Bernard conta temores com guerra da Ucrânia, mas diz que volta

Atacante da seleção admite ter combinado com o Shakthar volta para dia 10, mas só embarcará dia 18. Ele teme riscos do conflito

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2014 | 11h28

Bernard faz um relato da situação que o atormenta em sua volta à Ucrânia, um pais em conflito armado com a Rússia. Revela seus temores e medo de trabalhar em Donetsk, cidade a leste da Ucrânia onde os conflitos estão intensos. Nesta quinta, caças ucranianos bombardearam Donetsk pela primeira vez, cidade controlada por separatistas russos. Todo esse clima ajudou o jogador do seleção brasileira a repensar sua volta ao Shakhtar, como ele mesmo informa.

Mas Bernard, nesta nota, se compromete a retornar ao país dia 18, segundo ele, oito dias depois do combinado com o clube. Seu clube não treina mais na cidade. Ele também informa que sua casa está interditada pela guerra, e que não pode pegar suas coisas.

VEJA NOTA DO JOGADOR

1 – Deixei a Ucrânia no dia 19 de maio, um dia depois do meu último compromisso como atleta do Shakhtar na temporada (a partida contra o Volyn, dia 18). Cheguei dia 20 ao Brasil e minha apresentação à seleção aconteceu dia 26 de maio. Portanto, tive apenas sete dias de descanso até iniciar o compromisso com meu País. Defendi a seleção até o dia 12.07.

2 – Acertei com o Shakhtar meu retorno à Ucrânia para 10 de agosto. Assim, teria praticamente o equivalente a um mês de férias. O clube, ciente e de acordo com a data, me enviou passagem aérea datada do dia 10 de agosto, para que eu voltasse.

3 – Reconheço, portanto, que hoje, dia 14 de agosto, completarão quatro dias que não estou presente na Ucrânia, E isso, claramente não representa que estou três meses de férias. Este adiamento de minha apresentação tem motivos que considero muito sérios e quero explicá-los.

4 – É de domínio público que a Ucrânia vive um conflito perigoso e que tem colocado vidas em risco. Vivo com toda minha família por lá desde o ano passado. Quando assinei meu contrato para atuar pelo Shakhtar, o país não vivia esse momento conturbado. Assinei o compromisso também porque havia a promessa de morar em uma cidade com estrutura excelente, trabalhar em um CT e jogar em um estádio com condições de 1º mundo. Evidentemente que, ciente de meus compromissos profissionais, não fiz qualquer movimento de insatisfação com a situação pela qual o país passava; pelo contrário, cumpri tudo que meu clube me determinava, mesmo que estivesse trabalhando todos os dias com muito medo. Houve vários dias em que, no deslocamento que fazia em direção ao meu local de trabalho, além de deixar meus familiares "presos" dentro de casa, tinha que me identificar para o exército que bloqueava com tanques de guerra a cidade de Donetsk. Essa, definitivamente, não é uma das situações mais agradáveis para se trabalhar. E aqui, não cabe nenhuma crítica a meu clube, que fazia o que podia para garantir minha segurança. Era sim uma questão muito particular.

5 – Quando voltei ao Brasil, fiquei na expectativa de que a situação no país se acalmasse e eu pudesse retornar para poder trabalhar normalmente e com a cabeça unicamente voltada para jogar futebol. Entretanto, os problemas não acabaram, tanto que o próprio clube teve de mudar de sua sede para seguir suas atividades em uma cidade a 700 km de distância. Hoje, não posso retornar para Donetsk. Em casa ficaram os meus pertences pessoais e de minha família. Todas minhas roupas, por exemplo, estão por lá. Objetos que levei da minha residência no Brasil hoje estão inacessíveis e não sei quando, e se, poderei um dia pegá-los de volta.

6 – Confesso sim, que estou com receio de voltar à Ucrânia. Respeito os atletas que retornaram, mas é um sentimento muito particular e que envolve a minha vida e a de meus familiares. Contudo, pedi a meu agente que mantivesse contato com o clube, e definimos em conjunto, que, mesmo com todos esses problemas que o país vive e com meu receio explicado à diretoria do Shakhtar, vou voltar ao país no dia 18 de agosto. Convido, inclusive, algum jornalista que quiser me acompanhar neste retorno para que possa visualizar de perto e documentar a situação pela qual vive a Ucrânia.

7 – Respeito todas as opiniões que foram emitidas neste período, mas quero ressaltar que vivo um momento profissional que é impossível de não se misturar com o momento pessoal. Estou retornando a um país que vive um conflito que tem tirado muitas vidas e não há qualquer garantia de término. Mesmo assim, sou um profissional que irá cumprir o contrato que assinou. Apenas coloquei na balança, além do profissionalismo, o medo de envolver a mim e meus familiares em um conflito tão perigoso pelo qual passa a Ucrânia. Quem não faria isso?

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