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Bom futebol, por gentileza

Jogos ruins é um mal que assola o futebol brasileiro e torcida e imprensa, em grande parte, se habituaram à falta de qualidade das partidas

O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2018 | 04h00

A sequência de jogos ruins é um mal que assola o futebol no Brasil. Aos poucos, ela vai corroendo o que encontra pelo caminho, após se inserir em nossa rotina a ponto de nos adaptarmos.

Sim, senhoras e senhores, torcida e imprensa, em grande parte, se habituaram à (falta de) qualidade das partidas. Quase ninguém reclama, é normal, uma rotina enfadonha que se repete a cada rodada.

A série de espetáculos(?) pobres é tão extensa que a ela nos acostumamos. Como se fosse aquela dor nas costas que você trata e não te larga. O jeito é se acostumar, tomar um remedinho e ir levando.

Assim, levamos adiante atuações constrangedoras como a do Corinthians frente ao Flamengo, quarta-feira, pela Copa do Brasil. O campeão paulista e brasileiro não finalizou sequer uma vez na direção do gol. E houve quem defendesse o "não vim aqui para vencer, mas para não perder". Como se fosse um time pequeno, um clube menor, não um dos mais populares e vencedores do futebol brasileiro.

Essa aceitação faz parte da adaptação (quase) geral a esse cenário. Três dias depois, esfacelado, o Vasco agrediu o Flamengo, mandou sete bolas a gol, marcou um e por pouco não venceu.

O respeito excessivo do Corinthians ao time rubro-negro em nome da estratégia para se classificar estava escancarado. Normal fora de casa se defender. Surreal abrir mão do direito de atacar.

Por sinal, atacar deveria ser um dever moral para grandes clubes. Mesmo em momentos de dificuldade, como o vivido pelos corintianos, endividado e perdendo jogadores, não é preciso perder o orgulho.

Mas como a maioria da comunidade do futebol parece compreensiva com ideias paupérrimas e "resultadistas", vai se levando. Diante disso, naturalmente vieram mais cotejos ruins no fim de semana.

Na Vila o lance mais emocionante do empate sem gols entre Santos e São Paulo foi a chance perdida por Rodrygo no segundo tempo. Situação criada a partir de uma falha de Arboleda.

Em Belo Horizonte, placar em branco entre os reservas do Cruzeiro (Thiago Neves foi o único titular a participar por 25 minutos) e Atlético. E os cruzeirenses, mesmo com suplentes, foram superiores.

Clássicos fracos em São Paulo e em Minas Gerais, jogo sem sal em Salvador. Bahia 1 x 1 Palmeiras teve 88 lançamentos e o time paulista arrancou o empate na única finalização certa que foi capaz de fazer.

O confronto carioca em Brasília foi pelo menos amimado. O 1 a 1 entre Vasco e Flamengo teve várias situações de perigo. Aliás, nos três clássicos foi o único que teve bola na rede.

Obviamente a qualidade de uma partida não é medida apenas por tentos. Um jogo repleto de falhas defensivas, ou seja, tecnicamente sofrível, pode ter muitos gols, tornando-se emocionante, mas fraco. O problema aqui é maior. Técnicos se propõem só a não perder. Times com alto investimento rejeitam a bola, o modismo é jogar sem ela, oferecê-la ao rival, como se fosse o campeonato norte-irlandês.

Falamos de Brasil, autointitulado o "país do futebol". Aquele que acumula cinco títulos mundiais e em várias partes do planeta virou sinônimo de jogo bem praticado. Isso parece cada vez mais no passado.

Há alguns dias, o presidente dos Estados Unidos fez Tite reagir em entrevista. Questionado sobre a frase de Donald Trump (disse que os brasileiros têm tido "probleminhas"), mostrou a mão cheia de "pentacampeão".

Sim, é fato, mas qual a relevância disso no contexto do que vemos no Brasil? De que adianta um cartel vitorioso se nas últimas quatro Copas brasileiros foram eliminados por europeus e humilhados em casa nos 7 a 1?

Isso basta, se em território nacional a bola é maltratada? Jogo bonito é subjetivo, mas jogar bem é o que aproxima das vitórias. Como aqui poucos ligam para isso, talvez seja uma das razões das derrotas em 2006, 2010, 2014 e 2018, Tite.

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