Ronald Zak/ AP
Ronald Zak/ AP

Blatter teria fechado pacto com Catar em troca de sua eleição

Livro mostra como suíço abafou investigações sobre Copa do Catar

Jamil Chade - Correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2015 | 16h23

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, teria fechado um acordo com o regime autoritário do Catar para não questionar a forma pela qual o país comprou votos para sediar o Mundial de 2022, em troca de garantias de que não seria ameaçado em sua eleição para continuar como presidente da entidade.

A revelação faz parte de um novo livro que será publicado na semana que vem e é resultado de uma investigação conduzida por dois jornalistas do diário britânico The Sunday Times. Em "O Jogo Sujo: o esquema do Catar para comprar a Copa do Mundo", os jornalistas Heidi Blake e Jonathan Calvert revelam os motivos pelos quais Blatter enterrou as investigações sobre a corrupção no Mundial.

No final de 2014, depois de anos de um processo polêmico, o então investigador independente da Fifa, Michael Garcia, concluiu seu trabalho sobre como a Copa de 2022 foi dada ao Catar. Num documento secreto, ele pedia que cartolas fossem punidos. Mas, quando o caso foi levado aos tribunais da Fifa, a entidade optou por dizer que nada nas descobertas de Garcia levavam a um questionamento do Catar como sede da Copa de 2022. Indignado diante da decisão da Fifa, Garcia pediu sua demissão.

Agora, o novo livro aponta que essa decisão de enterrar o processo não teria ocorrido por acaso. O pacto foi fechado ainda em 2010, quando Mohamed bin Hammam era candidato à presidência da Fifa. O representante do Catar era uma real ameaça à Blatter. Mas sua candidatura foi derrubada depois que a Fifa revelou como ele tentou comprar votos.

O que a nova investigação aponta é que não foi apenas os escândalos que afastaram Bin Hammam da corrida. Blatter teria fechado um acordo com o Catar de que, em troca da retirada do concorrente, a Copa de 2022 seria protegida.

Desde então, a Fifa não puniu ninguém por qualquer irregularidade, modificou o calendário internacional para ajustar o Catar na Copa e ainda ampliou um acordo de televisão nos EUA como forma de compensar investidores pela mudança no calendário.

Blatter ainda minimizou as violações aos direitos dos trabalhadores no Catar, rejeitou manobras políticas para minar a preparação do país e repetiu em dezenas de vezes seu apoio ao governo local. O livro está programado para sair no dia 23 de abril, um mês antes de mais uma eleição em que Blatter é o favorito para um quinto mandato consecutivo.

"Alegações sérias de corrupção sobre o processo de candidatura nunca foram respondidos pela Fifa", declarou Damian Collins, membro do Parlamento Britânico. "Se Blatter fechou um acordo com o Catar para obter vantagens pessoais e que contribuiu para que a Fifa fracassasse em investigar alegações de corrupção, então ele deve deixar o cargo", completou. 

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