Nilton Fukuda/Estadão
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Interesse pelo futebol está subindo, mas ainda falta recuperar a paixão do torcedor

Modalidade recupera terreno, mas terá de oferecer muito mais em campo, sobretudo no Brasil

Robson Morelli, O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2020 | 05h00

No dia em que Fabrício Queiroz foi encontrado numa casa em Atibaia e o ministro da Educação Abraham Weintraub se despediu do governo, a notícia mais lida em alguns sites grandes de notícia era sobre a nota da Globo informando que não transmitiria o jogo do Flamengo com o Bangu naquele mesmo dia, que reabriria de forma oficial o futebol na pandemia. Nos fins de semana, os buscadores de notícias apontam o esporte de modo geral, e o futebol particularmente, como o assunto mais procurado.

De certa forma, depois de mais de 100 dias paralisado no Brasil, o futebol recupera seu espaço e desperta de volta e aos poucos o interesse do torcedor. A paixão, inegavelmente, esfriou, apesar da falta que uma partida de futebol faz nos seus seguidores, sejam eles homens, mulheres ou crianças.

Não é somente pelo dinheiro, apesar de os clubes estarem com o pires na mão. É paixão também. Mas não só.

O futebol nos alivia, desde os jogos oficiais até as peladas. Gostamos de jogar e de ver jogar. Um gol nos prende a atenção em qualquer situação. As TVs, abertas e fechadas, buscaram nas partidas do passado, em confrontos memoráveis, uma opção de programação que depois se constatou de ótima audiência. O futebol fez falta nos últimos três meses. Jogadores profissionais de todas as partes admitiram isso de boca cheia. No Brasil, e no mundo, houve uma pressão grande para sua volta.

Na Europa, ele voltou de caso pensado, com a doença mais controlada, plano de voo e tempo de preparação. No Brasil, o futebol retornou à revelia, como quase tudo neste País, com os casos de contaminação pela covid-19 subindo e batendo recordes, sem medidas unificadas, sem um ministro da saúde, com o governo pregando o uso da cloroquina, na contramão de tudo, e com cada Estado desenhando suas próprias regras. Vai ter futebol. Não vai ter futebol. Foi assim no Rio.

Nem mesmo essa bagunça administrativa, que não é de hoje, faz o brasileiro abrir mão da modalidade. O futebol está voltando e com ele seu interesse. O público ainda está fora desse jogo. Mas na Alemanha, primeiro país europeu a colocar seus jogadores em campo, já se pensa em formas de abrir os portões dos estádios na próxima temporada, em agosto ou setembro, desde que tudo seja regulamentado. A tecnologia será importante nisso, com câmaras térmicas, monitoramente das pessoas, uso de máscaras, distanciamento nos assentos e comportamento menos expansivo após os gols.

Ocorre que o futebol não será mais o mesmo. Nem aqui nem na Europa. Os clubes terão de oferecer mais do que vinham oferecendo. Com o temor de se juntar nos estádios enquanto uma vacina para o coronavírus não for desenvolvida, o torcedor vai se manter em casa. Na TV, somente o bom futebol chamará a atenção. Somente os bons jogadores serão capazes de atrair o interesse das pessoas. O Brasil então vai sofrer duplamente com isso. Primeiramente, porque não tem mais atletas diferenciados, capazes de lotar estádios. Depois, porque terá de vender os melhorzinhos do elenco para fazer dinheiro.

A TV não vai pagar o que vinha pagando aos clubes pelos direitos de transmissão, porque, dentre outras coisas, não vê mais tanta qualidade no produto. O futebol brasileiro perdeu valor porque os times são ruins, salvo alguns, como o Flamengo. Não vejo nenhum outro no mesmo patamar. Nem Palmeiras nem Grêmio nem São Paulo. Nenhum.

Nas últimas temporadas, o torcedor tem tido boa vontade com sua equipe e os jogadores dela. Mas a verdade, dura, é que o nível em campo é baixo. Só não vê quem não quer. A pandemia nos mostrou algumas realidades. Uma delas diz respeito à qualidade dos produtos que consumimos e quanto pagamos por eles.

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