, porém, que a medida era útil no sentido de coibir outro problema recorrente nos estádios e extinto dos arredores da casa atleticana: os cambistas. 

O próprio clube admite a perda de sócios-torcedores desde que a biometria passou a valer a todos. Mas aposta que o clima de segurança compense eventuais quedas de arrecadação. "Eu me sinto bem mais segura. Meus filhos tinham o hábito de ir ao Maracanã, isso aqui está perfeito", contou Silvana Aparecida Andrade, 40 anos, que recentemente trocou o Rio por Curitiba e estava acompanhada dos filhos Matheus, 11, e Bruno Costa, 7.

"Como o cadastro está interligado, dá essa sensação de que estamos mais seguros mesmo. Não vejo nenhum problema em ser revistado ou passar pela biometria", concordou o professor Rogério Luiz Zeni, de 54, ao lado da filha Mariana e de uma amiga dela, Anette, ambas de 16.

Nem todos, porém, veem tanta diferença com as novas regras. "O problema é fora e não dentro do estádio. A segurança maior é para o clube, não para nós", opinou a dentista Ana Carolina Cerci, 31, ao lado da amiga, a psicóloga Cauhana Pinheiro.

 

 

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