Bola da despedida de Pelé reaparece

Quando o árbitro Emídio Marques de Mesquita apitou o final do jogo Santos 2 x Ponte Preta 0, dia 2 de outubro de 1974, na Vila Belmiro, em Santos, o futebol estava mais triste. Pelé, o maior craque de todos os tempos, havia se despedido do futebol aos 22 minutos do primeiro tempo, encerrando uma incomparável carreira que ele retomaria oito meses depois no Cosmos, de Nova York. A imagem do Rei ajoelhado, de braços abertos, virando-se para os quatro lados do campo em agradecimento à torcida, jamais saiu da memória dos torcedores. Mas a bola daquele jogo, última testemunha e companheira do atleta do século, ficou desaparecida.Durante estes 27 anos, esteve guardada em um armário em Mogi Mirim, no interior de São Paulo. Mais precisamente na casa de Moacir Januário, ex-goleiro de Ponte Preta, Portuguesa, Mogi Mirim e Uberlândia, que a guardou como um troféu, sob sigilo quase absoluto. O segredo foi desfeito agora porque Moacir doou a bola para a Igreja Evangélica Missão Paz e Vida, que pretende leiloá-la para financiar obras sociais, entre elas a construção de um asilo e um orfanato.Naquela noite, Moacir estava abatido. Perdera a posição de titular para Carlos - que depois chegaria à Seleção Brasileira - por causa da derrota da Ponte, em casa, para o Saad, de São Caetano, no domingo anterior. "O Saad chutou quatro bolas no gol, todas em faltas cobradas pelo lateral Arnaldo. Duas entraram, uma pegou na trave e uma eu defendi. Não falhei, mas fui sacado do time", recorda Moacir, que, assim, perdeu a chance de jogar pela primeira e única vez contra Pelé.Moacir perdeu a chance histórica, mas ficou com a relíquia. "O Pelé ajoelhou-se com a bola, mas depois deu a volta olímpica sem ela. O jogo foi reiniciado com a mesma bola que, num lance, veio parar no banco de reservas da Ponte. Fiquei com ela, e devolvi para o jogo a bola que era da Ponte", conta.O goleiro guardou-a entre suas coisas e voltou com ela para Campinas. Não contou para ninguém. Além dos jogadores da Ponte, só dois amigos de Mogi Mirim, os irmãos Roberto e Marco Lino, sabiam que ele tinha o troféu. Os dois tinham ido assistir ao jogo, perderam o ônibus de volta e Moacir arranjou-lhes uma carona com a delegação. "Eu lembro que todo mundo no ônibus queria comprar a bola, mas não houve proposta capaz de dobrar o Moacir", testemunha o hoje empresário musical Marco Lino.Com medo de que lhe roubassem, Moacir evitava comentar sobre o troféu. Um dos poucos a saber da história era o ex-jogador Humberto - ex-meia do Santos e hoje seu sócio em duas escolinhas de futebol em Mogi Guaçu e também membro da Igreja Missão Paz e V ida. Guardou o segredo e, durante algum tempo, a própria bola em sua casa, na cidade vizinha a Mogi Mirim. A bola de couro costurado à mão, branca, da marca Olímpica, ainda tem a frase que Moacir escreveu com esferográfica para afastar a curiosidade dos filhos: "Não mexa".O ex-goleiro não tem idéia de quanto pode valer o troféu. Mas confessa: gostaria que a bola ficasse com Pelé. "Tenho obrigação de oferecer primeiro a ele, já fiz isso por e-mail, mas ainda não tive resposta", conta.Moacir não tem dúvidas de que aquela é a bola que foi tocada pela última vez pelos talentosos pés de Pelé em gramados brasileiros, em jogos oficiais. Tanto que o próprio site de Pelé na Internet nenhuma referência faz sobre o troféu. Estão lá as chuteiras do último jogo, mas nada sobre a bola que Moacir segurou como se fosse a defesa de sua vida. "Fui abençoado por Deus", agradece.

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