Boca Juniors é ?a metade mais um?

Conhecido como "a metade mais um", o Boca Juniors ufana-se de representar mais da metade da sociedade argentina. Nascido no bairro de La Boca, um setor da capital argentina originalmente povoado por imigrantes italianos, o time completará um século no ano que vem. É o time que mais mística acumula, não só pela suposta composição operária de seus torcedores, mas também pelas características peculiares de seu "templo": o estádio de "La Bombonera" (A caixa de bombons) e do intenso fanatismo de seus admiradores. Para os argentinos é difícil comparar o Boca a um time brasileiro. Ele possui origens italianas, como o Palmeiras; tem uma das maiores e mais agressivas torcidas da cidade, tal como o Corinthians em São Paulo; e de quebra, seus vínculos com o porto de Buenos Aires são indeléveis, como ocorre com o Santos. Mas, a rivalidade que possui com o River Plate só é comparável ao clássico Fla-Flu. Nas ruas de La Boca, onde os italianos de verdade escasseiam e as "cantinas" apresentam uma cozinha supostamente da "nonna" (que muitas vezes tem sobrenome espanhol), o time é a referência local. De quase todos os pontos do bairro enxerga-se "La Bombonera", o estádio que recorda uma caixa redonda de bombons (por suas paredes íngremes que fazem que o espectador que esteja sentado na última tribuna veja o campo como se fosse mergulhar nele). O ditado popular sustenta que La Bombonera "vibra" junto com seus torcedores. Quem já esteve ali dentro percebe que a reverberação existente dentro da "catedral" do futebol portenho quando a torcida grita cânticos de apoio, a maior parte delas irreproduzíveis em publicações de bom tom. Seus torcedores definem-se como "boquenses", "xeneizes" (pelas origens genovesas do bairro) ou "bosteros", a denominação depreciativa lançada décadas atrás pelos rivais do River Plate, indicando que os torcedores do Boca eram meros carregadores de bosta de cavalo. Isso ocorria nos tempos em que a torcida do Boca era majoritamente operária, enquanto que os fanáticos do River eram da alta sociedade (por isso eram chamados ironicamente de "milionários" pelos boquenses). Há várias décadas que a composição social mudou drásticamente. Hoje, há torcedores de todas as classes sociais nas fileiras do Boca e do River. A crise argentina - que criou uma classe média "arruinada" alterou mais ainda esse cenário. Há mais de meia década o clube é comandado por Maurício Macri, filho de um dos mais poderosos empresários do país, Franco Macri. O herdeiro - que usou o Boca como trampolim para suas ambições políticas (ele lançou um partido e foi candidato - derrotado - no ano passado à prefeitura portenha) transformou o time em uma empresa: é cotado na Bolsa de Buenos Aires e possui uma ampla linha de produtos "boquenses", que vai desde lingerie até bicicletas. De quebra, para deleite dos torcedores masculinos, o Boca lançou há dois anos a moda das cheerleaders no campo. Ou seja, curvilíneas "muchachas" - vestidas com ajustados e minimalistas uniformes azuis-dourados (as cores do Boca) - que com agitadas coreografias estimulam os jogadores a dar tudo de si no gramado.

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