Pau BARRENA / AFP
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Barcelona gastou e entrou em crise. Será que agora pode gastar para sair dela? Entenda

Clube espanhol tenta contornar graves problemas financeiros, cuja dívida é de quase R$ 7 bilhões, com uma engenharia apontada por críticos como arriscada: gastar mais

Tariq Panja, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2022 | 15h00
Atualizado 05 de agosto de 2022 | 15h32

Era difícil ignorar o sorriso de Joan Laporta, presidente do Barcelona. Olhando para baixo desde um enorme outdoor digital, a imagem sorridente do Laporta cobria quase um lado inteiro do Palms Casino Resort, em Las Vegas, EUA. O outdoor passava outras imagens – uma de alguns jogadores do Barça e outra de seu técnico, Xavi – mas logo voltava para Laporta.

E essa visão, um presidente radiante na frente e no centro da capital mundial da jogatina, talvez seja o melhor simbolismo da bagunça financeira em que o Barcelona se encontra nos dias de hoje – e da infinda confiança do homem que diz ter um plano para resolver tudo. O Barça, no verdadeiro estilo de Las Vegas, está dobrando a aposta.

Um time que há menos de um ano não conseguia bancar sua enorme folha de pagamento; um negócio que, com perdas de 487 milhões de euros (R$ 2,6 bilhões) no ano passado, foi descrito por seu próprio CEO como “tecnicamente falido”; um clube que atualmente está sobrecarregado com dívidas de mais de US $ 1,3 bilhão (R$ 6,8 bilhões). Apesar de tudo isso, o Barcelona decidiu que a melhor maneira de sair de uma crise causada por erros financeiros, altos salários e contratos extravagantes é gastar ainda mais.

O clube vendeu vários ativos para levantar cerca de US$ 700 milhões e ajudar a equilibrar as contas. Mas está avançando um projeto de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,8 bilhões), com financiamento arranjado pelo Goldman Sachs, para reformar e modernizar seu icônico estádio, Camp Nou, que, devido à pressa em arrecadar fundos, pela primeira vez levará o nome de um patrocinador. E neste verão europeu pagou mais dinheiro em novas contratações do que quase qualquer outro grande time do continente, com uma nova aquisição chamativa anunciada com grande fanfarra quase toda semana.

Os gastos desenfreados surpreenderem os rivais do Barcelona e preocupações entre alguns de seus 150 mil sócios a respeito da viabilidade financeira do clube caso a grande aposta de Laporta não dê certo. Mas, em uma entrevista na sede do The New York Times em Manhattan, o presidente ofereceu repetidas garantias de que sabe exatamente o que está fazendo. “Não sou um apostador barato”, declarou Laporta. “Só corro riscos calculados”.

O risco, no entanto, virou uma constante no Barcelona. Laporta foi eleito presidente do clube pela segunda vez no ano passado, depois que seu antecessor e a diretoria anterior foram depostos pelo colapso financeiro e esportivo de um dos maiores times do mundo. Enquanto muitos esperavam que o Barcelona se reconstruísse lentamente, vivendo dentro de suas possibilidades orçamentárias durante um período de austeridade humilhante, Laporta decidiu guiar o Barcelona em um curso completamente diferente. Ele diz que não tem escolha a não ser tentar ser campeão todos os anos. “É uma exigência”, disse ele.

Mais de US$ 700 milhões (R$ 3,6 bilhões) foram arrecadados com a venda de partes dos negócios do clube. Vinte e cinco por cento dos direitos televisivos domésticos do clube – por 25 anos – foram para um fundo de investimento dos Estados Unidos. O serviço de streaming de música Spotify assinou um contrato de quatro anos para colocar seu nome no Camp Nou e em um espaço ainda mais valioso: à frente das camisas do time. Na segunda-feira, o Barcelona anunciou a venda de um quarto de seu negócio de produção, o Barça Studios, para a Socios, uma empresa de blockchain. E está em negociações para vender parte de sua divisão de licenciamentos.

Em vez de pagar a dívida do clube, porém, o dinheiro foi em grande parte para acumular novos talentos: US$ 50 milhões (R$ 261 milhões) pelo atacante polonês Robert Lewandowski, US$ 55 milhões (R$ 287 milhões) pelo zagueiro francês Jules Koundé, quase US$ 65 milhões (R$ 340 milhões) para o brasileiro Raphinha. Vários outros jogadores chegaram, mas estavam sem contrato. E mais reforços podem estar a caminho.

Para Laporta, a contratação de Lewandowski, que em breve completará 34 anos, e dos demais faz todo o sentido. Faz parte do que ele afirma ser um “ciclo virtuoso”, no qual o sucesso em campo fortalecerá as finanças da equipe por meio de um aumento na receita. A estratégia é uma repetição do roteiro que ele usou em seu primeiro mandato como presidente, um período de sete anos que começou em 2003 e terminou com um time celebrado como um dos melhores da história do futebol.

“Na minha época, colocamos as expectativas lá no alto e fomos bem-sucedidos”, disse ele sobre seu mandato anterior. “E os torcedores do Barça em todo o mundo, cerca de 400 milhões de pessoas, exigem esse nível de sucesso”.

Mas os tempos e as receitas mudaram. O clube que Laporta herdou em 2003 também estava atolado em crise financeira, com perdas de quase o dobro da receita e dívidas crescentes. Mas os números eram 10 vezes menores naquela época, e o clube ainda não havia iniciado o processo de se transformar no gigante comercial que é hoje.

Aquelas equipes também não eram obrigadas a atender às restrições dos gastos com jogadores que foram aplicadas pela liga espanhola – e são essas regras que representam o obstáculo mais imediato ao plano de renascimento de Laporta. Como La Liga insistiu que não vai facilitar as regras para o Barcelona, o clube ainda não conseguiu registrar nenhuma das novas contratações deste verão. Com medo de que a equipe não cumpra o prazo, a liga ainda não usou nenhum desses jogadores, nem mesmo Lewandowski, em nenhuma de suas marcas para a nova temporada.

As mais recentes vendas de ativos devem abrir caminho para o Barcelona cumprir as regras financeiras da Liga e registrar seu batalhão de novas contratações, insistiu Laporta. “Foi uma decisão que, honestamente, eu não queria tomar”, disse ele sobre as vendas, mesmo que elas venham a empurrar – pelo menos temporariamente – o balanço do Barcelona para o azul.

Esse tipo de manobraum misto de ousadia e arrojo – é típico de Laporta, que se beneficia de um culto à personalidade sem igual entre os outros presidentes da história moderna do clube. A popularidade de Laporta também é o motivo pelo qual ele pode se safar com riscos financeiros que provavelmente seriam inaceitáveis se tivessem sido propostos por presidentes anteriores – e particularmente por seu antecessor impopular, Josep Maria Bartomeu.

“O que aconteceria se Bartomeu fizesse o mesmo que o atual presidente está fazendo?”, disse Marc Duch, um membro do clube que ajudou a derrubar a diretoria anterior. “Todos nós estaríamos pegando fogo, apontando para ele e tentando demiti-lo”.

Laporta recebe um espaço mais amplo e até é apoiado por defensores fanáticos nas mídias sociais, disse Duch, por causa de seus vínculos com a era de ouro do clube. “Há uma história de sucesso por trás de Laporta”, disse Duch. “Ele tem uma base de fãs enorme: é como o papa, como Kim Jong Un: o líder supremo”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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