Patrick B. Kraemer/EFE
Patrick B. Kraemer/EFE

Ausência de Del Nero na Fifa pode resultar em perda de vaga na Copa

Presidente da Conmebol admite revés para sul-americanos

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2015 | 13h01

A decisão de Marco Polo Del Nero de deixar a reunião da Fifa pode ter uma consequência imediata para o futebol sul-americano: a perda de uma vaga para a Copa de 2018, na Rússia, e 2022, no Catar. Juan Napout, presidente da Conmebol, indicou que "entende a ausência" de Del Nero. Mas admitiu que terá "um voto a menos" na decisão neste sábado. 

Del Nero é um dos 25 membros do Comitê Executivo da Fifa e um dos três representantes da Conmebol no organismo que seria "o governo da Fifa". Neste sábado, porém, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, convocou uma reunião extraordinária do Comitê para decidir quantos lugares cada continente terá nas próximas Copa. Sem o voto de Del Nero, que não pode ser substituído pelas regras, a Conmebol fica enfraquecida. 

Os sul-americanos tem quatro vagas garantidas para a Copa e uma quinta vaga passa por uma repescagem. Mas a pressão é para que essa meia vaga seja transferida a outro continente. A redução ainda ocorreria no momento de maior rivalidade entre as seleções sul-americanas, com o fortalecimento do futebol da Colômbia, Chile e outros. Antes de ser detido, em entrevista ao Estado, José Maria Marin indicou que o Brasil teria "sérios problemas" para se classificar para o Mundial de 2018. 

Napout admitiu que a perda da vaga é "uma chance real" e que vai lutar para manter uma repescagem. "Queremos jogar, seja com quem for", disse. Os sul-americanos não esconderam hoje a decepção com Blatter diante de sua atitude de não sair ao apoio de dos cartolas Eugênio Figueredo e José Maria Marin, presos nesta semana.  

A disputa pelas vagas passou a fazer parte da campanha eleitoral e Blatter colocou a reunião para sábado justamente para poder barganhar apoio para sua eleição. "Ele está jogando com isso", declarou Michel Platini, presidente da Uefa. O francês insistiu que não vai aceitar ter menos de 14 lugares para as seleções europeias em 2018, incluindo Rússia, e 13 em Catar. "Poderíamos pedir mais vagas. Mas não faremos", disse Platini. 

Mas a pressão sobre os sul-americanos não vem apenas da Uefa. Outros continentes insistem que, se de fato o evento é global, não seria equilibrado manter um sistema em que quase metade dos sul-americanos vão ao Mundial. Blatter, em buscas de votos para sua reeleição, declarou diante dos países da Concacaf (América do Norte e Central) que a região deveria passar de três vagas e meia para quatro. "Se a Copa ficar com 32 times, defendo que a Concacaf tenha quatro lugares", declarou o cartola.

Em 2014, a Concacaf mandou quatro seleções para o Brasil, mas apenas graças a uma vitória do México na repescagem contra a Nova Zelândia.

Grupos, como o da Oceania com onze seleções, deixaram claro a Blatter que vão apoiá-lo se conseguirem pela primeira vez uma vaga automática no Mundial. Os asiáticos também se queixam de estar sub-representados. Com 47 membros, eles têm o mesmo número de vagas que os sul-americanos, com apenas dez seleções na região. Se o desempenho em campo foi decepcionante para os asiáticos em 2014, o bloco tem a economia que mais cresce no mundo e é considerado como a nova fronteira dos negócios do futebol.

Se por anos a Fifa contou com um peso grande de sul-americanos no controle da entidade, a realidade é que Blatter praticamente não precisa prestar contas à região. Havelange deixou de ser influente desde que perdeu o cargo de presidente de honra da Fifa por seus escândalos de corrupção. O argentino Grondona, que era quem mandava nos cofres da entidade, morreu no ano passado. Já Ricardo Teixeira foi afastado.

O ex-presidente da Conmebol, Eugênio Figueredo, foi preso esta semana, assim como José Maria Marin. Já Del Nero abandonou a reunião. 

A atitude de Blatter de sair em busca de votos usando o Mundial foi duramente criticada por seus adversários. "Minha preocupação é a de que essa decisão de vagas seja usada por razões políticas ao se fazer promessas que podem não ocorrer", alertou Ali bin Al Hussein, atual vice-presidente da Fifa e que concorria contra Blatter nas eleições.

 

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