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Bélgica 60, Ferrari 900

Sessenta anos de GP da Bélgica e 900 largadas da equipe Ferrari no Mundial. Nada mau para a volta da Fórmula 1 após quatro semanas de férias. E o que dizer do palco? O desafiador Spa-Francorchamps que, quando ainda tinha 14,1 quilômetros de extensão, fez da Bélgica um dos sete países escolhidos pela FIA para compor o primeiro Campeonato Mundial, em 1950.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2015 | 03h00

A fama de Spa-Francorchamps foi construída por marcos históricos. Por exemplo, foi onde o lendário Jim Clark conquistou sua primeira vitória na F-1, em 1962. Na sequência, ganharia outras três, somando quatro consecutivas. Ayrton Senna não venceu a primeira aqui, mas a segunda, ainda na Lotus preta. No total chegou a cinco vitórias, sendo quatro consecutivas.

Mas as marcas mais importantes são as que ligam a pista à carreira de Michael Schumacher. Aqui ele viveu seus três momentos mais felizes: a estreia na F-1 pela Jordan, em 1991; a primeira vitória, exatamente um ano depois, já na Benetton, e a conquista do último dos seus sete títulos mundiais, pela Ferrari.

No momento, Spa não tem sido muito amiga da vizinha Alemanha. A Mercedes ainda não tem vitória aqui. Boa parte da culpa cabe aos pilotos Nico Rosberg e Lewis Hamilton que, na segunda volta da corrida do ano passado, levaram ao extremo a rivalidade entre eles. Os dois se tocaram, o bico do carro de Rosberg furou o pneu traseiro de Hamilton e, como faltavam ainda dois terços da pista mais longa do Mundial (7.004 metros) para chegar aos boxes, acabou ali mesmo a corrida do inglês. Rosberg ainda chegou em segundo, deixando aberto o caminho para uma segunda vitória consecutiva de Daniel Ricciardo, que já tinha vencido na Hungria.

Nesta sexta-feira, primeiro dia de treino livre, Rosberg teve um furo no pneu traseiro direito pouco antes da curva mais veloz do circuito, a cerca de 270 km/h. Ele teve um ótimo controle do carro, mas também muita sorte para escapar de uma batida forte.

A história construída pelo heroísmo dos grandes ídolos das duas primeiras décadas do Mundial diante de um circuito tão desafiador tem também o seu lado pitoresco. Em 1965 Jackie Stewart sofreu um acidente na pista de 14.100 metros, o carro ficou inclinado junto ao guardrail e a gasolina descia pelo seu corpo. Nem a fratura no pulso o preocupou tanto quanto a gasolina, que queimava seu corpo, e os comissários de pista não entendiam inglês para compreender que ele queria tirar o macacão. Com muita dificuldade, saiu do carro e os comissários o ajudaram a se despir.

Recentemente, o jornalista Livio Oricchio ouviu de Stewart relato curioso daquele dia. Ele conta que perto do local do acidente havia uma igreja e algumas freiras saíram correndo para ver o que acontecera e se depararam com o escocês totalmente nu. Se tudo isso não bastasse para deixar Stewart irritado, o motorista da ambulância que o levava para o hospital errou o caminho e acabou deixando-o em um outro hospital, não credenciado pelo GP, no qual teve que esperar atendimento numa maca colocada no chão.

Stewart brigou tanto que em 1970, ostentando o título de campeão mundial (1969), usou sua força junto aos organizadores do campeonato e, com apoio dos pilotos que liderava na Grand Prix Drivers Association, conseguiu vetar o circuito. Spa ficou fora da F-1 por 13 anos. Só voltou em 1983 completamente remodelado e com a extensão reduzida para 6.949 metros. Hoje, com mais duas chicanes, mede 7.004.

Durante esse período, o GP da Bélgica foi disputado duas vezes em Nivelles, ambas vencidas por Emerson Fittipaldi (72 e 74) e dez vezes em Zolder. O circuito de Nivelles, que não existe mais, ficava na agradável região da Valônia. Zolder, não tão longe de Spa, está na província de Limburgo, onde a feiura da cidade mais próxima, Hasselt, não deixa boas lembranças se comparada a todas as pequenas cidades que rodeiam Spa-Francorchamps.

Com as dimensões antigas, de fato, o circuito era muito perigoso, principalmente pelo difícil acesso em caso de socorro. Mas, ironicamente, a pista de Zolder ficaria para sempre marcada pelo acidente que, em um treino de 1982, matou Gilles Villeneuve, um dos maiores ídolos da história da Ferrari. 

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