Auxiliar pontual, Mauro Silva elogia Dunga na seleção

Campeão mundial em 1994, Mauro Silva estava tocando sua vida de empresário do ramo imobiliário quando recebeu o chamado do treinador Dunga e do coordenador Gilmar Rinaldi para atuar como assistente técnico pontual da seleção brasileira neste início do processo de reconstrução. Companheiro da dupla na campanha do tetra, ele deixou seus afazeres temporariamente de lado para colaborar.

ALMIR LEITE, Estadão Conteúdo

15 Setembro 2014 | 08h05

Esteve presente nos amistosos com Colômbia e Equador e vai elaborar um relatório sobre o que viu, além de dar sugestões para o aprimoramento do trabalho. Em duas ocasiões, antes e depois dos jogos nos Estados Unidos, Mauro Silva conversou com a reportagem. Falou pouco sobre suas observações, mas muito sobre o que pensa do e para o futebol brasileiro, dentro e fora do campo.

Agência Estado - Qual é a sua avaliação desses dias de trabalho com a seleção?

Mauro Silva - Foram dias intensos, de muito trabalho, numa fase importante para reconquistar a autoestima do grupo. Conversei com os jogadores, em grupo e individualmente. Procurei transmitir a eles minha experiência, minha vivência, e falar sobre como superamos momentos difíceis.

AE - O que você concluiu, o que vai sugerir para a comissão técnica?

Mauro Silva - Não posso dar detalhes. Mas vi coisas interessantes e darei sugestões. Vou elaborar um relatório e entregar ao Gilmar.

AE - Teve alguma participação no episódio do corte do Maicon?

Mauro Silva - O que posso dizer é que conversamos sobre todos aspectos.

AE - Acha tem o Dunga pode fazer um trabalho consistente?

Mauro Silva - Dunga já demonstrou na seleção (na primeira passagem pelo cargo, entre 2006 e 2010) que pode fazer um grande trabalho. Ele sabe aprender, sabe ouvir. E, além disso, pode ser uma referência, um espelho, para os jogadores, porque essa derrota de 7 a 1 (para a Alemanha, na semifinal da Copa) dói bastante e é uma marca dura para o jogador que participou dessa Copa. Eles têm no Dunga o exemplo do jogador que sofreu muito na Copa de 90, foi criticado, ficou rotulado e saiu de uma situação assim para ser o capitão do tetra em 94. Soube dar a volta por cima.

AE - Como você analisa o atual momento do futebol brasileiro?

Mauro Silva - O momento é difícil, mas não é tão grave como pode dar a impressão aqueles 7 a 1. Claro que a gente sempre pode melhorar, e deve. É importante ter o diagnóstico sobre nossos pontos fortes, o que fazemos bem, o que não fazemos, onde temos margem para melhorar.

AE - Onde temos de melhorar?

Mauro Silva - A questão do planejamento, da organização, da disciplina. É uma questão que não está só no futebol. Está relacionada à cultura do brasileiro. A gente tem um potencial gigante e poderia ter uma seleção fortíssima, revelar muitos jogadores. Mas precisa rever certas coisas para isso.

AE - Como vê o projeto da Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte?

Mauro Silva - O dirigente não pode endividar um clube, contratar vários jogadores, passar essa dívida para a frente. O dirigente tem de responder pela gestão, não tem a menor dúvida. Isso é básico na sociedade: cometo um erro, tenho de assumir as consequências desse erro.

AE - Você falou em melhorar o planejamento. Dê um exemplo de falhas nessa questão.

Mauro Silva - A situação dos técnicos. Eu sou dirigente, tenho planejamento a médio e longo prazos. Se o técnico hoje, na minha concepção, é válido para o meu projeto, não é possível que daqui um mês não seja mais (válido). Os técnicos trabalham com a faca no pescoço. Perdem dois jogos e são mandados embora. Como é que o cara faz um projeto de longo prazo? Como vai ter um esquema tático mais ousado?

AE - A formação de jogadores também está prejudicada.

Mauro Silva - A questão é: por que nós não conseguimos fortalecer a base e formar mais jogadores como antes? Pelo contrário, a base hoje está em situação muito difícil. Acho que temos de rever tudo isso para a gente tirar o máximo proveito. A boa gestão é importante, senão acaba atrapalhando todo o nosso futebol. Os jogadores veem um mercado mais organizado, mais interessante, na Europa, e querem ir embora. Querem ir cada vez mais jovens.

AE - Isso atrapalha a formação?

Mauro Silva - Quando fui para a Espanha tinha 24 anos e acho que uns 30 jogos na seleção. Numa situação dessas, você está preparado. Está formado técnica, tática e emocionalmente. Quando o jogador vai com 17, 18 anos... Temos casos de sucesso, mas muitos de insucesso.

AE - Por que esse insucesso?

Mauro Silva - O jogador não está maduro para dar o passo. Mas acha que vai ganhar mais dinheiro, encontrar o futebol mais organizado. Acaba que a formação dele lá fora não é tão boa, o jogador não consegue atingir o ápice de seu potencial e isso prejudica a todos. Acaba prejudicando a seleção brasileira na ponta final.

AE - Qual seria a melhor solução?

Mauro Silva - O jogador poderia ir para a Europa um pouquinho mais tarde, ter passagem maior pelo futebol brasileiro e sair daqui mais bem qualificado, melhor preparado, com mais chances de fazer sucesso. Seria bom para o futebol brasileiro se conseguisse formar um pouco melhor os jogadores antes de eles darem esse salto.

AE - A formação é deficiente?

Mauro Silva - Sim. Às vezes, na base também tem uma demanda grande por resultado, por ganhar. É preciso definir o que se quer na base. A gente quer ganhar ou formar jogadores? Se quer cuidar do aspecto técnico, tático, lapidar e ter esse carinho com os jogadores. A base depois chega na seleção, afeta o nível do Campeonato Brasileiro, afeta tudo. É preciso ter um projeto esportivo na base para formar jogadores para o time principal.

AE - Está faltando craque?

Mauro Silva - Não é que falte. É que no passado nós tínhamos mais jogadores determinantes do que temos hoje. Mas é também uma questão cíclica. Em 1994, por exemplo, no ataque a gente tinha Romário, Bebeto, Viola, Muller e Ronaldo. Cinco atacantes. E o Evair não foi. Nesse ano, na Copa, no aspecto ofensivo nós não tínhamos tantas opções como em outros anos.

AE - A preparação do Brasil para a Copa foi muito falha?

Mauro Silva - Eu não vou por esse lado. Para mim, o que pesou muito foi o emocional, o time sentiu demais. Ganhar uma Copa é extremamente difícil. Eu não vi em nenhum momento o time jogando tranquilo. E acho também que, com a melhor das intenções, o Parreira e o Felipão deram aquelas declarações (de que o Brasil seria campeão) e os jogadores sentiram mais pressão. O efeito foi ao contrário.

AE - Taticamente o futebol brasileiro está atrasado?

Mauro Silva - Não diria que está atrasado e, sim, que aqui a gente tem menos intercâmbio de informações, de conhecimento, do que na Europa. E há outro aspecto: joguei 13 anos e tive quatro técnicos. Se fosse aqui, teria 50. Mas não tive grande diferença tática em relação ao que tinha aqui.

AE - No ano passado, você fez duras críticas à maneira como a cúpula da CBF tratava a seleção. Mudou alguma coisa?

Mauro Silva - Estive na CBF faz poucos dias, vi muita coisa que mudou, melhorou. Não vou dizer que está perfeito. Mas conversei com muitas pessoas de dentro da direção e me deixaram à vontade para eu falar o que acho.

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