Sam Robles| CBF
Pia Sundhage já conquistou medalhas olímpicas como técnica de Estados Unidos e Suécia Sam Robles| CBF

Pia Sundhage já conquistou medalhas olímpicas como técnica de Estados Unidos e Suécia Sam Robles| CBF

'Brasil é muito mais do que a Marta', diz Pia Sundhage sobre a seleção feminina

Bicampeã olímpica, técnica sueca aposta na força coletiva para levar a seleção ao ouro inédito; veja quem é e como pensa a treinadora sueca

Paulo Favero, enviado especial/TÓQUIO , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Pia Sundhage já conquistou medalhas olímpicas como técnica de Estados Unidos e Suécia Sam Robles| CBF

O futebol feminino brasileiro pensa alto nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Já enfrentar China, Holanda e Zâmbia na fase de grupos. E uma das grandes atrações do time é a técnica sueca Pia Sundhage, que aceitou o convite para comandar a equipe dois anos atrás e agora tem seu maior desafio.

A treinadora bicampeã olímpica com os Estados Unidos vê o Brasil mais competitivo e atuando com muito mais intensidade em comparação do que quando chegou. "Vamos fazer tudo que pudermos para ganhar uma medalha", afirmou. O Brasil já tem duas pratas. Quer o ouro no Japão.

Carismática, Pia costuma pegar seu violão e cantar músicas brasileiras, como Anunciação, de Alceu Valença, entre outras. A vitoriosa comandante da seleção está se sentindo cada vez mais em casa no Brasil. "Mudei para o Rio de mente aberta, não queria perder a oportunidade de aprender algo", disse. Confira a entrevista da técnica ao Estadão dias antes de começar a Olimpíada.

O que te motivou a aceitar o convite para treinar a seleção feminina do Brasil?

Quando recebi o convite, pensei um pouco e no dia seguinte disse OK. Sabia que era isso que eu queria fazer. Quando se fala em futebol na Suécia, se fala em Brasil. Achei que era o momento e foi a melhor decisão que eu deveria tomar. Muito se fala da Marta, que é uma das mais famosas jogadoras no mundo, mas é muito mais do que isso, o Brasil tem ótimas atletas.

Você quebrou dois tabus, sendo a primeira mulher na seleção feminina, e a primeira técnica estrangeira. Como vê isso?

A CBF tentou fazer algo diferente do que fazia antes, e precisa ter muita coragem para isso. Sou a primeira técnica de outro país, e isso me deixa muito orgulhosa. Estou feliz por esses dois anos e posso sentir que algo está mudando. Eu quero fazer parte dessas mudanças, principalmente na atitude e em como olham para o jogo das mulheres.

O que mudou desde que você assumiu?

Do meu primeiro jogo em comparação com o último, fica evidente que o time é mais competitivo, é melhor e atua com mais intensidade. Claro que não é só o time nacional que precisa ir bem, é necessário ter jogadoras em grandes ligas para que exista uma mudança de atitude.

Muito se falava da dependência da Marta na equipe e hoje parece que o Brasil consegue ter outros destaques. Foi um trabalho que você fez?

Em 2019, na Copa do Mundo, na derrota para a França, a performance da seleção foi boa e o time teve um pouco de azar. Mas acho que a questão é como o jogo é disputado atualmente. São poucas atletas que carregam o time nas costas, ainda mais no futebol disputado hoje. Você precisa de um time e não apenas de uma estrela. Então, é importante encontrar grandes jogadoras e dar apoio a elas. Por isso acho que o Brasil tem um grande futuro, pois tem muitas jovens que precisam de direção.

E o que dá para falar da Formiga, uma veterana de 43 anos que ainda é muito importante?

Ela é importante por duas razões: histórica, pois pode compartilhar várias histórias, mas também pelo jeito que ela atua com solidez no meio de campo. A questão é se pode atuar em todas as partidas. Mas para isso existem outras atletas. Como falei da Marta e agora da Formiga, quero dizer que as duas são fantásticas. É um privilégio estar perto delas, ser técnica delas e ser parte da jornada delas na Olimpíada. Eu realmente estou apreciando isso.

Qual a expectativa para os Jogos de Tóquio?

Os treinamentos foram bons e falamos sobre chegar às quartas de final. Claro que não será fácil, teremos grandes adversários. Se passarmos, vamos para as quartas e qualquer time que chega nesta fase tem condições de vencer. Eu estive nesta situação em algumas oportunidades e sei que é uma diferença muito pequena entre o sucesso e o fracasso. Vamos fazer tudo que pudermos para ganhar uma medalha.

Quais são os principais adversários do Brasil?

Os Estados Unidos, que são os atuais campeões mundiais, e em com apenas uma exceção fizeram ótimas campanhas olímpicas. Se olhar a Copa do Mundo, sete times europeus chegaram nas quartas. Então coloco Suécia, Grã-Bretanha e Holanda com boas chances. E não podemos descartar o Japão, que joga em casa e tem uma equipe que é muito difícil enfrentar.

Como é sua rotina aqui no Brasil? Você imaginava que se adaptaria tão facilmente?

Mudei para o Rio de mente aberta, não queria perder a oportunidade de aprender algo. De futebol e também de cultura. A primeira coisa é que a língua me deixa maluca, mas apesar disso existem pessoas gentis que são diferentes de mim. Minha jornada nesses dois anos tem sido incrível. Aproveito todos os dias e vou continuar assim.

Você está se tornando mais brasileira?

(Risos) Eu realmente adoro as frutas, são muito saborosas, os vegetais também. Eu adoro música, tenho dificuldade de encontrar o ritmo, mas gosto de cantar, é um desafio para mim. É o jeito que eu vivo. É um caminho longo de aprendizado.

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Formiga chega à 7ª Olimpíada em busca do tão sonhado ouro

Jogadora da seleção feminina de futebol participou de todas as edições dos Jogos desde a estreia da modalidade

Paulo Favero, enviado especial/TÓQUIO, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2021 | 05h00

A história da meio-campista Formiga, da seleção feminina de futebol, se mistura com a história do futebol feminino nos Jogos Olímpicos. Aos 43 anos, ela esteve presente em todas as edições desde que a modalidade estreou, em Atlanta-1996, e está no Japão para sua sétima e (talvez) última Olimpíada em busca do tão sonhado ouro. O Brasil estreia na quarta-feira, diante da China, às 5h (horário de Brasília). Uma das principais jogadoras da seleção, ela bateu duas vezes na trave, mas agora, sob o comando da experiente técnica Pia Sundhage, vê condições de o Brasil chegar longe.

"A expectativa é muito boa, estou confiante. Principalmente por ver que as meninas estão se cuidando e, com a técnica que temos hoje, a chance é grande de trazermos essa medalha. Sinto que agora o ouro vem para o Brasil. Dessa vez está sendo diferente", explicou Formiga, que ganhou a medalha de prata em duas ocasiões, nos Jogos de 2004 e 2008.

A estreia das mulheres no futebol dentro do programa olímpico foi em 1996. Formiga, então com 18 anos, atuava pela equipe que tinha como craques Sissi, Kátia Cilene e Pretinha, entre outras. Ela era a caçula do time comandado por José Duarte, mas já era titular como volante. Mas, na semifinal, o Brasil sofreu a virada da China nos últimos minutos e ainda perdeu a disputa do terceiro lugar, saindo sem medalha.

Quatro anos depois, em Sydney, o roteiro foi parecido, com derrota na semifinal para os Estados Unidos por 1 a 0 e novo revés na disputa do bronze. Já em Atenas-2004, Formiga foi pela primeira vez ao pódio. A medalha de prata veio após uma derrota na final para os Estados Unidos na prorrogação. E em Pequim-2008, mais uma prata, novamente em derrota para os EUA no tempo extra.

Nos Jogos de Londres, em 2012, o Brasil teve sua pior campanha, parando nas quartas de final após ser derrotado pelo Japão. E, na Olimpíada do Rio, em 2016, a seleção feminina ficou sem medalha após ser eliminada nas semifinais pela Suécia nos pênaltis e perder para o Canadá na disputa da medalha de bronze. Curiosamente, a atual técnica do Brasil, Pia Sundhage, comandava a Suécia naquela edição no Rio e também era a técnica dos Estados Unidos no bicampeonato olímpico de Pequim-2008 e Londres-2012.

"Sou feliz por ter trabalhado com tantos profissionais qualificados na seleção e a Pia é um deles. Ela está mudando muitas coisas, quem vive o nosso dia a dia sabe o quanto estamos evoluindo. Sabemos da exigência e que temos condições de chegar bem na Olimpíada com esse trabalho que ela vem fazendo", comentou Formiga, elogiando sua nova comandante.

Ela lembra que a chegada da técnica sueca derrubou diversas barreiras na Confederação Brasileira de Futebol (CBF). "A vinda da Pia quebrou tabu por ser a primeira de fora do País e veio para apoiar o futebol feminino e abrir os olhos das pessoas mostrando que é possível trazer pessoas de fora para nos ajudar e ajudar a modalidade. Se vem com ideias boas, temos de abraçar isso e aprender. O currículo dela já diz tudo e eu sou grata por trabalhar com ela e a cada dia aprender mais", disse.

LEGADO

Formiga vinha jogando no Paris Saint-Germain, na França, e optou por voltar ao futebol brasileiro neste ano para vestir a camisa do São Paulo. Assim como já faz na seleção, vai tentar na equipe paulista servir de exemplo para a geração mais nova. "Fico feliz de ter vencido na vida, por tudo que eu passei. São poucas pessoas que sabem como foi o meu começo. Os mais próximos sabem o quanto eu sofri para chegar onde estou. Foi tudo com muita dedicação e superação", contou.

Ao longo de mais de duas décadas, Formiga construiu um legado muito importante na seleção feminina, até porque é a principal referência entre a geração anterior, talentosa mas que carecia de estrutura, e a nova, que já aparece com um desenvolvimento maior da modalidade no País. "Quando se chega no topo, muitas se esquecem de onde vieram e o que passaram para chegar em seu objetivo. Tem de colocar os pés no chão e buscar sempre mais, sempre o melhor. É preciso ter consciência de que nada cai do céu e não podemos entrar na zona de conforto. Espero que as meninas de hoje valorizem tudo que ganharam até agora e o que ainda podem ganhar lá na frente", afirmou.

A longevidade de Formiga no esporte também é outro exemplo para as mais novas. Ela avisou que o contrato com o São Paulo é o seu último da carreira. Mas quem garante que ela não esteja jogando em 2024, quando haverá os Jogos Olímpicos em Paris? "O meu segredo é água de coco", brinca. "Meu corpo é minha ferramenta de trabalho, preciso cuidar dele e da minha mente. Existem atletas com 38 anos que já pensam em parar. Por isso me cuido. Não tenho restrições alimentares, mas procuro me alimentar bem e fazer as coisas por amor."

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