Bola dividida

Coisas que só acontecem no Brasil: a Série A pega fogo, mas não para com as Eliminatórias

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2016 | 05h00

Lembra quando se falava “Tem coisa que só acontece com o Botafogo”? Era gozação dos rivais, claro; mas embutia vontade de entender as agruras do Glorioso. Pois a expressão pode adaptar-se ao futebol brasileiro sem soar forçada. Infelizmente. Sério, há episódios que ocorrem por aqui a desafiarem a lógica e o bom senso.

Quer exemplo atualíssimo? A Série A pega fogo, com briga empolgante pelo título e pela fuga do rebaixamento. Na parte de cima, Palmeiras, Flamengo e Atlético-MG – com Santos e Flu a correr por fora – disputam ponto a ponto a primazia de levantar a taça em dezembro. Na rabeira, há ao menos nove preocupados.

Muito bem. Torcidas ligadas nos mínimos detalhes que envolvem epopeias das referidas equipes, sobretudo o trio de ponta, com a luta bem aberta. O pessoal acompanha quem joga, quem se machucou, quem está suspenso. Analisa a tabela, faz cálculos; simula cenários favoráveis, sonha com a festa e... e lá vem a seleção para estorvar.

Ou melhor, seleções. Sim, meu amigo, neste meio de semana a programação da CBF prevê seis jogos pela 29.ª rodada, com outros quatro entre sábado e domingo. Ao mesmo tempo, no calendário da Fifa há rodadas pelas Eliminatórias do Mundial de 2018. Brasil e demais parceiros da América do Sul entrarão em campo em nova etapa na caminhada por quatro vagas para a Rússia – fora a quinta, na repescagem.

Não se trata, portanto, de amistosos caça-níqueis, mas de jogos que fecham o primeiro turno por aqui e abrem a “segunda vuelta”, como dizem os vizinhos. Com o equilíbrio na região, os times precisam contar com o que têm de melhor. Para tanto, os treinadores apelam para os astros espalhados pelo planeta, além do pessoal que defende clubes domésticos. Sem concessões.

Isso representa desfalques. Não é por acaso que, na Europa e em outros continentes, os campeonatos nacionais têm pausa. Para não prejudicar as equipes que cedem jogadores para seleções. Óbvio gritante. Aproveita-se o tempo para aprimorar a forma de quem não for chamado, técnicos ficam à vontade para testes locais e até pintam alguns jogos-treinos ou partidas de exibição para arrecadar uns cobres, divulgar marcas, atender patrocinadores. Desde que não valham três pontos.

Nesta terra abençoada, que um dia foi o País do Futebol, a cartolagem pouco se lixa, as rodadas se sucedem como se nada de extraordinário estivesse a rolar em volta. Não adianta dirigente de clube vir a público reclamar da CBF. Eles têm parcela significativa de culpa, por darem suporte à entidade e por não baterem o pé, no início de temporada, ao toparem com barbaridades de tal teor. Agora, Palmeiras, Fla, Atlético-MG que se virem: são alguns dos que têm atletas a serviço da seleção e não lhes resta alternativa que não a de torcer para os substitutos darem conta do recado e para que os titulares voltem sãos para a arrancada final. 

Não há jogo sem valor, só para ficar entre hoje e amanhã. Corinthians x Galo (recuperação, briga por título), Vitória x Grêmio (rebaixamento, Libertadores), Santos x Flu (título, Libertadores), Sport x São Paulo (descenso), assim como Inter x Coritiba. Atlético-PR x Chapecoense talvez seja o mais morno. Viu quanta coisa?

Sei que virou chavão, antipático até, mas não dá para segurar: é 7 a 1 contra o Brasil que não acaba mais.

SELEÇÃO EM AÇÃO

professor não tem nada com isso. Tite passou a carreira no lado de cá do balcão e sabe o quanto seleção emperra a rotina dos clubes. Mas está certo ao não abrir mão dos melhores. O Brasil está em etapa de reconstrução e reação, ganhou as duas sob o comando dele, tem a Bolívia amanhã, em Natal, como escada para, quem sabe?, assumir a liderança. Depois, tem a lanterna Venezuela, fora.

A base será a das apresentações anteriores, o que faz sentido. Porque o grupo deu retorno e por ser uma maneira de acelerar a consolidação de um time mais próximo do ideal, a estar pronto até junho de 18. 

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