Felipe Rau/Estadão
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Brasil colônia

Europeus têm tanto poder de sedução que parece até feio torcermos por times daqui

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2018 | 04h00

Não sei como o amigo reage, mas tem hora em que bate uma tristeza com o futuro de nossa paixão pelo futebol doméstico. Explico. A Série A do Brasileiro voltou com tudo, houve rodada no meio da semana, com diversos clássicos, e o mesmo se repete agora. Só por aqui, tivemos na noite deste sábado São Paulo x Corinthians e neste domingo o Palmeiras volta ao Allianz, depois de um mês e meio de ausência, para pegar o Atlético-MG. Fora um monte de equipes espalhadas pelo País a lutarem por título, Libertadores ou para não serem rebaixadas.

Bacana, não é? Também acho. Mas, os assuntos que mais nos chamam a atenção referem-se a jogadores patrícios que atuam no exterior. A transferência milionária de Alisson da Roma para o Liverpool foi cantada em verso em prosa. Assim como ganhou destaque em rede nacional a apresentação oficial de Vinicius Junior no Real Madrid. Temas que atingiram o ápice de comentários nas redes sociais. 

Também não sai da pauta o destino de Neymar. O moço saiu da Rússia de bico calado, após a desclassificação, e reapareceu em evento da instituição que leva o nome dele. Claro, deveria ser ouvido – e foi. Nem sei para quê, pois não saiu de chavões como “o Brasil era favorito, mas infelizmente não deu”, “a imprensa ouve historinhas” (sobre possível ida para o Real Madrid), “quem não está lá (no campo) não sabe o que se passa”, etc e tal. Enfim, nada que desse pistas de amadurecimento após o fiasco da amarelinha.

Não bastasse, há preocupação em torno do comportamento dele, assim que retornar ao Paris Saint-Germain, agora que o companheiro Mbappé se reapresenta como campeão do mundo, revelação da Copa e deve tomar a liderança na preferência da torcida. O assunto está bem retratado nesta edição, nas reportagens dos correspondentes Andrei Netto e Jamil Chade.

Sob o ponto de vista jornalístico, não há o que discutir sobre o acerto do enfoque. Neymar é personagem internacional, e brasileiro. Vale, portanto, a reflexão. Assim como foi inevitável abrir espaço para o desembarque de Cristiano Ronaldo na Juventus. 

Jovens e turma de meia idade se ligam muito na bola que rola lá fora. 

Mas dá um aperto – e como! Tempos atrás, as andanças de nossos conterrâneos por este planeta azul seriam seguidas com discreta curiosidade. Torceríamos para que fossem felizes e fizessem muitos gols, para honrarem nossa tradição de exportadores de talentos de alta qualidade. De vez em quando, uma entrevista maior para matar saudade. Agora, mesmo a distância se revela mais importante saber de suas diferenças com colegas de times gringos do que os percalços com os quais se deparam rapazes que atuam em casa.

Triste realidade vermos nestas bandas com maior frequência crianças, adolescentes e marmanjos falarem em “meu Real”, “meu Barcelona”, “meu Manchester”, “meu Bayern”. Já vi até “meu Verona”, “meu Alavés”, “meu Hoffenheim”, “meu Leicester” e assim por diante. Eu, hein, “meu” só se for Corinthians, São Paulo, Santos, Ponte, Palmeiras...

Parece que encampamos tanto o sentimento de colônia diante do poder de grana e sedução dos europeus que ficamos até meio sem graça de admitirmos amor, única e exclusivamente, por agremiações da terra. Soa fora de moda, credo!

Isso nos absorve a ponto de a crônica deste domingo quase passar batida sobre o campeonato. O Palmeiras entra em campo como se não tivesse ocorrido a pausa para o Mundial, ou seja, pressionado e em busca de identidade. De tropeço em tropeço, ainda mais como mandante, pode distanciar-se da briga pela taça. O Santos visita a Chapecoense também com um dilema: como ter futebol mais consistente e abandonar a parte de baixo da tabela.

 

 

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