Boatos e comoção na internação de Maradona

"Ele é um monumento da humanidade. Um patrimônio mundial, como as pirâmides do Egito...". A frase é de Vicente Botín, um jornalista espanhol do canal TVE, que se acotovela no meio de cinco dezenas de correspondentes estrangeiros nas portas da Clínica Suíço-Argentina para obter as primeiras informações sobre o estado de saúde do astro do futebol argentino, Diego Armando Maradona.Além dos jornalistas, amontoam-se no lugar mais de 300 fãs angustiados, rezando e torcendo pela melhoria do ídolo, que apesar da decadência física e mental, ainda continua acendendo fortes paixões."Se Gardel canta cada vez melhor, Maradona joga cada vez melhor", dispara Mariano Di Napoli, um jovem de 19 anos do município de Lanús, em cujo distrito de Villa Fiorito Maradona cresceu.Mariano referia-se ao cantor de tangos Carlos Gardel, que apesar de falecido há 69 anos, a sabedoria popular afirma que "cada vez canta melhor".O mesmo aconteceria com "El Diez", que mesmo aposentado, com mais de 100 quilos acumulados e o olhar perdido no horizonte, permanece no imaginário popular como ainda capaz de driblar os melhores jogadores da atualidade.Droga - No meio da madrugada desta terça-feira, uma fonte da clínica disse à agência estatal argentina Télam - uma das mais importantes do país - que os médicos detectaram entre 850 e 900 miligramas de cocaína na urina de Maradona. Isso teria causado uma overdose que levou o astro ao hospital no domingo à tarde.A mesma fonte revelou que a preocupação existente entre os assessores e amigos mais próximos de Maradona é sobre a reação que seu organismo terá com a síndrome de abstinência. Esse foi o problema que o ex-atleta teve em janeiro do ano 2000, no balneário uruguaio de Punta del Este, após uma overdose que quase o matou.O médico pessoal de Maradona, Alfredo Cahe, que na segunda-feira havia desmentido categoricamente a possibilidade de que o ex-jogador tivesse consumido drogas, mudou de postura nesta terça. Cabisbaixo, respondeu laconicamente aos jornalistas que o assediava: "Não tenho essa informação".No comunicado oficial da clínica, divulgado na tarde desta terça-feira, foi informado que o quadro geral de Maradona é "estável", embora ele continue em estado crítico. Além disso, a pneumonia que o atinge está em "aceitável evolução" e foi descoberta uma infecção nos pulmões.O comunicado desmentiu os rumores de que o paciente já não precisava do aparelho de respiração artificial. Segundo a clínica, ele continua conectado aos aparelhos.Ídolo - Os analistas esportivos comparam Maradona aos deuses do Olimpo, tão humanos e divinos ao mesmo tempo, capazes de milagres e de comportamentos e erros passionais.De grande parte dos argentinos, Maradona - um "herói" de carne e osso, politicamente incorreto, contraditório (critica o Vaticano por não ajudar os pobres, mas nunca deu um centavo para ajudar o miserável bairro onde foi criado na Grande Buenos Aires) e incorrigivelmente infantil - recebe esse olhar condescente.Esse foi o caso de uma senhora de mais de 70 anos que colou com fita adesiva na parede da clínica um cartaz com os dizeres: "Ele nos ensinou que quanto mais alto a pessoa está, mais dura é a queda. Mas é mais heróico se reerguer. Força Diego".As paredes da clínica, inclusive, estão cheias de cartazes de todos os tamanhos. Imagens da Virgem de Luján - a padroeira da Argentina - misturam-se às fotos de Maradona em seus anos de glória, como a que ele beija o troféu de campeão mundial, em 1986.Culpa - O ex-técnico da seleção argentina de 1978, César Menotti, lamentou o estado de Maradona. No entanto, deixou claro que considera que é o próprio ex-jogador que é "responsável pelo que lhe acontece".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.