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Estadão
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Atos repetidos

Sem poder ir ao estádio, estamos sujeitos a escolhas feitas pelas câmeras de TV sobre o que devemos ver em um jogo

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 21h00

Acho que ainda não estamos acostumados ao futebol da pandemia. Ainda fazemos gestos e temos sensações que pertencem à época antiga, ao futebol que conhecemos e acompanhamos por longos anos. De repente, alguém nos informa que vão jogar, por exemplo, Fluminense e Palmeiras. A primeira reação é perguntar: aqui ou no Rio? Pois bem, esse é o tipo de pergunta que não devemos fazer mais. De fato, aqui ou lá, é exatamente a mesma coisa: estádio vazio, que tira o principal fator que fazia do local uma coisa determinante para o resultado.

Mesmo os jornalistas não se acostumam a isso. Ouvi, por exemplo, que a torcida do Galo merecia estar lá vendo a virada de seu time sobre o Corinthians. É claro que a torcida do Galo viu o jogo pela TV e vibrou. O que o jornalista quis dizer é que há uma maneira nobre, privilegiada de ver um jogo, que é no estádio. Ver na TV, por mais que o jogo tenha sido empolgante, não é o mesmo que ser visto pelo público no campo.

Somos frequentemente traídos pela antiga concepção de que jogos de futebol pressupõem assistência de corpo presente. O jogo, como ele é visto hoje, é apenas um registro, um documento, uma notícia. Jogo visto pela televisão não é o verdadeiro jogo, porque o espectador não escolhe o que olhar. A televisão, como de resto o cinema, reserva ao espectador uma região do cenário, vale dizer do campo, que o diretor de TV, que é quem determina os movimentos das câmeras, resolveu nos mostrar.

O que se vê na TV é apenas o que o diretor das câmeras selecionou, talvez aquilo que mais goste, talvez aquilo que julgue importante. Mas é ele quem julga, não nós, como fazemos no campo, onde podemos olhar e prestar atenção ao que quisermos. Se um time está todo no ataque, pressionando, você pode dirigir seu olhar para o solitário e desocupado goleiro desse time que ataca. É seu direito olhar para onde quiser, fazer sua escolha, mesmo que seja o contrário da maioria dos outros espectadores no estádio.

É permitido a você a liberdade do olhar. Vi no jogo Atlético e Corinthians a câmera, ou alguém que a dirigia, encantado com alguns movimentos de Jorge Sampaoli. Não havia nada de encantador nos passinhos apressados que ele dava de um lado para outro, incessantemente. Para mim, não tinha interesse a coreografia do argentino. Mas o diretor de TV via algo de atraente naqueles gestos, pois me fez ficar vendo aquilo por um tempão.

Enquanto isso, o jogo corria invisível para mim. O fato é que me obrigam a aceitar imagens escolhidas por outro. Nisso não há critica alguma ao diretor de TV que me ofereceu os passinhos nervosos de Sampaoli durante um tempo maior que o tolerável. Alguém teria que escolher o que se deve ver de um jogo.

Talvez esse diretor de Atlético e Corinthians seja excelente profissional, que ficaria perplexo com minhas observações sobre seu trabalho. E teria razão. As câmeras não servem para o futebol. Servem para o cinema, onde vamos para ver precisamente o contrário: a habilidade de quem coloca a câmera e enquadra a cena, isto é, o talento do diretor.

Nosso olhar se acostumou a esse modo de ver. Desde crianças nos habituamos a ver filmes feitos desse jeito. O espectador normal sequer se dá conta que está vendo na tela apenas o que é conduzido a ver, um fragmento da verdade que o diretor do filme quer mostrar.

 

No futebol nos acostumamos à amplidão do campo e às imensas possibilidades do olhar, de selecionar, criar imagens próprias. Um fato que muitas vezes acontece nas arquibancadas pode nos fazer esquecer o jogo. O torcedor no campo vê o seu jogo, um jogo especial, feito só para ele, feito, no fundo, por ele. Por isso, vai ser duro aceitar esse novo futebol. Talvez chegue o dia em que, como no cinema, vamos começar a admirar os hoje anônimos diretores de TV, que escolhem o jogo que devemos ver.

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