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Antero Greco
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Bandeiras de moralidade

No futebol, como na vida cotidiana, o que é ilegal para os "outros" é normal para "nós"

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2018 | 04h00

A campanha eleitoral recém-encerrada escancarou a baixaria da busca por poder, com acusações, moralismos e promessas de praxe, embora com tons de agressividade acima do habitual. A novidade foi o uso de redes sociais como poderoso meio de convencimento; abusou-se das fake news, o termo da moda para a velha lorota, a mentira, a conversa fiada. O que era deformação no inimigo virou virtude para vencedores. Em resumo: buscou-se vitória a qualquer preço.

O que tem a ver o parágrafo inicial com futebol, objeto corriqueiro deste espaço? Tudo. O esporte é retrato da vida cotidiana – e só nesta semana vimos episódios em que a desfaçatez e a cara de pau driblaram a ética, o fair play (dentro e fora de campo), como caminho para o sucesso. Com dirigentes, torcedores, e até imprensa, a respaldarem as falcatruas, desde que beneficiem as cores locais. Uma esculhambação, a provar como é maleável, para muitos, o conceito de honestidade.

O caso mais emblemático teve como protagonista Marcelo Gallardo, do River Plate. O técnico estava suspenso e teve de assistir das tribunas ao jogo com o Grêmio, pela semifinal da Libertadores. Pelo regulamento da Conmebol (e Fifa), não poderia comunicar-se com auxiliares nem com atletas. No entanto, o tempo todo usou um rádio pra falar com banco de reservas. Além disso, no intervalo foi aos vestiários, na arena gaúcha, orientar a tropa.

Não só não escondeu a atitude ilícita como admitiu, candidamente, que sabia do erro, mas era impossível “abandonar o grupo” num momento delicado como aquele. Várias vezes assumiu a culpa, como se tudo fora motivado por impulso incontrolável e ingênuo. Balela. Teve no mínimo a sensação de impunidade, diante da frouxidão das normas futebolísticas deste lado do Atlântico. Apostou que não iria dar em nada de mais grave contra ele e principalmente contra o clube. E acertou...

O Grêmio agiu de maneira correta ao protestar na Conmebol. O gesto de Gallardo foi um tapa na cara do público, dos rivais, da entidade dona da bola sul-americana. Uma grosseria, para usar termo educado, pois esta coluna é lida por gente de família. O tricolor tratou de brigar por seus direitos.

Mas nada como um dia após o outro. Um ano atrás, um espião atrapalhado, supostamente a soldo gremista, foi flagrado a usar de drone para espiar treinos de time argentino antes da decisão da Libertadores, afinal vencida pelos brasileiros. Na época, houve chiadeira, desmentidos e até ironia da turma do Imortal. O técnico Renato Gaúcho disse, na ocasião, que o mundo era dos espertos... Escrúpulos são adaptáveis?

Por coincidência, e nada além disso, outro nome famoso que vem do Sul, apareceu no noticiário enrascado com a Justiça. Ronaldinho Gaúcho emprestou prestígio à candidatura vencedora na corrida pela Presidência do Brasil, mas na sexta-feira viu expedida ordem para apreensão do passaporte dele e do irmão e empresário (Assis) por parte de um juiz de Porto Alegre. A dupla tem dívida de R$ 8,5 milhões de multas por crime ambiental. 

E na Europa, vista como modelo de administração das agremiações, poderosas multinacionais da bola? Por lá também rolam histórias mal contadas. A mais recente, revelada pelo site Football Leaks e reproduzida por jornais do continente, acusa Fifa e Uefa (por meio de Gianni Infantino e Michel Platini) de fazerem vistas grossas para gastos excessivos de Paris Saint-Germain e Manchester City em contratações, o que fere regras do fair play financeiro. Os clubes estão ligados a bilionários do Catar e dos Emirados Árabes. 

Isso fora as maracutaias do varejo, como pênaltis mandrakes, simulação de contusão, "chegar junto", cera, gatos na idade de atletas. Na hora H, aparece um monte de beatos a empunhar bandeiras da moralidade.

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