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Bom programa

Não é necessário a esses craques falar bem, nem ter ideias originais sobre futebol

O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2018 | 04h00

Se alguém estiver com saudade de um craque do passado é só ligar a televisão que, como por mágica, algum vai aparecer. Nunca vi tantos ex-craques reunidos para comentar jogos. Nada tenho contra, ao contrário. Também gosto de me deparar com algum jogador que admirei no passado. Como são muitos os programas esportivos, o espaço tem que ser preenchido e um dos expedientes mais comuns é colocar em cena ex-jogadores, os mais famosos, naturalmente.

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O problema é que muitos desses ex-jogadores não têm a mesma destreza diante da câmera que tinham em campo, e acabam ficando em desvantagem quando se veem ao lado de comentaristas e narradores de ofício.

Se alguém procura naturalidade e segurança neles pode, muitas vezes, se decepcionar. Acho que a função deles é outra, ou melhor, cumprem dupla função. A primeira, naturalmente, é comentar o jogo; a segunda, talvez ainda mais importante, é apenas estar lá, de corpo presente, e fazer com que, com suas simples presença, muitos espectadores recordem tempos felizes de seus clubes e da seleção brasileira.

Por isso não é necessário a esses craques falar bem nem ter ideias muito originais sobre futebol. Nessa parte tendem a perder para profissionais experientes, acostumados a expor mais claramente seus pensamentos. 

Mesmo quando erram, porém, e erram não poucas vezes, nossa tendência é perdoá-los, como acontecia quando jogavam e erravam um passe.

Às vezes vejo um desses jogadores iniciar uma carreira diante do vídeo e fico torcendo por ele. Se ele começa meio titubeante espero que melhore; se não melhora, me preocupo que possa desaparecer. E dá perfeitamente para ver o que vai acontecer. Quanto mais o jogador está ainda preso ao linguajar do campo, à naturalidade do tratamento de boleiro para boleiro, mais sua possibilidade de se manter na nova profissão tende a diminuir. Os que permanecem, porém, correm o risco de, aos poucos, perderem o que resta neles do boleiro antigo, para criar uma nova personalidade, falando e agindo como os narradores e comentaristas com os quais trabalham.

Mas sempre alguma coisa fica, e, às vezes, é o bastante. E há mesmo as costumeiras exceções. Conheço pelo menos dois ou três comentaristas famosos que parecem não ter saído do campo completamente. E isso é muito bom para quem gosta da diferença, de ambientes desiguais, de pessoas que se diferenciam das outras. Essa mutação inevitável do campo para o microfone oferece às vezes aspectos curiosos e inesperados.

Um dos mais saborosos é do jogador que era apenas, no máximo, um bom jogador e vai obtendo sucesso como crítico ou narrador. Observo que, na medida em que seu prestígio cresce na função jornalística, cresce também, misteriosamente, o futebol que jogava. Jogadores que vi jogar e eram apenas razoáveis são tratados como ex-craques que nunca foram.

Mesmo esses falsos craques têm seu encanto. É que a escassez de talento e categoria é tão comum hoje em dia que aumenta muito a satisfação ver diante de si alguém que jogou em outros tempos. Craques e não craques, todos mais ou menos transformados em respeitáveis senhores de meia-idade, lutam como podem para enfrentar a vida em tempos tão duros. E, não é que, quando menos se espera, surge uma brecha pela qual se intromete o passado.

Uma das provas é um comercial atual, muito veiculado, que, para vender seu produto, partiu diretamente para o ano de 1970 e colocou em cena não dois jovens atletas da seleção do Tite, mas dois senhores que nunca saíram da lembrança dos torcedores. Sabiam o que estavam fazendo. Todos os ex-craques estão lá na televisão para nos lembrar o que fomos.

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