Bar da Moóca homenageia ex-jogadores

Foi difícil convencer a mulher de que iria ao Bar do Elídio em plena segunda-feira à noite para ver uma homenagem a um jogador de futebol. Mas uma hora antes de começar o evento o analista de custo aposentado Pedro Lewczuk, de 54 anos, era o primeiro de uma fila de torcedores à espera de José Macia, o Pepe, o Canhão da Vila, que formou com Pelé, Dorval, Coutinho e Mengálvio o temido e campeão ataque do Santos dos anos 60. Lewczuk, sãopaulino roxo, mal podia esperar a chegada do ídolo. "É muito bonito ver que ainda hoje as pessoas se importam com aquele futebol clássico, jogado nos anos 60", comentou. Pepe foi o terceiro homenageado de um evento organizado pelo dono do bar, Elídio Raimondi. Chama-se Tributo aos Craques do Passado e ocorre na última segunda-feira do mês. Oberdan Catani, goleiro do Palmeiras nos anos 40 e 50, e Carbone, ídolo do Corinthians nos anos 50, inauguraram a galeria que traz, terça-feira, Ademir da Guia. "Antecipei o evento porque a agenda do Ademir está lotada", justifica Elídio. Segunda-feira passada, 29 de julho, Pepe foi a grande estrela. Chegou à Rua Isabel Dias, num recanto da Moóca, para receber a homenagem sem saber direito o que aconteceria. "Achei maravilhosa a iniciativa e aceitei na hora. A gente precisa desfrutar da melhor forma essas oportunidades tão raras hoje em dia", disse, acompanhado da mulher, Lélia, e do filho, Rafael. Pepe viu no Bar do Elídio imagens que ajudaram os cronistas a desenhar sua trajetória no futebol. De algumas, nem se lembrava mais. Uma das características mais marcantes do bar, inaugurado há 26 anos, são os quadros com fotos de craques e de jogos, além de camisas antigas de times do mundo todo. Numa dessas, o famoso Canhão da Vila encontrou um elenco bastante conhecido dos boleiros: Gilmar, Ismael e Mauro; Lima, Haroldo e Dalmo; Dorval, Mengalvio, Coutinho, Almir e Pepe. Os olhos pararam na imagem. "Nem sabia que alguém ainda tinha essa foto", comentou boquiaberto. Atrás dele, no salão do bar, só faltaram Pelé e Coutinho para completar o imbatível ataque santista: Dorval e Mengalvio também foram homenageados. Lalá, Negreiros, Maneco e Tite, companheiros do Santos em épocas diferentes, também fizeram parte do tributo. Hino - No salão superior, mesas lotadas à espera dos craques. Bandeiras do Brasil, de São Paulo e do Santos formavam o cenário que recepcionou os ex-jogadores. Pepe, ao centro de uma mesa reservada apenas aos homenageados, entoou o hino do Santos como se estivesse lembrando os anos de ouro. "Era uma época que o amor pela camisa valia mais que dinheiro." As palavras de Pepe eram aguardadas por torcedores de 20 a 80 anos, que colocam o futebol acima do amor pelo time. "Sofri muito na infância vendo o Pepe jogar contra o meu time", disse o sãopaulino Valdir Humar, de 53 anos, que foi ver a homenagem com amigos. "Ele é o jogador que eu mais quis ver no Corinthians. Foi nosso carrasco", comentou o corintiano Américo Castanho, de 62 anos. Foi uma noite cheia de personagens, como o locutor Nicanor Ribeiro, de 48 anos, que arrastou olhares por conta da semelhança com Pelé. "Tinha certeza que era algum irmão dele", disse o motorista Rafael Lima. Ribeiro não tem nenhum parentesco com o jogador e só se deu conta da semelhança há 6 anos. "Um garoto chegou a perder a fala quando me viu na rua." Virada - Depois de afirmar que foi a homenagem mais especial que recebeu, Pepe falou de um jogo inesquecível, que não valia título, mas simbolizou a garra dos atletas daquela época. "Foi um 7 a 6 de virada sobre o Palmeiras, num jogo maravilhoso pelo extinto Torneio Roberto Gomes Pedrosa, em 58, no Pacaembu", recordou. Faltando 10 minutos para acabar a partida, com o Palmeiras ganhando por 6 a 5, numa reação que não era surpresa para quem estava acostumado às goleadas e jogadas geniais daquele time, o Santos virou. "Marquei três gols naquele jogo" comentou Pepe. "É essa magia, perdida nos anos pelos mais jovens, que este evento está conseguindo trazer", disse Tite, ídolo do Santos de 50 a 64. Foi Tite também que encerrou o evento. Ele aproveitou para lançar o livro, Futebol x Música, Minha História e Seus Detalhes. No violão, o craque também quis homenagear os colegas. Tocou Eu Sei Que Vou Te Amar e arrancou mais aplausos. A festa era, enfim, a comemoração de mais um título.

Agencia Estado,

03 Agosto 2002 | 16h21

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