Botafogo troca Gatorade por cana

A precária infra-estrutura do Botafogo, finalista do Campeonato Paulista, fica evidente tanto no ônibus, fabricado em 1970 e que transporta os jogadores para os treinos, como no campo de treinamento, na fazenda São José, em que se planta cana-de-açúcar. O técnico Lori Sandri, no entanto, resolveu encarar com bom-humor a escassez de recursos. E até transforma isso num marketing do time. "Enquanto o Corinthians treina com suquinho e Gatorade, meus jogadores chupam cana para ganhar uma glicose", brinca o treinador, de 52 anos. Nesta quinta-feira, um torcedor perguntou a Lori se parte do dinheiro que o clube vem ganhando por estar na fase final do Campeonato Paulista vai ser usado para reformar o ônibus, batizado de "Jabiraca", que, aos 31 anos de idade, tem bancos rasgados, buracos no assoalho e vive quebrando. "Já pensou se ganharmos o campeonato com esse ônibus?", rebateu. O treinador diz que trabalha para "tentar diminuir, dentro de campo, as enormes diferenças entre os dois clubes." A comissão técnica do Botafogo é enxuta e eclética. Quando o motorista Adalberto Tolentino, de 50 anos, não pode dirigir o ônibus por algum motivo, a função cabe ao roupeiro Arildo. Porém, curiosamente, nesta quinta-feira a jardineira sofreu uma "distensão" (quebrou a embreagem), como disse Lori Sandri. Tolentino teve uma folga. Os jogadores foram transportados num ônibus de turismo, bem mais moderno, emprestado por uma empresa da região. "Eu falei que talvez não agüentasse até o final da competição", brincou o técnico. "Brigo por uma estrutura desde que cheguei ao Botafogo", diz Sandri, que, reivindicando, conseguiu a reforma do vestiário, dos chuveiros e da sauna. Ainda é pouco, mas o técnico, que tem contrato com o clube apenas até 30 de junho, tem outras preocupações no momento. Seu objetivo é preparar o time para que não se repita a goleada de 5 a 1 sofrida na fase de classificação. "Vamos tentar fazer uma pequena surpresa para o Wanderley no jogo de domingo. Só não podemos repetir o erros do primeiro jogo." Surpresa, na verdade, o técnico teve ao saber que Luxemburgo utiliza um ponto eletrônico para se comunicar com seus jogadores em campo, de acordo com reportagem veiculada nesta quinta-feira pela TV Globo. Perguntado se o clube teria condições de lhe oferecer recurso semelhante, perguntou: "E o dinheiro? Custa caro?", disse, acrescentando que nem conhecia essa tecnologia. "O Lori vai na garganta mesmo", emendou o goleiro Doni. O técnico nem parece animado a pedir que a diretoria tente vetar o recurso. "Não compete a mim dizer se isso pode ou não ser usado. Na minha opinião não pode, como não podem ser usados correntinha, anel, brinco. Em todo caso, é uma arma a mais para o adversário e que pode ser muito útil. Eu gostaria de usar se pudesse." Cabelo polêmico - Com folha de pagamento de R$ 90 mil (só com jogadores), e mais R$ 40 mil com a comissão técnica, o Botafogo ainda se vê às voltas com uma dívida de cerca de R$ 17 milhões. Será paga a longo prazo, mas a carência preocupa Sandri. "Não podemos levar, quando vamos fora, uma barreira móvel para treinar cobranças de faltas", exemplifica. Hoje mesmo, o dono da fazenda onde treinaram precisou usar seu carro e buscar os cones esquecidos na Jabiraca. Mas, como a estrutura talvez demore, Sandri cuida do time para a decisão. E trata de cuidar da união do grupo. Ele não aprovou a atitude do zagueiro Bell, que pintou o cabelo de caju na quarta-feira. "Foi promessa, já cumpriu, mas tem até segunda-feira para voltar ao normal", avisou o treinador. Bell fez promessa para Santo Expedito por ter chegado à final, mas também não gostou do novo visual e garante que pintará o cabelo de preto sábado. "Tá feio demais", disse.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.