Laurent Gilleron/AP
Laurent Gilleron/AP

'Fui traído. Ainda sou o presidente. Eu voltarei', diz Blatter

Ele ameaça impedir eleição e diz que ainda é o mandatário da Fifa

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

21 de dezembro de 2015 | 09h46

Joseph Blatter desafiou a condenação imposta pela Fifa, alertou que o Comitê de Ética da entidade não pode destitui-lo da presidência e insinua que ele pode atrapalhar a eleição marcada para fevereiro para seu posto. "Eu voltarei", prometeu o cartola, suspenso nesta segunda-feira por oito anos do futebol. Ao chegar para sua coletiva de imprensa, com barba por fazer, olhos inchados e um curativo no rosto, Blatter mostrava outra versão do comandante que dirigiu o futebol mundial por anos. Mas o suíço tentou adotar um tom desafiador. Prometeu recorrer da decisão e escolheu realizar o encontro com a imprensa na antiga sede da Fifa, numa espécie de tentativa de mostrar que foi ele que construiu a entidade.

"Fui traído. Eu ainda sou o presidente da Fifa, mesmo afastado", disse em tom provocador. "Só o Congresso da Fifa pode me afastar, não esse Comitê. Eles não têm esse direito. Criamos o Comitê para lidar com ética. Mas se eles tentam barrar evidências, cometem uma violação de direitos humanos", disse.

 

Blatter também insinua que pode tentar atrapalhar as eleições de fevereiro de 2016, quando um novo presidente assumirá o comando da Fifa. "Para eleger um novo presidente, eu preciso sair", alertou. Concorrem ao pleito Salman bin Ebrahim al-Khalifa, Tokyo Sexwale, Ali bin al-Hussein, Gianni Infantino e Jérôme Champagne. Mas nenhum deles é alvo de um consenso. "Eu voltarei. Não acabou. Vou lutar pelos meus direitos", prometeu. "Vou lutar por mim e pela Fifa. Vou usar a Justiça. Não se pode terminar 40 anos assim. Não é possível. Suspenso por quê?"

A decisão de afastá-lo foi elogiada por políticos europeus e seus adversários, enquanto os patrocinadores deixaram claro que Blatter precisava sair da Fifa. O organismo que por anos aniquilou seus opositores agora era usado para acabar com a carreira do suíço. "Algo está errado nesse sistema. Lamento que eu seja o saco de pancadas para a entidade. Peço desculpas. Peço desculpas pelo futebol, pela Fifa. Mas também lamento sobre mim", declarou o cartola. O suíço questiona até mesmo as regras do afastamento que indicam que ele não poderá nem mesmo entrar em um estádio de futebol. "Isso só vale para jogadores e técnicos. Não se aplica a mim".

Suas declarações revelam que ele não aceitaria deixar o poder da forma que está ocorrendo. "Eu não mereço isso. Vou lutar até o fim", insistiu. Ao falar, citou Nelson Mandela, direitos humanos e insinuou que, em novembro, ele quase morreu por causa de tudo o que está acontecendo com ele. Questionado sobre o motivo de tanta insistência, Blatter explicou: "Estou totalmente ligado a essa Fifa e o dia que vi que ela estava sendo atacada, acusada de ser mafiosa, eu tinha de protegê-la. Eu deveria ter parado depois da Copa de 2014. Teria sido mais sábio. Mas me pediram para ficar."

COM HAVELANGE

Blatter continuou seu argumento de que não é responsável pela corrupção dos demais cartolas da entidade, muitos deles latino-americanos, inclusive brasileiros. "Não tenho essa responsabilidade moral", disse. Apesar de mostrar resistência, Blatter dificilmente poderá voltar e, segundo fontes de dentro da entidade, a meta é justamente a de "virar a página". O ex-presidente tinha na Fifa sua própria vida e era acusado por opositores de confundir a história do futebol com a sua própria. Blatter entrou na entidade ainda nos anos 70 e passou a ser o braço direito de João Havelange. Juntos, os dois criaram um sistema clientelista no qual as federações nacionais recebiam privilégios, dinheiro e torneios em troca de um apoio incondicional aos dois cartolas.

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