Bósnia aposta em Dzeko para conseguir vitória na despedida da Copa

Atacante do Manchester City ainda não marcou nesta competição

Fernando Faro - Enviado especial a Salvador, O Estado de S. Paulo

25 de junho de 2014 | 08h39

Edin Dzeko tinha apenas seis anos quando foi proibido por sua mãe de jogar bola numa rua de Sarajevo, capital da Bósnia. Naquele 1992, o que parecia ser um dia qualquer se transformou em uma das tantas reviravoltas na sua vida: uma bomba explodiu em uma das ruas em que costumava jogar bola e matou diversas crianças, muitas da sua idade. Era a Guerra da Bósnia, a mais sangrenta em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial, mostrando sua face mais cruel ao tirar a vida de inocentes que em nada entendiam os conflitos separatistas da região da antiga Iugoslávia.

Jogar bola era uma das poucas coisas que o garoto Edin podia fazer em meio ao caos, mas nem mesmo durante a brincadeira conseguia ter paz e esquecer do inferno diário. Eram raras as vezes que as peladas não terminavam ao som das sirenes avisando de possíveis bombardeios na região, que lutava pela independência, e Dzeko rapidamente entendeu que o sonho de ser jogador era quase impossível diante da realidade de ter que lutar diariamente para acordar vivo na manhã seguinte e não ser mais um a ser enterrado num dos inúmeros cemitérios da cidade.

Em meio a tantas tragédias, a sorte sorriu pela primeira vez em 1995, quando um olheiro do Zeljeznicar, maior clube do país, o chamou para jogar nas categorias de base. Dzeko foi e só conseguiu se manter porque era muito maior que os garotos de sua idade e sua força física compensava a falta de habilidade. À época era meia, posição que manteve até a estreia entre os profissionais, em 2002, quando tinha 16 anos. Sem convencer, foi cedido ao Teplice, da República Tcheca. Demorou para emplacar até que foi enfim deslocado para o ataque. Então deslanchou e em 2006 foi o vice-artilheiro da liga nacional e chamou a atenção do Wolfsburg, que gastou 4 milhões de euros para contratá-lo.

Foi quando veio a explosão - desta vez não de uma bomba, como Dzeko se acostumou, mas sim do seu próprio talento que o levaria às alturas em pouquíssimo tempo. Já no primeiro ano, ajudou a reerguer o clube, que quase havia sido rebaixado na temporada anterior, e os Lobos terminaram na quinta posição. Na temporada 2008/2009 marcou 26 gols e deu dez assistências em 32 jogos e ajudou o modesto time a chegar ao título da Bundesliga, números que chamaram atenção dos grandes clubes da Europa. Em 2011, o Manchester City gastou 32 milhões de euros para contratá-lo e o elevou a um dos principais atacantes do continente na atualidade.

Mas nem a fama e a fortuna apagaram as cicatrizes e as lembranças dos dias difíceis. No ano passado, ao marcar um gol contra o Arsenal, Dzeko levantou a camisa do uniforme e mostrou uma mensagem que dedicava o feito "Aos amigos da minha vizinhança", muitos dos quais não viveram o suficiente para vê-lo realizar um sonho que nem nas fábulas mais improváveis poderia virar realidade.

Deixar a Copa com a primeira vitória bósnia - de preferência com um gol seu - da história seria um prêmio de consolação para o atacante, idolatrado em seu país. Mas mesmo que ela não venha, ele sabe que seus compatriotas ainda o terão na conta de ídolo nacional. Se no Mundial o triunfo não vier, a luta pela vida Dzeko ganhou. E de goleada.

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