Baixo nível dos jogos do Brasileiro preocupa a TV Globo

Baixo nível dos jogos do Brasileiro preocupa a TV Globo

Emissora convocou dirigentes para série de reuniões a fim de tentar buscar soluções para voltar a atrair a atenção do público

Mateus Silva Alves e Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2014 | 17h00

Maior financiadora do futebol brasileiro, a Rede Globo distribuiu no ano passado aos 20 clubes da Série A mais de R$ 1 bilhão. Mas, insatisfeita com o nível das partidas e preocupada com a queda de audiência, a emissora convocou os dirigentes para uma série de reuniões a fim de tentar buscar soluções para voltar a atrair a atenção do público.

A qualidade das partidas passou a ser alvo de muitas críticas principalmente depois da Copa do Mundo. Em dez anos, o futebol perdeu quase dez pontos no Ibope (cada ponto representa 65 mil domicílios na Grande São Paulo). Se em 2004 uma partida atingia 25 pontos, agora a média está em 16. Se a audiência continuar caindo, a emissora ameaça diminuir os valores das cotas de transmissão repassadas aos clubes. No ano passado, o Flamengo, com R$ 110,9 milhões apareceu no topo da lista, seguido pelo Corinthians, com R$ 102,5 milhões.

Os clubes fora do eixo Rio-São Paulo querem rediscutir os valores e pedem que emissora não privilegie apenas os times que garantem maior audiência. O temor é que as equipes menores, sem dinheiro, deixem de revelar bons jogadores.

 

Análise de Paulo Roberto Falcão, treinador, comentarista de TV e ex-jogador

'Futebol brasileiro precisa cuidar da base'

De modo geral, o que nós vemos hoje em dia no Brasil é um futebol de mais marcação, mais correria, mas isso já faz tempo, não é uma coisa nova. E isso em qualquer categoria, pode ser sub-15, sub-17 ou sub-20. É uma crise técnica o que nós estamos vivendo.

Não existe apenas uma explicação para essa crise, pois se houvesse seria bem mais fácil resolver o problema. Acredito que o mais importante é trabalhar um pouco melhor a nossa base. Um dos maiores problemas é que o treinador da base também tem o sonho de ir para o time profissional, então acaba priorizando os jogadores mais fortes fisicamente, mesmo que eles não tenham muita técnica. Isso porque, naquele momento, o jogador mais forte pode dar um resultado imediato para esse treinador. É preciso buscar educadores da parte técnica e também da parte tática para a base. O fundamental é dar prioridade aos meninos com qualidade, e não buscar resultados rápidos.

O fato de os jogos no Brasil serem muito parados, muito truncados, também é consequência de uma crise na arbitragem brasileira. Antigamente existia aquela desculpa de que os gramados eram ruins, mas isso mudou, agora nós temos bons gramados, o que é muito legal.

Uma coisa de que eu sinto falta no nosso futebol é que os times tenham pelo menos três ou quatro jogadores excelentes em seus elencos. Como eles não têm, quando aparece um garoto um pouquinho diferente ele já é rotulado de craque. Aí o treinador fica em uma sinuca de bico porque, mesmo sabendo que o garoto ainda não está pronto, ele precisa escalá-lo. Se não escalar e o time perder a partida, vão dizer que perdeu porque o menino não foi escalado.

É uma situação muito séria essa que vivemos, e eu repito que o problema mais preocupante é a falta de qualidade na nossa base. Muitos chegam à seleção brasileira, que é o auge para qualquer jogador, e têm dificuldades para cabecear ou chutar. As diretorias dos clubes precisam dar um outro caminho para as divisões de base, priorizando a qualidade, não os resultados. E também é preciso educar os meninos taticamente. Eles precisam aprender que tem lugar do campo em que não dá para prender a bola e tem lugar em que dá, assim como tem lugar em que é preciso tocar de primeira. É necessário educar os garotos.

O que nós mais precisamos saber neste momento é: como vamos acabar com essa crise? Quem são as pessoas preparadas para isso? Eu deixo essas perguntas no ar. Todos estão notando agora que não somos mais os melhores do mundo, e isso já há algum tempo. Somos um povo maravilhoso em diversos aspectos, mas a verdade é que no futebol nós somos muito arrogantes. Quando tomamos de sete, caiu a ficha.

Às vezes é bom tomarmos uma pancada para percebermos a realidade. Precisamos aprender com os fatos, E não esquecer os fatos.

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