Pedro Nunes/Reuters
Pedro Nunes/Reuters

Benfica, um grande clube de Portugal, procura pequenos blogueiros

Diretoria é acusada de influenciar funcionários da federação e responsáveis pela supervisão da arbitragem

Tariq Panja, Lisboa (Portugal), The New York Times

17 Outubro 2018 | 12h37

O blogueiro leu o e-mail por volta das 23 horas em uma tranquila noite de setembro, na hora do dia em que costuma postar suas populares reflexões sobre o futebol em Portugal.

A mensagem era do Google, Inc. Nela, a empresa - ou, mais especificamente, seus advogados - explicaram ao blogueiro, um homem discreto de 30 e poucos anos, que a potência do futebol português, o SL Benfica, havia solicitado que ele entregasse ao Google seus detalhes pessoais por ter publicado 13 artigos contendo informações confidenciais do clube em uma plataforma de propriedade do Google.

O blogueiro havia descoberto as informações on-line depois de terem sido reveladas em um vazamento mais amplo de documentos do Benfica, e postou artigos sobre isso em seu blog, O Artista do Dia. Ao fazê-lo, ele se transformara sem saber, uma pequena parte de um escândalo maior que se tornou um grande constrangimento para o clube.

O Benfica tem metade dos 10 milhões de habitantes de Portugal como adeptos. Duas vezes campeão da Europa e um frequentador regular na Liga dos Campeões, é o equivalente ao Dallas Cowboys ou do Manchester United, ou até mais. E agora queria vingança.

Atordoado, o blogueiro se esforçou para adormecer depois de ler o e-mail e seu anexo - uma intimação do Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Central da Califórnia. Quando sua esposa e dois filhos acordaram no dia seguinte, não havia dormido nada.

Ele se preocupou com o “apoio legal ilimitado” do Benfica e com a possibilidade de entrar em conflito com os defensores mais fanáticos da equipe, disse ele em uma entrevista recente. Pediu para permanecer anônimo porque acreditava que poderia estar em perigo.

“Eles poderiam vir ao meu patrão; Eu não sei o que pode acontecer,” disse ele com a voz sumindo. Então logo acrescentou: “Meus filhos - eu pensei sobre isso tudo.”

Para compreender como um despretensioso blogueiro de Portugal acabou enfrentando uma intimação num processo na Califórnia - como um peão em litígios que se voltam para a definição de privacidade na era tecnológica - ajuda saber como coisas se tornaram desesperadas para o Benfica, já que detalhes confidenciais sobre o funcionamento interno do clube vieram a público no ano passado. Entre outras coisas, os documentos vazados sugeriram que o clube tinha um plano para influenciar os oficiais da liga e da federação e até mesmo controlar a arbitragem nos jogos da primeira divisão. O Benfica nega qualquer irregularidade.

Mesmo em tempos normais, rumores e intrigas sobre eventos dentro do Estádio de Luz, o estádio e a vasta sede do Benfica, dominam os muitos programas de debates noturnos na televisão local e a cobertura de pelo menos um dos três jornais esportivos diários de Portugal. As suas rivalidades com as outras importantes equipes do país, o Sporting e o FC Porto, são famosas; brigas ferozes entre os executivos do clube ajudam a alimentar a narrativa diária de fervor neste país.

Os problemas mais recentes começaram na primavera de 2017, quando o diretor de comunicações do Porto, Francisco Marques, apareceu em um canal de televisão de propriedade da equipe e revelou o funcionamento interno do Benfica, coletado de um esconderijo de dados secretamente fornecidos a ele. Então ele o fez novamente. E de novo. Para fãs de futebol e jornalistas em Portugal, as revelações semanais de Marques sobre o Benfica tornaram-se uma televisão imperdível.

Cerca de 20 gigabytes de documentos internos e e-mails pertencentes a alguns dos funcionários mais graduados do Benfica foram compartilhados com ele anonimamente, disse Marques. As informações apresentadas em seu programa, “Universo Porto da Bancada”, foram amplas. Incluíam um slideshow do Benfica que detalhava um esforço aparente para obter maior influência sobre os funcionários da federação e da liga, bem como detalhes de como o clube gastava uma grande quantia em dinheiro com um médico da Guiné-Bissau para melhorar o desempenho da equipe. Também havia documentos sugerindo conexões entre o clube e os homens responsáveis pela supervisão da arbitragem em Portugal.

Marques passou o banco de dados inteiro, que ele diz ter recebido anonimamente, para a polícia. Então, em dezembro de 2017, os e-mails do Benfica começaram a aparecer em um misterioso site chamado O Mercado do Benfica, ou Mercado do Benfica. Desde então, o conteúdo do site foi devorado pela mídia local e blogs, incluindo, mas não limitado apena a “O Artista do Dia”. "Acho que é a mesma pessoa que falou comigo que publicou os e-mails”, disse Marques em entrevista, insistindo que nem ele nem o Porto pagaram pelos dados.

A polícia está investigando a invasão no sistema do Benfica, mas também o próprio clube. Autoridades policiais realizaram incursões nos escritórios do Benfica, e no mês passado os promotores acusaram o clube de corrupção depois que os investigadores descobriram que havia um espião dentro do sistema judicial português. O oficial, segundo os promotores, avisou o Benfica sobre as investigações em andamento, mas também sobre as que envolviam o Porto e o Sporting.

A federação portuguesa de futebol iniciou uma investigação separada. O presidente do Benfica, Luis Filipe Vieira, acusado em janeiro de corrupção relacionada a seus assuntos empresariais, disse que o clube defenderá sua reputação “de maneira inflexível” e que “não existe um único fato, nem mesmo uma evidência circunstancial que implicaria o Benfica.”

Aqueles que publicaram artigos e blogs baseados no material vazado argumentam que existe um interesse público significativo em fazer isso, dada a imensa importância social e cultural da equipe em Portugal.

A visão do Benfica sobre os vazamentos é totalmente diferente. Em abril, o clube processou várias empresas de tecnologia, incluindo o Google, em uma tentativa de obrigá-las a fornecer ao Benfica informações confidenciais que ajudariam a identificar blogueiros e donos de sites individuais. No total, o Benfica tem como alvo 100 pessoas.

Até que ele lhe enviasse detalhes da intimação, o Google não havia entrado em contato com o blogueiro para pedir a ele que retirasse quaisquer postagens ou materiais que pudessem ter violado suas diretrizes. (Ele está envolvido na batalha legal porque o site que hospeda seu blog, Blogspot, pertence ao Google.) Os termos de uso do Google alertam os usuários contra a publicação de “informações pessoais e confidenciais”. A empresa ainda não revelou sua identidade ao Benfica. mas poderá, se for obrigada a isso pelo tribunal; recusou-se a comentar o caso do blogueiro, além de dizer que a empresa cumpriria a lei. /Tradução de Claudia Bozzo

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