Bom Senso marca território e mexe com o futebol

Bom Senso marca território e mexe com o futebol

Movimento completa um ano de atuação e, apesar de não ter reivindicações atendidas, mexe com o futebol

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2014 | 17h00

Terça-feira completa um ano que o Bom Senso FC realizou a sua primeira reunião. O encontro, realizado no escritório de uma agência de publicidade, contou com a presença de 20 jogadores. Após aquela reunião, foi divulgado o primeiro manifesto produzido pelos atletas, com as reivindicações do grupo. Nascia ali o movimento que mexeu com os bastidores do futebol brasileiro e criou a expectativa de mudanças profundas no esporte.

Passado um ano, o Bom Senso cresceu e ultrapassou a marca de mil assinaturas de jogadores das séries A, B, C e D do Campeonato Brasileiro. No site do movimento, um abaixo-assinado pedindo a democratização da CBF conta com mais de 75 mil apoiadores. A lista de pedidos dos atletas, no entanto, ainda está longe de ser atendida.

O Bom Senso tem cinco propostas centrais (calendário, férias, pré-temporada, Fair Play Financeiro e participação dos atletas nos conselhos técnicos das entidades que administram o futebol). Com relação a calendário e pré-temporada, por exemplo, a CBF não atendeu às demandas do movimento apesar das manifestações e protestos feitos pelos jogadores.

Para este ano, por causa da Copa do Mundo, já se sabia que não era possível fazer grandes alterações. Mas o que mais decepcionou os atletas foi o calendário para a temporada 2015 divulgado pela entidade.

O período reservado para a realização da pré-temporada é de 25 dias (de 7 a 31 de janeiro) enquanto que o Bom Senso pediu pelo menos um mês de trabalho antes do início dos campeonatos. Outra crítica é que o Brasileirão não será paralisado durante a Copa América, de 11 de junho a 4 de julho, e nas Eliminatórias para a Copa do Mundo e amistosos da seleção brasileira. O formato das competições também não sofreu alterações significativas, como queria o Bom Senso.

Mesmo assim, os líderes do movimento fazem uma avaliação positiva do primeiro ano de trabalho do grupo. Para o zagueiro Paulo André, do Shanghai Shenhua, da China, o Bom Senso já “conquistou inúmeras vitórias”. O volante Gilberto Silva, sem clube, também faz um balanço positivo e destaca a atuação dos jogadores no debate sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte, que deve ser votada na Câmara dos Deputados depois das eleições.

“Fomos a Brasília, discutimos as mudanças na Câmara, tivemos audiências com a presidente Dilma Rousseff. Esse é um grande avanço. No começo, a CBF nem queria nos receber. É verdade que as coisas não acontecem na velocidade que todos gostariam, mas aos poucos estamos alcançando os nossos objetivos”, diz Gilberto Silva. 

Bom Senso e clubes chegaram a um acordo e decidiram apoiar a criação de um órgão independente para fiscalizar as finanças dos clubes, que deverá ser constituído e custeado pela CBF. Funcionará como uma espécie de auditoria externa, sem vínculo direto com a entidade. Também ficou definido que os clubes que não pagarem suas dívidas perderão pontos e os dirigentes, o seu patrimônio particular.

Gilberto Silva diz que o Bom Senso é um “caminho sem volta”. Para o volante, que participa das discussões do grupo desde a primeira reunião no ano passado, o movimento inseriu os atletas nos debates sobre o futuro do futebol brasileiro. “Os jogadores passaram a ser ouvidos e isso deverá continuar para as próximas gerações”, diz.

O presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, lidera uma comissão de clubes criada no ano passado pela CBF para discutir o Fair Play Fiscal e Financeiro e atua como interlocutor da entidade com o Bom Senso e os demais dirigentes e elogia a atuação do grupo. “Os atletas têm os seus sindicatos que os representam, mas o Bom Senso veio para ocupar uma lacuna. Muitos dizem que eles são um contraponto aos clubes, mas a verdade é que muitas reivindicações são as mesmas. É evidente que há algumas posições divergentes, mas em muitas questões os interesses são os mesmos. O diálogo é muito bom”, diz.

Opinião semelhante tem o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello. “O Bom Senso é uma iniciativa que tem como principal objetivo melhorar as condições gerais do futebol brasileiro. Qualquer movimento ou ação que venha para somar e discutir o nosso esporte será sempre bem vindo. O Bom Senso hoje já está ajudando nos debates de reestruturação do nosso futebol. E espero que eles aprofundem o diálogo e a cooperação com os clubes.”

O primeiro presidente de clube a declarar publicamente apoio ao Bom Senso, no ano passado, foi Fernando Schmidt, do Bahia, que havia tomado posse dias antes do surgimento do movimento. E hoje ele avalia, assim como Gilberto Silva, que o Bom Senso não pode mais ficar ausente da mesa de negociações do futebol brasileiro.

“É muito positivo os atletas se posicionarem sobre temas que interessam a todos. É claro que quando você modifica um cultura atrasada, você desperta resistência e incompreensões, mas as conquistas acontecem passo a passo. Você não muda as coisas com uma vara de condão. É um projeto de médio e longo prazo”, diz.

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Pegamos os dirigentes de surpresa', diz Paulo André

Mesmo da China, jogador tem participado ativamente das discussões do movimento que ajudou a criar e liderou no ano passado

Entrevista com

Raphael Ramos, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2014 | 17h00

Como você tem acompanhado e participado do Bom Senso aí da China?

Participo ativamente das discussões do grupo via whatsapp, e-mail ou skype. O movimento conquistou inúmeras vitórias nesse primeiro ano de vida e, mais importante, aprendeu, meio que na marra, que o caminho a ser percorrido para recolocar o futebol brasileiro nos trilhos ainda será longo e repleto de dificuldades já que não se muda um sistema ou uma mentalidade, por mais arcaica que ela seja, do dia para a noite.

Qual é a sua avaliação sobre o primeiro ano de trabalho do Bom Senso?

Extremamente positiva. Conseguimos frear a LRFE na Camara e estamos discutindo emendas ao projeto. Fizemos duas audiências com a Presidente da República, levamos atletas à Brasilia, à CBF, apresentamos propostas concretas de Fair Play Financeiro e de Calendário para todo o futebol brasileiro. Mostramos a força e a união dos jogadores de diferentes divisões nas ações que promovemos dentro de campo. Depois da Copa do Mundo, muita gente começou a nos dar razão e o nível de discussão, seja na mídia, seja nas conferencias esportivas, alcançou um novo patamar. Além disso, conquistamos o apoio das jogadoras do futebol feminino, dos atletas do beach soccer, da associação dos executivos e também dos treinadores do futebol. Todos estes “players” estão insatisfeitos com a realidade atual, todos enxergam a urgente necessidade de mudanças que, infelizmente, dependem da "boa vontade" da CBF para iniciar o processo de retomada, reforma ou desenvolvimento do futebol nacional em todas as suas dimensões.

Dentro do planejamento traçado há um ano, o que foi realizado nesse período? O que ficou faltando realizar

Superamos até as nossas expectativas, sem dúvida. Ou alguém achava que jogadores poderiam fazer o que fizeram? Talvez tenha faltado lidar melhor com as politicagens do futebol. A situação era tão clara e evidente que acreditávamos que ao trazer luz à escuridão as coisas fossem acontecer naturalmente. Escancaramos o problema, o que pegou os dirigentes de surpresa. Eles se assustaram com o nosso nível de entendimento e estudo sobre as mazelas do nosso futebol e acabaram evitando o dialogo pela incapacidade de debater. Quanto mais eles demoram, mais a gente se aprofunda nos temas levantados. As pessoas (cientistas e estudiosos) preparadas para esse nível de debate (com o Bom Senso, por exemplo) estão fora das posições de tomada de decisão dos clubes, Federações e Confederação. Por serem associações majoritariamente político-burocráticas e não técnicas, o processo de entendimento e de reforma é quase nulo.

Por várias vezes houve ameaça de paralisação, mas essa expectativa não se confirmou. Os jogadores brasileiros ainda têm medo de fazer greve por causa das represálias?

Esse é um assunto mais do Sindicato da categoria, que defende o direito dos atletas, do que do Bom Senso. O Bom Senso luta por um futebol melhor para todos, não só para os atletas, mas para os clubes, para os torcedores, para os patrocinadores, etc... O BS, pela forte adesão dos atletas é capaz de facilitar a comunicação entre as partes e agilizar o processo. Mas o embasamento legal deve vir do Sindicato cujo relacionamento com os atletas, que era ruim, melhorou bastante nos últimos meses.

De qualquer forma, durante o ano, devido ao calendário do futebol brasileiro, há momentos distintos que dificultam a greve. Nos primeiros 4 meses, 15 mil atletas jogam os campeonatos estaduais. Não seria justo paralisar e atrapalhar a única oportunidade que os jogadores têm de aparecer para os grandes clubes do país. Pelo menos foi a essa conclusão que chegamos. Quando os estaduais acabam e mais de 10 mil jogadores ficam desempregados, os jogadores da elite deveriam paralisar o campeonato em solidariedade aos colegas que não terão emprego pelos próximos 6 meses. Isso foi amplamente discutido nos nossos grupos. Mas boa parte dos atletas ainda tem medo da pressão exercida pelos presidentes de clubes, especialmente do interior. No Campeonato Paulista desse ano, há relatos de que o Presidente da Federação ligou para todos os clubes da série A para impedir uma paralisação. Atletas foram ameaçados. Há exemplos que comprovam isso. Veja o que aconteceu no Nautico no ano passado e no Barueri esse ano, os que promoveram as paralisações foram afastados e mandados embora e até hoje têm dificuldade de se reinserir no mercado. Esperam a Justiça do Trabalho julgar o caso enquanto suas carreiras vão pro brejo. Ou seja, se os grandes jogadores (menos expostos as retaliações) não assumirem essa responsabilidade, como aconteceu na NBA ou na Liga Espanhola, a greve jamais acontecerá.

O Bom Senso começou com grande apoio popular, mas depois perdeu força. É possível recuperar essa força? Como?

O movimento não pode fazer uma ação toda quarta e domingo. Perder um minuto de jogo, sentar no chão, cruzar os braços eram ações que já estavam batidas. As pessoas pedem a greve. Mas quando um jogador fala em não entrar em campo, as torcidas organizadas ameaçam, os dirigentes pressionam, os conselheiros pedem a cabeça do atleta. Se todas essas ações feitas pelo Bom Senso não foram capazes de fazer a CBF e as Federações se mexerem, os 7 x 1 deveriam ter sido suficientes. Se nem o maior vexame da história do futebol brasileiro foi capaz de mudar alguma coisa, nos perguntamos, qual é o caminho a seguir? Quais são os nossos direitos? Queremos democracia, queremos o direito de votar no presidente da CBF para que tenhamos voz lá dentro. Há diversos modelos possíveis, mas alterar o estatuto da entidade depende única e exclusivamente dos presidentes das Federações. E por que alguém legislaria contra si próprio, diminuindo seu poder de decisão? A CBF é blindada pelo artigo 217, inciso I da Constituição Federal, que dá autonomia financeira e estatutária as entidades que administram o desporto no país. É necessário ir para Brasília para lutar por democracia. Só que esse é, como disse no inicio da entrevista, um caminho mais longo, mais demorado, cheio de armadilhas e artimanhas.

Então aos olhos do povo, parece que o Bom Senso perdeu força, mas no fundo, ganhamos espaço, aumentamos a consciência do torcedor de que as coisas não estão bem, aumentamos a consciência dos clubes de que não da para continuar como está, e aumentamos o interesse dos atletas em nos procurar para expor as condições precárias de trabalho e da falta do cumprimento dos contratos por todo Brasil. Recebemos reclamação toda semana, encaminhamos para o sindicato e soltamos nota de repudio ou de apoio. Enquanto isso, seguimos em Brasilia e buscamos o apoio dos juristas, advogados, deputados e senadores que lutam pelo esporte e pela democracia para mudar o arcaico e ditatorial sistema político esportivo brasileiro.

Faltam mais jogadores bem articulados no Brasil para enfrentar os dirigentes?

Não, falta democracia. No dia em que a nossa categoria representar 20, 30 ou 50% do colégio eleitoral, eu quero ver eles não sentarem conosco pra discutir. Atletas, treinadores, clubes da Série B, C e D devem ter o direito a voto. Enquanto os presidentes das federações forem maioria esmagadora e a clausula de barreira exigir a indicação de 8 dessas Federações para que alguém tenha o direito de concorrer ao cargo, esse modelo continuará e ninguém, nem o Bom Senso, nem o Papa e nem você poderá fazer alguma coisa para atrapalhá-los a se perpetuar no poder.

Você pensa em voltar a jogar no Brasil?

Estou com 31 anos, tenho contrato na China até o final de 2015. Depois disso quero voltar e encerrar a minha carreira no Brasil, conhecendo todos os riscos que eu estarei assumindo com tal decisão.

A eleição de Marco Polo Del Nero para substituir José Maria Marin na CBF sinaliza que pelos próximos quatros anos o cenário do futebol continuará o mesmo no Brasil?

Infelizmente, sim. Do Teixeira para o Marin e do Marin para o Del Nero, não mudou nada, só muda o tamanho do apetite.

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