Bancada da bola tenta mudar relatório

O relator da CPI da CBF/Nike, deputado Silvio Torres (PSDB-SP), não sabia a confusão em que iria se meter ao incluir no relatório que será lido hoje, às 16 horas, denúncias contra a administração de Ricardo Teixeira na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e contra a empresa Pelé Sport, pertencente ao ex-jogador e a seu sócio Hélio Viana. Mesmo sem conhecer o relatório de Torres, a tropa de choque formada por deputados ligados a dirigentes e clubes decidiu antecipadamente que vai modificá-lo. Significa na prática que uma investigação devidamente documentada, que durou oito meses, perdeu o jogo para um dos mais poderoso lobbies montado no Congresso.O troco do presidente da comissão, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), é igualmente curioso: ele anunciou que não vai permitir a votação de um relatório mutilado. Ou seja, a CPI terminará sem dispor de um relatório oficial, devidamente registrado pela Câmara dos Deputados. Rebelo disse que o fato não impedirá o envio das denúncias ao Ministério Público, ao qual compete responsabilizar os culpados por irregularidades na Justiça. "Podemos ficar sem o relatório, mas não com o relatório deles", afirmou. "Seria uma traição deixar que outros interesses atropelem um trabalho feito na maior seriedade". Para o deputado, mais importante é o "efeito moral" que o documento irá causar.Informações desencontradas de seu gabinetes deixaram claro que Silvio Torres não queria ser encontrado. Não se sabe se o recolhimento era para fugir do assédio da bancada da bola, cujos deputados o procuravam por toda a Câmara, ou para terminar de preparar o relatório que não deve apresentar novidades. Torres aponta suspeita de sonegação na Pelé Sport e uma série de fatos suspeitos que condenam os a administração de Ricardo Teixeira na CBF. Ele sugere ao Ministério Público que proponha o indiciamento de Teixeira por crimes contra a ordem tributária.O presidente do Vasco da Gama, deputado Eurico Miranda (PPB-RJ), que chegou a ser acusado pelo ex-membro da CPI, deputado Geraldo Magela (PT-DF), de desviar recursos do clube, não foi citado por Torres.Eurico antecipou que vai rejeitar todas as denúncias relacionadas a crimes contra a ordem tributária que, na sua opinião, deveriam ser investigadas unicamente pela Receita Federal. "Cada macaco no seu galho", argumentou. Já o deputado José Lourenço (PMDB-BA), disse que seu voto será contrário a tudo o que indiretamente possa atingir o nome de Pelé. "Ele é um nome emblemático para o País", alegou. O primeiro vice-presidente da CPI, deputado Nelo Rodolfo (PMDB-SP), acusou Silvio Torres de ter feito o relatório a sós, sem ouvir os demais integrantes da comissão. Segundo ele, o resultado desse procedimento - que, aliás, é o que ocorre em todas as investigações parlamentares - vai obrigar a ele e a seus colegas a mexerem no texto antes de votá-lo.

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